Minha mãe sempre me alerta sobre o poder das artes sobre a mente humana. A arte nos leva para o futuro que não desejamos ver, nos fala das mazelas do presente que não queremos enxergar e nos desafia a entender o passado que lutamos para esquecer, diz ela sempre que me compra um novo livro de literatura, vamos ao cinema ou ouvimos música. Essa sabedoria tem me guiado pelas veredas artísticas como observador criterioso.

Há algumas façanhas da criatividade e engenhosidade humanas, todavia, que nos impactam com tamanho vislumbre do futuro, ao mesmo tempo que nos cobram a razão de não termos aprendido as lições passadas por nossos antepassados, que estremece cada célula de nosso corpo.

A sensação que tivemos ao ver a produção estadunidense Contágio (Contagion), dirigida pelo brilhante, experiente e premiado diretor Steven Andrew Soderbergh (Traffic, Sex, Lies, and Videotape, Erin Brockovich) foi a de termos visto uma verdadeira sessão de anatomia da alma humana quando esta se encontra consumida pelo terror e paranoia.

Um vírus com período de incubação (tempo entre a infecção pelo vírus e o início dos sintomas da doença) de poucos dias e alta letalidade, desencadeia uma mudança drástica e traumática no cotidiano de milhões de vidas. A premissa soa similar a diversos filmes, contudo, o que torna esta produção impar em meio a tantas competentes e cativantes da sétima arte é o foco nos dramas humanos, no cotidiano dentro de uma realidade apocalíptica, onde a ética se esvai e a política, junto com a vaidade e ganância, se tornam tão ou mais centrais que o combate ao vírus.

Com um elenco talentoso e visivelmente bem compenetrado em cada momento de cena, o filme ganha em naturalidade em cada arco dramático que apresenta, pois vemos a emoção ser posta na medida certa, tornando cada ação e reação dos atores verossímil. De fato, tudo soa tão plausível que, diferente de produções como Epidemia (1995), onde havia um antagonismo entre o médico Dr. Daniels (Dustin Hoffman) e o Brigadeiro General Billy Ford, MD (Morgan Freeman), aqui não faz falta o típico e clichê embate entre um herói ético e altruísta com um antagonista tecnocrata.

Não há vilões nem heróis, embora alguns possam apontar o heroísmo de vários personagens, como a vilania de outras, contudo, percebemos a humanidade de cada uma delas, seu potencial para nobreza e para o egoísmo, como uma análise sóbria de como o mundo real funcionaria dentro de uma situação desoladora. No meio do caos sempre haverá aqueles que lucram com o sofrimento alheio, com a morte e com a violência que se espalha nas ruas.

O diretor soube trabalhar bem com o roteiro e argumento de Scott Z. Burns , eles já haviam trabalhado juntos em The Informant!, usando cada personagem como um foco narrativo distinto, digo, um ponto de vista diferenciado. Alan Krumwiede (Jude Law) é o olhar do grande público sendo mostrado através da inquietude e desconfiança de um jornalista independente, alguém que compreende como as diferentes peças atuam dentro da pandemia. A indústria farmacêutica que quer lucrar com a venda de uma cura, o governo que quer encobrir o real potencial letal do vírus para evitar pânico, os médicos que cruzam a linha ética para proteger os seus familiares. Krumwiede sabe a realidade por trás das aparências e conveniências e se mantem até o fim como o defensor de si mesmo, de suas ideias, descobertas e do lucro que recebe por dizer algumas verdades.

A Dra. Erin Mears (Kate Winslet) é a personificação do juramento de Hipócrates, dedicada e decidida a lidar com a situação de modo técnico, em seu arco dramático precisa lidar com a política e a questão econômica que tendem a limitar sua atuação focada no combate à proliferação do vírus.

É o ponto de vista médico puro que se contrasta com o do Dr. Ellis Cheever (Laurence Fishburne), que está à frente do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), pois Cheever nos mostra o médico como homem, um apaixonado, que quebra a burocracia e rompe com a ética para salvar quem ama.

Dra. Leonora Orantes (Marion Cotillard) é a típica médica habilidosa e capaz, que ao realizar sua tarefa não nutre vínculos emocionais, seja com pacientes seja com colegas, todavia, a trama a conduz por um caminho de mudança sútil mais perceptível.

A cena final da personagem é tão bem conduzida e o foco da câmara no rosto da atriz, que deixa transparecer uma preocupação e ternura não antes vistos nela, é tão bem realizado que ousamos dizer que foi uma das mais belas cenas deste filme. O seu arco nos obriga a indagar se há alguma proibição legal ou moral que seja relevante para alguém no ato de salvar vidas. O foco aqui é na quebra de paradigma dentro de uma situação atípica.

O diretor é um detalhista, todo o terror e sofrimento que sentimos minutos após minuto é construído de modo quase sempre secundário, quando a câmera fica mais lenta para mostras as ruas ceias de lixo, sujeira, caos, ao mesmo tempo que o silêncio induz a sensação de desespero e perda. A edição de som trabalha tão harmônica com a fotografia que ao fim de algumas cenas a inquietude e perturbação tomam conta e esse é o ponto alto dessa obra.

Há outros arcos interessantes, como o do pai Mitch Emhoff (Matt Damon) esposo da paciente número um (primeiro caso da doença) que lida com a morte da esposa e do enteado, simultaneamente, com a descoberta da infidelidade da cônjuge. Ele é imune e o medo de perder a filha torna cada ação e fala repletas de um terror velado. É a perspectiva daqueles que tem que lidar com o mundo depois de perder alguém próximo, um mundo que certamente não será jamais o mesmo.

Talvez o vilão deste filme seja os males libertados por pandora, os pecados denunciados pela cristandade e os vícios morais e desequilíbrios alertados pelos filósofos. Falamos da ganância, do medo, do egoísmo e desespero. Numa quarentena sem prazo para acabar, com liberdade sendo cerceadas por todo país, com a violência aumentando e a linha entre bem e mal desaparecendo, devemos sempre pensar que o real inimigo é aquele ser que vemos todos os dias diante do espelho.

Dedico a minha mãe Maria de Fátima Silva Pessôa este texto.

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