Esta é uma crônica em homenagem a todas as mulheres ativistas do Brasil. Porque 13 de Maio continua aqui, só nós é que não o vemos. Temos que lutar ainda muito para abolir a nossa escravatura. Proponho também esse exercício de despertar a pequena ou grande Princesa Isabel que mora em todas nós. Nossa inspiração é uma moça conservadora e recatada, que embora consciente de sua condição feminina, suas obrigações com o marido e os filhos, demonstra indignação com os desmandos de grupos de interesses que só querem o poder, mesmo à custa de vidas humanas e da escravização de homens, mulheres, idosos e crianças. Não, não estou me referindo às Tias do Zap e ao Dória.

Video apresentação Vera Amatti

Álbum de fotos Princesa Isabel

 

Penso na mulher discriminada e vilipendiada por uma oligarquia machista e retrógrada, incapaz de vislumbrar um Brasil desenvolvido, com ideias novas e ao mesmo tempo preservando a tradição, respeitando crenças e opiniões. Um Brasil que negava o voto à mulher, a terra a quem a trabalhava e o trono à herdeira legítima e preparada para reinar. Muito antes de algumas feias recalcadas subverterem os ideais do direito feminino, transformando-o em feminazismo, Isabel defendia o direito das mulheres, correndo o risco aqui de certo anacronismo, pois o conceito de feminismo só aparece no século 20, ainda que gestado no século 19. Fosse a luta de Isabel levada adiante, as mulheres teriam direito de votar 40 anos antes no Brasil.

Essa mulher frágil, provavelmente por sua formação católica, e obediente a Deus, era também forte o suficiente  para ocupar uma cadeira no Senado, e embora nunca o tenha feito formalmente, tinha atuação direta no âmbito legislativo, agindo nos bastidores ao costurar acordos entre Conservadores e Liberais, escravocratas e abolicionistas naquela casa. Isabel foi a inspiração de todas as grandes deputadas que lutam contra o aborto, a ideologia de gênero, pela descentralização de poder, redução de impostos, estímulo aos empreendedores, dentre outras causas legítimas.

Assim como as ativistas que hoje sobem em caminhões para discursar ou agitam a bandeira verde e amarela em movimentos de rua ou espontaneamente, ou que divulgam posts pelas redes e até brigam com os familiares, a Princesa Isabel fez de tudo para valer suas ideias, que tinham como bases a Justiça, o Amor e a Verdade. Pela Justiça, lutou para aprovar três leis abolicionistas antes da Lei Áurea: Eusébio de Queirós, Ventre Livre e Sexagenários. Por Amor a Deus, ia frequentemente ao quilombo do Leblon para ensinar às mulheres o cultivo de camélias para serem comercializadas nos mercados e nas ruas, a fim de lhes garantir renda. Pela verdade, abriu mão do Trono, de seus bens, de sua casa e quase de sua vida. Só não morreu porque era admirada pelo povo. A sugestão do general José Cardoso, bisavô de FHC, de executar toda a família Imperial, inclusive as crianças, filhas da princesa Isabel, só não logrou êxito em vista das consequências impopulares que a natimorta república enfrentaria.

Para entender Isabel, seria necessário fazer um exercício de empatia com as mulheres do século 19, uma época em que não havia adolescência, pois, passava-se da infância diretamente para a idade adulta. A juventude trazia enorme carga de responsabilidade e o mundo dos adultos, que hoje custa a chegar para os adolescentes, batia à porta de meninas a partir dos 12 anos. Firme na fé, era criticada e chamada de “carola” e “beata“, mesmo por familiares, mas fez valer sua vontade ao se casar por amor, e não por conveniência, como ocorria e ocorre até hoje em muitas monarquias. Entretanto, o que mais atrai na Princesa Isabel é seu estilo de fazer política. Ouço sua voz suave, doce, de tom delicado em suas cartas e pronunciamentos. Suas fotos posadas demonstram a dignidade em todas as fases de sua vida: uma menina devota e educada, uma mulher de olhar firme e piedoso, uma idosa profundamente reflexiva e realizada.

Duas situações ilustram sua personalidade inquieta e irreverente: a primeira, em um baile da corte, em que uma das senhoras presentes recusou uma dança ao abolicionista negro André Rebouças. Com a sutileza de quem ensina pelo exemplo, a própria princesa convidou o arquiteto para dançar, surpreendendo a todos pela quebra de protocolo.

A segunda, mais que uma situação, foi uma ação concreta: escrever ao Visconde de Santa Vitória logo após a Lei Áurea, para levantar seus fundos pessoais para indenizar os ex-escravos com terras e promover o voto feminino. Seu comentário nada subserviente: “Se a mulher pode reinar, ela também pode votar!”. Mal sabia ela que essa carta cairia nas mãos dos republicanos e que estes se aliariam às oligarquias rurais, que queriam ser indenizadas por perderem seus escravos para a abolição.

O que Isabel estaria pensando de nós, brasileiros, diante do que estamos passando? Certamente sua primeira atitude seria a de orar pelo povo. Depois, a princesa moveria montanhas para acabar com a escravidão que estamos vivento, privados de nossa liberdade de expressão, de ir e vir, em uma quarentena infinita, sem data para terminar e forjada por motivos escusos.

Neste 13 de maio, mais que comemorar a Abolição da Escravatura, devemos despertar a Isabel que há dentro de nós. Acordar a ativista que não se conforma com o Cerceamento da Liberdade sob nenhuma condição. Padre cancelar missa por causa de vírus, ou com medo de autoridades? Ela os chamaria de covardes, diante dos martírios dos santos que morreram por sua fé. Governadores de províncias fechando comércios? Ela mesma era empreendedora e destituiria os titulares dos cargos. Polícia prendendo idosos nas praças e praias? A princesa tinha um exército pessoal e voluntário, “A Guarda Negra“, que protegia a si e à sua família, e certamente não hesitaria em colocá-la a serviço do povo e da constituição, aliás, uma constituição muito melhor que a de hoje.

Ao refletir sobre todos os fatos acima, entendo por que a história republicana relegou a Princesa Isabel a um segundo plano, difamando-a e destituindo-a de seu legítimo trono e título de “Redentora“, que ela recebeu dos próprios ex-escravos. É mais que ingratidão, é inveja, pois a República não produziu heróis, somente covardes e corruptos. Mesmo o assassino e escravocrata Zumbi dos Palmares ganhou um feriado espúrio e dá nome a uma Universidade, que de nada tem a se orgulhar. Os monarquistas, que hoje formam o movimento que mais aumenta em termos numéricos de membros, reivindicam legitimamente que 13 de maio volte a ser feriado nacional, a despeito de muitos acharem que temos feriados demais no Brasil, mas seria o caso de cancelar o tal Dia da Consciência Negra, que não faz sentido nenhum, e restaurar um feriado que tem data com precisão histórica, patronesse reconhecida e tradição fundada na Cultura Brasileira.

Carta da Princesa Isabel ao Visconde de Santa Vitória:

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