Literatura

Ben Hur: A aventura da fé

Reler um livro é sempre uma surpresa e uma redescoberta; redescoberta, pois, embora já tenhamos adentrado suas paisagens e perscrutado a mente de suas personagens, não somos o mesmo leitor, muitas leituras foram feitas depois daquela primeira e muitas experiências foram vividas depois, o que torna esse novo encontro notadamente mais profundo, atento e com significados diferentes e talvez até mesmo únicos. Surpresa, sim, devemos reconhecer que um clássico nunca se extingui em sua riqueza estética e conteudística, ao contrário, ele nos confronta a cada releitura e nos desafia a vermos, percebermos e compreendermos tudo que escapou às anteriores leituras, nisso está o surpreendente, como diria o brilhante Italo Calvino: “ Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.” e “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”

Ben Hur assombra por tocar em algo que nunca será “expurgado” da humanidade, sim, perdão aos que levam as previsões e esperanças ateístas de Richard Dawkins e Christopher Hitchens como certezas, pois, a necessidade de vislumbrar o transcendente e o invisível sempre fará parte da humanidade.

Religiões passarão, serão renovadas em suas liturgias e dogmas, porém, essa busca pelo Divino não cessará. Deus sempre se comunicará com a chama da vida que habita em nós, pois veio Dele e isso nos torna eternamente suas criações. Abandonar o que vai além da matéria seria abandonar a própria humanidade que há em nós.

Wallace se sobressai como romancista histórico através deste livro por ter optado por relegar a imaginação e criatividade para um segundo plano, não sendo o material principal que compõe o seu mundo e sim a precisão em recriar a cultura, arquitetura e as paisagens naturais da palestina, como diria a articulista Amy Lifson:

“No verdadeiro estilo de advogado, ele chegou aos livros: primeiro a Bíblia, e depois todos os livros de referência sobre o antigo Oriente Médio que ele conseguia encontrar. Ele suspeitava que um romance sobre Jesus Cristo fosse examinado por especialistas, de modo que plantas, pássaros, roupas, alimentos, prédios, nomes, lugares – tudo tinha que ser exato. Examinei catálogos de livros e mapas e enviei tudo o que provavelmente seria útil. Escrevia sempre com um gráfico diante de meus olhos – uma publicação alemã que mostrava as cidades e vilas, todos os lugares sagrados, as alturas, as depressões, os passes, as trilhas e as distâncias. Ele viajou para várias bibliotecas em todo o país para garantir que tinha as medidas exatas para o funcionamento de um trirreme romano. Ele forneceu detalhes após detalhes sobre o design de carros persas versus gregos e romanos. Ele fez tudo menos que ir a Jerusalém. Anos depois, quando ele realmente visitou a Terra Santa, ele testou sua pesquisa e disse com orgulho: “Não encontro motivo para fazer uma única alteração no texto do livro“.” ( Grifo Nosso)

Tal meticulosa precisão histórica, confere a obra uma veracidade e cativante mergulho no mundo antigo, o que converge com a leitura, dando-a uma fluidez primorosa e tornando o conflito interno e externo do personagem Judah Ben-Hur ainda mais impactante e relevante para o leitor. O detalhismo serve ao narrador para realçar o drama e não como mero fetiche estético que mais dispersa que capta a necessária atenção do leitor para criar os laços de empatia que o seduziram até a última linha. Nisso poderia o escritor português Eça de Queiroz, caso tivesse encontrado seu contemporâneo americano, ter tido um salto qualitativo em suas obras… Mas deixemos o grande, porém, às vezes,  maçante , Eça, em paz.

A estória ficcional trata do embate que se dá entre o jovem Judah e seu amigo de infância o jovem e nobre romano Messala, filho de um coletor de impostos romano cuja família tinha sido agraciada com honras e poder na ascensão de Octávio Augusto, como imperador de Roma. Algo que terminaria com o envio do nobre judeu, falsamente acusado de tentativa de assassinato do governador romano da Judéia, a ser condenado a escravidão, indo parar como um remador nas galés (embarcação movida principalmente por força humana, mas também impulsionada pelos ventos). Os personagens são apresentados como um paralelo cultural, algo bem claro no primeiro reencontro de ambos.

