Lie to me, Moro

Lie to me, Moro

O Brasil assistiu hoje, estarrecido, a dois pronunciamentos, e não duas coletivas, pois a intenção de ambos era comunicar uma mensagem previamente estruturada, e não responder a perguntas da imprensa, o que, alás, foi muito bom, pois a maioria dos jornalistas não tem nada de inteligente a questionar. O título deste artigo é baseado na série em que o psicólogo dr. Carl Lightman trabalha para a polícia para identificar se os suspeitos interrogados estão ou não mentindo, e para isso usa suas habilidades de leitura corporal ou facial. Vou dar uma de Ligthman, embora eu não seja psicóloga, e acrescentar minha habilidade de linguista para decifrar a esfinge Moro, um livro aberto exibindo suas versões e verdades.

Às 11h o ministro, agora ex-ministro Sérgio Moro convocou a imprensa para divulgar o que muitos já sabiam: sua saída do Ministério da Justiça. Metódico, como é de seu perfil, juiz de carreira por 22 anos, Moro tem um forte senso de hierarquia que conduz à vaidade grande parte de chefes de repartição, funcionários que têm o mote insistente do “passar por cima”, centralizando informações e poder. Faz parte do cargo, mas não se coaduna com a nova política de delegar responsabilidades e abrir mão de liderança para um bem maior. Humildade nunca foi seu forte, convenhamos. Sua declaração de “não fiz mais que minha obrigação” aos que elogiavam sua aturação na Operação Lava-Jato, não convenceu os que o viram nas solenidades internacionais recebendo prêmios e seu rosto lívido quando ovacionado por populares.

A começar pela deselegância de expor publicamente sua demissão por basicamente nada e tudo, ao mesmo tempo. Sua demissão poderia ocorrer com um telefonema e um pedido em cima da mesa, mas Moro fez questão de se exibir em rede nacional. Melhor para nós. Sistemático, levou um roteiro de muitas páginas para desenvolver seu discurso de meia hora que se dividiu em quatro partes: 1. Apresentação de sua biografia e relatório de seu trabalho no ministério em comparação com os anteriores, em ordem cronológica. 2. Apresentação pessoal, início de sua relação com o presidente. 3. Os motivos que o levaram a pedir demissão e a demissão em si. 4. Lamentações e futuro próximo.

Entretanto, a Verdade não estava no roteiro, mas no improviso. Sempre desviando o olhar, apresentou-se sentado atrás de uma mesa, impondo o distanciamento necessário para se proteger. Seu rosto tentava demonstrar alguma emoção, mas o tom de voz que oscilava entre o agudo e o grave, que lhe é característico, estava mitigado por outro mais estudado, mais cuidado. Suas mãos ficaram cruzadas por boa parte do início da exposição e alguns gestos contidos acompanhavam o olhar sobre o papel.

Por várias vezes voltou ao roteiro, mas revelou dois fatos apenas que poderiam ser a causa de sua saída: A demissão involuntária do diretor da PF, Maurício Valeixo, bem como a escolha de seu sucessor; e discordâncias das políticas de intervenção em seu trabalho pelo presidente Bolsonaro. Mentira.

Em seus comentários, quando sua voz às vezes embargava e seus braços se abriam sobre a mesa, Moro listou seis motivos que batem na mesma tecla: 1. Ele não foi consultado sobre indicações. 2. O presidente também não o consultou sobre os motivos de demitir Valeixo. 3. Ele não conhecia os indicados. 4. Ficou sabendo da exoneração de Valeixo pelo Diário Oficial. 5. Todos os seus pedidos foram ignorados. 6. Foi prometido “carta branca”, e a promessa não se cumpriu. Todas esses comentários amargos não estavam no roteiro, mas na espontaneidade da alma que se revela quando um assunto puxa o fio do outro. Isso foi verdadeiro. O ressentimento, o orgulho ferido por ser preterido de uma decisão, de ser apartado de algo que não pode controlar e a necessidade de se reportar e a obrigação ser o representante do governo, abrindo mão de sua individualidade exerceram uma pressão que funcionários públicos raramente podem suportar.

O mais grave e que poderia passar como verdade, no entanto, ele plantou no início da segunda parte de sua fala. Adiantando-se a uma suposta acusação de querer se tornar ministro do STF, ele coloca as palavras na boca de Matildes impessoais “Quero abrir um parêntese de uma informação equivocada de que eu condicionaria minha permanência a uma cadeira no STF”. Quem mencionou? Quem falou? Esse foi o momento em que ele se sentiu mais à vontade e esboçou um meio sorriso, não porque achasse graça na acusação. Por que seria, então?  Como juiz, ele se comporta como os suspeitos que interroga, jogando verde, pois ao mencionar a suposta demanda por cargo, estava plantando algo de que poderia se defender e tinha a certeza de que o assunto viria à baila quando da réplica de Bolsonaro, que ocorreu no mesmo dia, às 17h. Agora mesmo toda a imprensa está como tonta dando a mesma manchete fabricada por ele: “Moro nega ter pedido indicação ao STF”. Está mentindo. Seu corpo e sua menção antecipada do fato revelam.

Gostaria de me estender mais sobre os comentários do ex-ministro, que passa por elogiar uma corporação e delegar a ela indicações de representantes da PF nos estados, até o risível desconhecimento dos problemas em Pernambuco e no Rio de Janeiro. “Por que trocar?” Ora, dois estados em que o Ministério deveria atuar com mais rigor, em vista dos desmandos e da corrupção, e cujos delegados da PF têm uma atuação pífia. 

Sua conclusão: “Tenho o dever de proteger a instituição da Polícia Federal”. Ele continua à vontade e com os braços abertos e sobe o tom, a não ser quando diz que “o presidente me disse isso expressamente”, em que ele recolhe a voz. Em uma rápida leitura, é incoerente atribuir uma fala sem convicção em um pronunciamento tão importante. O mesmo tom decresce quando Moro desmente a exoneração a pedido de Valeixo: “Isso não aconteceu”, soa quase imperceptível, devido a seus lábios estarem contritos e a mandíbula, tensa. Mentira.

No final, ele sobe bem o volume da voz e seus olhos encaram o público: “Dei apoio e recebi apoio”. “Não enriqueci como juiz nem como ministro”, “Sempre respeitei o mandamento do Ministério da Justiça”. Ao afirmar a competência da PF ele se vira para o lado de forma brusca, como não o fez durante toda a exposição, buscando aprovação de alguém que está a seu lado. Alguma dúvida? Falta de segurança?  Esses são os momentos em que aparece um Moro verdadeiro, que ignora a liturgia do cargo, mas que revela cansaço ao balançar os óculos que ele nem sequer colocou.

O que se evidencia ao final do pronunciamento de Moro, infelizmente, é sua imaturidade para ocupar um cargo que ele julga apenas técnico, mas é também político, pois ministro é cargo de confiança e a maioria das pressões que recebeu foram de desafetos do presidente, seja a imprensa ou parlamentares e militantes de esquerda. Fica também a lição para Bolsonaro: ministro deve ter muito equilíbrio e saber agir sob pressão. Abandonar as vaidades e ter empatia com a população, com o presidente e a equipe. Um ídolo de areia derrete à primeira ventania.

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