Há aqueles que estudam a arte da retórica, certamente provaram da fonte de Cícero, um dos filósofos e políticos mais prestigiados de Roma. E ao se debruçarem sobre ele, não deixaram, certamente, de estudar seu memorável confronto contra Catilina, seu principal rival em vida.

Tempos atrás, mais precisamente no dia 02/04/2020, escrevi um artigo sobre um manual confeccionado por Quintus Cicero a seu irmão, Marcos Cicero, com o intuito de auxilia-lo na campanha a cônsul em 64 a.C. tendo como principal adversário naquele momento o próprio Catilina. Aqui nós nos aprofundaremos mais no que foi este grande momento da história e da Roma daquele período.

Cícero dispensa apresentações fora seus títulos de: Filosofo, poeta, sacerdote, político entre tantos outros. Se o leitor tiver maior curiosidade sobre ele, por favor, leia meu artigo: Conselhos de um Irmão: de Quintus T. Cicero para Marcus T. Cicero, o link está logo após esta leitura. Foquemos primeiramente na figura de Catilina.

O Revolucionário Catilina.

Catilina foi um revolucionário tanto na vida pública quanto na privada. Provinha de uma família nobre e antiga, cuja linhagem remontava as fundações da cidade de Roma. Seu bisavô havia sido um herói na guerra contra Aníbal (218 a.C. a 200 a.C.), além de ser o primeiro homem que temos notícias a entrar em combate com uma prótese de mão (2017, BEARD, p.29). Catilina teve um bom início na política, sendo como Cícero eleito em vários cargos públicos menores. Mas foi nas eleições de 64 a.C. que ele findou sua falência, investindo todas suas finanças e além para a aquisição do cargo.

Era comum aos políticos vencidos irem a pobreza e dividas após suas derrotas, em Roma o investimento era grande, portanto, não obter o sucesso proviria sufocos aos quais muitos não aceitavam. Este era o caso de Catilina, que além de perder as eleições a Consul em 64 a.C., chegaria a derrota novamente no ano seguinte como detalharemos a seguir.

Catilina havia perdido as eleições em 64 a.C. para Cícero, e tentará, como já dito, se eleger a Consul no ano seguinte, entretanto, Cícero parecia já ter noção do que era capaz aquele homem, e usando de seus poderes como Consul, suspendera as eleições por certo tempo. Quando deu sequência a elas, apareceu no dia da apuração com sua guarda armada e vestindo trajes militares. Isso não era permitido, mas o recado era claro: Se Catilina vencer, estaremos preparados para o que vir. E o efeito funcionou, Catilina mais uma vez perdera as eleições no ano 63 a.C.

A Grande Acusação.

Após estes eventos, Catilina juntou forças a semelhantes de alta classe com os mesmos problemas, buscou apoio dos mais pobres e descontentes moradores enquanto reunia um exército improvisado na parte de fora dos muros. Seu principal objetivo: Incendiar a cidade inteira para assim saudar as dívidas de todos. Este era ao menos o relato de Cícero, que ainda insistia também ser alvo de assassinato do mesmo.

Suas apreensões eram corretas, Cícero sofreu uma tentativa de assassinato como era comum durante todo o período romano. Conseguiu evitar graças a sua espiã, Fulvia, que era namorada de um dos cumplices de Catilina (2017, p.32). Esta mesma moça deu a ele cartas e provas o suficiente para que em 8 de novembro de 63 a.C. Cícero convocasse uma reunião no Senado para assim formalizar sua denúncia e intimar Catilina a deixar Roma.

Este foi o grande momento de Cícero: Utilizando-se de todo o seu conhecimento em retórica, filosofia, política e até mesmo de vida, apresentou aos presentes ali os locais onde os conspiradores se reuniam, as datas, quem estava envolvido e quais eram seus planos. Cícero por vezes parecia indignado, outras em fúria clara, além de fazer autocriticas constantes. Em dados momentos ele lamenta não ter agido antecipadamente contra o acusado. Tudo isso posto ao tempo certo, em seu teatro perfeito, em uma retórica exemplar, o filosofo deixa Catilina esvaziado em palavra, o opositor apenas pedia para que não acreditassem em tudo que era dito, e zombava constantemente das modestas origens de Cícero enquanto enobrecia as próprias.

Cicerón_denuncia_a_Catilina,_por_Cesare_Maccari

Pintura de Cesare Maccari – Cícero denuncia Catilina – Cícero se encontra a esquerda enquanto faz suas denuncias e Catilina esta isolado a direita.

 

Tudo Termina em Sangue.

Nas cenas seguintes, Catilina deixa a cidade para se reunir a seu bando, enquanto Cícero põem em pratica seu meticuloso plano para prender os conspiradores que ainda estavam na cidade. Em 5 de dezembro é reunido novamente o Senado para fins de discutir o destino dos homens sob custódia. Aqui aparece a figura do famoso Júlio César que sugere cárcere aos homens detidos. Esta seria, inclusive, uma das primeiras alternativas de prisão no lugar das penas de morte já registradas (2017, p.37).

Porém não foi o que aconteceu. Cícero manda executar os homens e em um tom triunfante, frente a multidão exaltada ele exclama um “famoso eufemismo” de uma só palavra: “vixere”, ou seja, “eles viveram”.

Poucas semanas a frente as famosas legiões romanas enfrentaram o exército descontente de Catilina. O mesmo lutava a frente de suas tropas de forma brava e caiu junto com elas. Este foi o fim da revolta e do próprio Catilinia. Cícero foi saudado pela população como pater patriae, ou seja, “Pai da Pátria”, um dos títulos mais magníficos e lisonjeiros que poderia se dar naquela época.

Como pôde ler, a carreira destes dois homens mostrará como era diversificada a política em Roma no século I a.C., vale lembrar que estes eram os últimos anos da República Romana, pouco tempo depois o Império seria instaurado, e todos os poderes seriam concentrados ao imperador e não mais ao Consul.

Este foi um dos mais aclamados momentos retóricos da história, e Cícero se orgulhava disto a todo momento. Certamente se ele vislumbrasse o quadro de Maccari se regozijaria frente aquele esplendido momento. Seu escrito tem muito a ensinar ainda hoje, e esta é uma história ao qual deve ser visitada sempre que possível, afinal, um jovem e estrangeiro político fez sua História em Roma.

Referencias:

Conselhos de um Irmão: de Quintus T. Cicero para Marcus T. Cicero

BEARD, Mary. Luis Reyes Gil. S.P.Q.R: Uma História da Roma Antiga. São Paulo: Editora Crítica Ed 1.

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