Há dois pontos importantes nesse encontro, primeiro, o autor revela que a infância havia tornado estes jovens mais que amigos, verdadeiros irmão e tal fato impregna a atmosfera deste encontro: “À primeira vista tomavam-se por irmãos; ambos formosos, ambos de cabelos e olhos negros, rostos bronzeados e de estaturas proporcionais às respectivas idades.” no entanto logo os difere a começar pelos trajes :

“O maior tinha a cabeça descoberta. Uma túnica caindo-lhe até aos joelhos, e um manto azulado arrastando com descuido pelo chão, constituíam todo o seu trajo, que deixava descobertos os seus braços escuros como o rosto. As suas vestes denunciavam-nos estarmos em presença de um romano.”

Ao referir-se a Judah:

“O companheiro de Messala era de constituição mais débil, e os seus fatos, de finíssimo tecido de linho, estavam cortadas tal como se usava em Jerusalém. Um pano, sustido por um cordão amarelo apertado em volta da cabeça, caía-lhe pelas costas. Um observador, perito na distinção de raças, e mais conhecedor das fisionomias do que dos trajos, teria adivinhado imediatamente a sua origem judaica.”

Essa diferenciação é importante pois se a infância os colocou como irmão, a vida adulta os tornou legítimos representes de suas raças e culturas, trançando um abismo que os separaria.

Messala é irônico, contundente, e preciso em suas palavras:

“É impossível descrever o modo como esta resposta foi dada. A religião antiga havia quase deixado de ser uma fé, a filosofia tomava o lugar da religião e a ironia tomava rapidamente o lugar da reverência.

O jovem Messala, educado em Roma e regressado há pouco tempo, tinha adquirido estes hábitos e estes modos.”

Judah é calmo , observador , sábio e ponderado, fruto da educação dada aos jovens da alta nobreza judaica:

“Também eu aprendi alguma coisa durante estes anos. Hiliel não será igual ao filósofo que tu ouviste, e Simeão e Shammaí são, indubitavelmente, inferiores aos teus mestres. Contudo, a sua sabedoria não esquadrinha caminhos vedados; os que se sentam a seus pés levantam-se somente ricos da ciência de Deus, da lei de Israel, cheios de amor e consideração por tudo que lhes diz respeito. Frequentando o Grande Colégio e meditando em tudo o que nele ouvi, compreendi que a atual Judeia, não é a Judeia de outros tempos.”

O encontro dos dois mancebos representa o conflito cultural de dois povos, um servo da tradição dos antepassados, da liberdade dada pelo Deus único e da nobreza herdade da certeza de ser um povo escolhido, já o outro, é fruto do Império Romano e sua educação filosófica greco-romana, do senso de poder superioridade e imperialismo. O jovem judeu se nega a se submeter aos desejos e ideias serviçais que o romano o oferece e o nobre romano rejeita voltar a ser o dócil e gentil amigo de outros tempos, o fim do encontro termina com uma simbólica frase de Messala:

“Messala estendeu-lhe a mão; o judeu transpôs a porta. “Quando já se tinha afastado, o romano ficou meditando durante uns instantes, depois, por sua vez, também abandonou o jardim, agitando a cabeça.

– Que assim seja – murmurou. – Eros morreu, que reine Marte! (Grifo nosso)

Eros representante do amor erótico e sensual, mas também, do amor fraternal e da amizade, morre, em seu lugar surge Marte, o deus da guerra e do conflito.

Bem, é o critico um servo do seu trabalho ou senhor deste? Não podendo trabalhar a obra em duas partes, partimos para uma terceira a qual convidamos o leitor espera com paciência .

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Carlos Alberto

Formado em Letras pela UFPE e fluente em inglês e espanhol com certificados internacionais em ambas as línguas. Escreve artigos sobre literatura , educação, cinema e política. Palestrante e debatedor dos temas já mencionados.
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