Purgatório: Foram as Pandemias motivações para sua popularização?

Purgatório: Foram as Pandemias motivações para sua popularização?

O purgatório é uma localidade onde as almas (enquanto mortas) com dividas leves em vida tem a oportunidade de sana-las para assim serem guiadas ao paraíso. Basicamente ao morrer uma “analise” sobre sua vida acontece, isso tudo de forma instantânea, e então um novo destino é traçado para sua alma: Paraíso enquanto bom, Inferno enquanto mau ou Purgatório enquanto há redenção.

O historiador Le Goff, que dedicou sua vida aos estudos do período Medieval, conta em seu livro, “O nascimento do Purgatório”, como era posto esta localidade para o homem medievo:

Para os supremamente bons, fica o lugar supremo, aos supremamente maus, cabe aqui o ínfimo, e aos bons e maus, fica o “lugar do meio”. Entre o lugar supremo e o lugar do meio existe um lugar para os medianamente bons. Entre o lugar do meio, e o lugar ínfimo, há um lugar para os medianamente maus. O lugar supremo é o céu, onde se destinam os “bem-aventurados”. O ínfimo será o inferno, onde estão os danados. O do meio é o mundo, onde estão os justos e os pecadores. Entre o supremo e o médio há o paraíso (terrestre). Entre o médio e o ínfimo, há o purgatório, onde são punidos aqueles que não fizeram penitência neste mundo, ou que morreram carregando alguma mancha venial.” (Le Goff, O nascimento do Purgatório, pp 263)

Mas terá as pandemias, as guerras e entre tantos outros trágicos acontecimentos que levaram os homens a morte, alguma parte na popularização e até mesmo na criação do Purgatório?

Seu Inicio

Em minha vida acadêmica tive a oportunidade de pesquisar a fundo sobre o Purgatório, percebi sem demora sua vasta extensão de citações, e também seu “começo”. Ao tentar responder “De onde surgiu, e quando?” a cada resposta que obtinha eu era lançado para mais longe ao tempo, de modo que responder esta questão é posicionar apenas um dos vários pontos ou hipóteses a vista. Iremos nos ater somente a sua concepção “institucional”, ou seja, quando a Igreja efetivou sua existência por volta do ano 1200 com a autenticação do papa Inocêncio III.

A peste negra surge na Europa somente em 1347, ou seja, praticamente 150 anos depois, isso bastaria para responder à questão genericamente, principalmente se considerarmos também que a Peste de Justiniano ficará muito para trás (541 a 750 d.C). Porém, cabe a nós aprofundarmos um pouco mais para ter maior veracidade e uma resposta legitima.

No final do século 12, entre os anos de 1170 a 1190, com as universidades já consolidadas na França, muitos teólogos estudiosos se debruçavam em obras anteriores para estuda-las com o intuito único de agregar conhecimento cristão a Igreja. Este foi o momento em que o purgatório ganhou cada vez mais corpo, porém ele sempre existiu de forma discreta e sem denominação, estes teólogos do purgatório apenas compilaram e recriaram de forma explicativa a sua existência.  Depois da legitimação do Papa Inocêncio III, cada vez mais pessoas adentraram neste mundo de estudos para entender mais sobre o que era o purgatório.

Um anjo salvando uma alma da penitencia.

A Pandemia na Criação e na Popularização

Mas voltando a questão das pandemias. Como já escrito por mim no artigo “Um Santo em uma Pandemia: Papa Gregório o Grande”, Gregório tomou para si a responsabilidade de guiar as almas destas pessoas prestes a morrer frente as calamidades da peste, direto para o céu, após estes eventos, em seus escritos, o papa se aprofunda cada vez mais na questão do além vida, se tornando um dos “pais do purgatório”.

Deste modo, a Peste Bubônica de Justiniano e Gregório, de certa forma, tiveram ligação direta com a criação institucional do Purgatório no século XII. Em relação a sua popularização crescente e constante nos séculos seguintes, a peste negra toma o protagonismo na mente dos homens, criando uma ligação próxima entre a vida e a morte, o ser na terra, e o ser no além. O que foi autentificado então em 1200 passou a ser conhecido pela vasta maioria das populações Europeias nos séculos vindos após os eventos da pandemia.

Grandes obras foram criadas com a temática sobre a morte, como relatei em um artigo anterior “Pandemias na História: Peste Negra e o Novo Olhar do Homem”, algumas delas em âmbito literário. A maior, sem dúvida, é a “Divina Comedia” de Dante Alighieri em que a trindade do além vida (Céu, Inferno e Purgatório) é trazida de forma homérica aos leitores medievais.

O homem medieval, com sua vida incerta e estimativa baixa, tinha no purgatório a esperança de livrar-se de suas dividas terrenas e assim alçar aos céus. O temor do inferno era tão intenso quanto o da morte, as descrições de ambas eram obscuras para dizer o mínimo, a única saída saudável de uma vida sofrida frente a tanto morticínio, era o paraíso, de modo que a Igreja nunca foi tão presente quanto no período de peste.

Dito isto, sem dúvida que sim, as pandemias nas eras cristãs tiveram grandes papeis não somente na popularização do purgatório, como também em sua criação. Era um refúgio em meio desolação que o homem vivia. Para existir é no mínimo necessário ter fé, a vida era dolorosa, portanto a busca de proteção era cotidiana. A presença única ali não era somente da morte, apesar da Danse Macabre ser inevitável, seu lugar do outro lado também era, e para contrastar com a morte, somente a vida, cabia então a cada um delinear seu caminho seguinte: O Paraíso, O Inferno ou O Purgatório.

Referencias:

GOFF, Jacques Le. Maria Ferreira. O Nascimento do Purgatório. Rio de Janeiro: Editora Vozes. 2017.

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