Crônicas

Da invasão Alien a Rosebud: A Travessura do Cidadão Kane!

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“Penso que todos esperavam ver emergir um homem – possivelmente, algo um pouco diferente dos homens terrestres, mas, nos aspectos essenciais, um homem. Sei que estavam à espera disso. Mas quando olhei vi qualquer coisa que se agitava na sombra: duas formas esverdeadas em movimentos revoltos, uma sobre a outra e, depois, dois discos luminosos – como olhos. ”

G. Wells

Em 06 de maio de 1915, a 105 anos atrás nascia no estado de Wisconsin, George Orson Welles, mundialmente conhecido como Orson Welles, seu nome tornou-se sinônimo de versatilidade, por presentear o mundo em 1941 com sua obra prima: Cidadão Kane, filme este que é considerado por muitos críticos como o melhor filme de todos os tempos, não só por sua inovação no uso de câmeras em ângulos até então inexplorados, e perspectivas jamais imaginadas, mas também por sua ousadia em abordar um tema tão delicado ao representar avida em decadência de um “barão da comunicação”, tendo como inspiração para a construção do protagonista a vida do magnata William R. Hearst. Além disso, a dinâmica do trabalho de Welles na produção do Cidadão Kane revolucionou o conceito de direção cinematográfica, em face das várias funções que desempenhou paralelas a direção do filme.

Todavia, muito antes de Cidadão Kane, o nome de Orson Welles tornou-se manchete três anos antes da estreia do grande clássico, em virtude de uma travessura cometida por ele em outubro de 1938, que deixou muitas pessoas em pânico.

Imagine que você em sua rotina diária dirigindo trabalho para casa e liga o rádio na estação que costumeiramente escuta suas músicas, e repentinamente a transmissão é interrompida por um pronunciamento oficial, e a mensagem é desesperadora: a terra está sendo invadida por extraterrestres. Fato este que não seria mais visto como impossível, tendo em vista a informação divulgada no dia 28 de abril deste ano, onde o Governo Norte Americano confirmou como verdadeiras imagens de OVNI’s. E após sermos assolados por uma pandemia global, seguida de política abalada por ministros que como ratos em um naufrágio, são os primeiros a abandonar o navio, sermos invadidos por extraterrestres era só o que nos faltava.

Em uma época onde os Estado Unidos vivam a Grande Depressão com a queda da Bolsa de Nova York, e havia a tensão da iminência de deflagrar-se a segunda guerra mundial, uma vez que Hitler já começava suas investidas contra o mundo, o rádio, que vivia sua era de ouro, tinha sua programação rotineiramente interrompida por Breaking News constantes, e sempre com notícias tensas (nada diferente dos dias atuais). Por isso, para o ouvinte da Columbia Broadcasting System, a interrupção da programação para o boletim de notícias era algo corriqueiro. Todavia, desta vez as más notícias não eram de origem terrestre. O noticiário informava a queda de um meteoro na pequena cidade de Grovers Mill, próxima a Nova York, e logo depois a rádio voltou a programação normal, até que novamente a transmissão é interrompida por um novo Breaking News, desta vez informando que o meteoro na verdade era um objeto cilíndrico de metal, e que deste objeto saíram hediondas criaturas de origem extraterrestre. A partir de então a programação normal do rádio não retornava mais, e o repórter narrava em primeira mão a invasão alienígena, bem como transmitia o diálogo das demais testemunhas oculares do evento e os seus gritos de horror diante dos ataques alienígenas.

O programa de rádio que transmitirá a invasão marciana era liderado por Orson Welles, que tinha por hábito transmitir em sua programação áudio novelizações de histórias de terror e no início de sua programação havia sido informado aos ouvintes que a narrativa se tratava de uma releitura do livro de H. G. Wells, intitulado A Guerra dos Mundos, que fora escrito em 1898. Porém, o programa de Welles não era o favorito da audiência em seu horário de transmissão, por isso o seu maior pico de audiência foi a partir das 20:10 hrs, quando o seu concorrente da NBC já havia terminado. Desta forma, os ouvintes desavisados que trocaram de estação e não ouviram a narrativa desde o começo, em decorrência do layout do programa, transmitido como se fosse um boletim de notícias verossímil, causou confusão e pânico nos ouvintes, que acreditaram que a Terra estava realmente sendo atacada por forças extraterrestres. Afirma-se que foram aproximadamente 1 milhão e duzentas mil pessoas que abruptamente foram informadas erroneamente da invasão extraterrestre, e que entraram em desespero ao ouvirem os sons e os gritos das pessoas que eram atacadas e mortas pelas máquinas alienígenas que emitiam raios de calor e fuligem tóxica, e em dado momento a transmissão silenciou, fazendo com que os ouvintes acreditassem que toda a cidade de Grovers Mill havia sido aniquilada, e nem o repórter havia sobrevivido. A cereja do bolo foi o pronunciamento do Secretário do Interior, que teve sua voz narrada por um ator famoso, onde em um arremedo a voz do presidente Franklin Delano Roosevelt, proferiu um pronunciamento oficial nada animador.

Somente após quase uma hora de transmissão, que novamente os ouvintes foram informados de que se tratava de uma dramatização, mas já era tarde demais, as pessoas já haviam entrado em desespero, principalmente os moradores das cidades fronteiriças de Grovers Mill, que é vizinha de Nova York, as presas arrumaram suas malas e iniciaram uma debandada. Foram erguidas barricadas, o exército e a cruz vermelha forma acionados e as linhas telefônicas estavam congestionadas. Houve até suicídio, e levou-se mais de um mês para as coisas voltarem a normalidade. Quando o programa de Orson Welles havia terminado, o prédio da rádio já estava cercado por policiais, e sua travessura estampou a primeira página de vários jornais, fazendo com que Welles tivesse que vir a público explicar o incidente, que se tratava de uma pegadinha de véspera de hallowen, bem como ele e a emissora entrassem no polo passivo de uma ação judicial.

Após este incidente, que pode até mesmo ser considerado uma das primeiras Fake News da história, o mundo refletiu acerca do poder da mídia, e da informação, e o perigo que poderia representar uma informação deturpada, distorcida ou mal interpretada. Para Orson Welles, sua travessura de hallowen serviu de catapulta do anonimato, pois, logo após o incidente seu programa ganhou o patrocínio de Campbells e abriu suas portas para Hollywood, possibilitando a direção de um dos filmes mais importantes da história. Mas o que nunca saberemos, é se foi somente uma pegadinha de dia das bruxas, ou se Orson planejara o escândalo para ter seu nome em destaque em um grande golpe de marketing.

Referência Bibliográfica:
– MULER, Adalberto. Orson Welles: Banda de um homem só. Azougue. 2015.
– WELLS, H. G. A Guerra dos Mundos. Editora Suma. 2016.
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Marcos Ferreira

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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