Miséria cultural, desgraça existencial

Miséria cultural, desgraça existencial

Chegamos a um ponto da civilização, diz Fernando Pessoa, em que há tais exigências de imoralidade que daqui a pouco, toda a gente é decente por falta de espírito de sacrifício.

A partir do renascimento do paganismo na Europa, início do processo que muitos chamam revolucionário, ficou evidente a certas mentes brilhantes, como a do próprio Pessoa, que não mais faziam sentido certas prescrições morais fora do contexto religioso no qual elas estavam inseridas. A sociedade, entretanto, continuava a praticá-las.

Por isso, ele diz: “Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porquê. E então, (…) a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais. Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comumente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração se pudesse pensar, pararia.”

fernando pessoas

Quando Fernando Pessoa se debate – deveras amiúde em sua obra – em dores existenciais dessa natureza, por não ver sentido naquilo que a humanidade de sua época pratica, é porque ele sente em si, enquanto parte deslocada de todo um aparato social, um vazio interior que é tão intenso e doloroso, tão premente e desconcertante, que exige uma expressão, para ele escrita, que substitua essa ausência, e lhe poupe do desconforto de existir.

Antes que o leitor fuja da melancolia, é preciso provocá-lo. Tapando os ouvidos para tais provocações, é possível que um dia ele se depare com uma estatística assustadora: o aumento considerável dos índices de suicídio neste novo milênio. O responsável pai de família, muito ocupado com seus negócios pode sentir-se importunado com uma caceteação desta natureza. Mas quando um de seus filhos quiser, tentar, ou até mesmo conseguir se matar, ele vai querer saber porquê.

O mal do século é a depressão, dizem. As pessoas, em idade cada vez mais tenra, aprofundam-se nesta crise e os depressivos estão por toda parte. Na alta do Positivismo, houve quem acreditasse ser um problema solúvel pela técnica. Hoje, sabido que não é bem assim, muitos culpam o capitalismo por esses males, fazendo de um grave problema, máquina de guerra para sua militância ideológica. O que nem uns, nem outros estão dispostos a perceber, é que o mundo está doente mesmo é por falta de máximas de vida.

O nosso lisbonense Pessoa, vivia perplexo diante do seu mundo. E a perplexidade é, conforme Aristóteles, a primeira atitude do filósofo. Assistindo o drama da decadência moral, intuiu que havia nisso certa intencionalidade, que existia algum ideal por detrás dessa decadência. Assim ele previu os heróis de hoje, que diferente dos de outrora que deviam ser virtuosos, devem ser devassos até o último (“Chegamos a um ponto da civilização em que há tais exigências de imoralidade que daqui a pouco…).

Criamos a exaltação da baixeza, da vileza, o culto do horrendo e do torpe. Ensinamos a nossos filhos, quase sempre de forma inconsciente, mais por omissão do que por ação, que o arquétipo a ser imitado é o imoral, o desvirtuado, o lisonjeiro e o bestial. Basta olharmos de relance para a cultura de massa e para as mais vanguardistas tendências para termos disso tudo a experiência.

Isso foi, coisa que os pseudo-intelectuais de academia custam perceber, de caso pensado. Mesmo que os porta-vozes das doutrinas fossem disso inconscientes. É como se algum poder maligno subjacente aos filósofos pós nominalistas, e a eles inspirando, desse início a um processo que ele sabia bem onde iria dar.  As revoluções epistemológicas da idade moderna continham em si o germe das doutrinas niilistas, existencialistas, frankfurtianas, estruturalistas e descontrucionistas do século XX que moldariam – mais ou menos intensamente cada uma delas – a mentalidade e a visão de mundo do Ocidente após a Segunda Guerra mundial. Sujeitos como Jean-Paul Sartre, e em certo sentido o próprio Fernando Pessoa, merecem o título de filósofos apenas pela coerência com que levam a inexistência de Deus às suas consequências inevitáveis: vazio interior, desespero e suicídio. Não que eles tenham se matado. Apenas do suicídio fizeram a apologia, sem terem, entretanto, coragem de praticá-lo.

Essa relação entre o pensamento filosófico posterior a Descartes e a atual sociedade depressiva é bastante evidente, pois removido aquilo que deu outrora sentido à vida, ficaram todos os hábitos, prescrições comportamentais, modelos de conduta que decorriam daquilo mesmo que dava sentido à vida, completamente vazios. Não esqueçamos que Gilles Deleuze, um dos maiores expoentes do pós-estruturalismo, se matou atirando-se da janela de um hospital. Seus pares consideraram sua morte muito coerente com a sua doutrina…

Isso tudo só não pode ser compreendido – nem sequer percebido – por quem está de tal modo submerso nesse caldo cultural que está para ele como o peixe está para a água.

Toda empreitada filosófica que, no Ocidente, pretendeu superar ou destruir a filosofia grega e o Cristianismo (dois pilares desta civilização) deu irremediavelmente no mais destrutivo e paralizador relativismo. Quem nunca ouviu dizer que tudo é relativo ou que não existem verdades absolutas? E disso o relativismo moral é consequência inevitável: Se não há verdade, não há também conduta boa ou má, pois, como dizia Platão, verdade conhecida é verdade obedecida. Ora, se não há verdade, não há o que obedecer.

E esse artigo que começou com Fernando Pessoa, termina com Fernando pessoa, que dá um alerta utilíssimo a todos os que se inclinam a essa natureza de investigação: “A maioria não compreendeu Nietzsche, e são esses os que seguem fielmente a doutrina dele.”

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