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Machado de Assis e Zumbi Noel

Se há algo que a vida acadêmica nos ensina – e olhe que os ensinamentos por ali são poucos – é que um texto nunca conversa consigo mesmo, mas está em constante diálogo com outros textos e pessoas do passado, do presente e até do futuro, pois um raciocínio claro e fundamentado adquire um caráter de predição. Esse preâmbulo criei apenas para esclarecer por que defendo a posição do atual presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, que abriu espaço para a publicação do historiador, jornalista e professor Luiz Gustavo Chrispino, carinhosamente apelidado por mim de “Machado de Niterói”, em vista de sua semelhança física com o mulato órfão, autodidata e epilético que fundou a Academia Brasileira de Letras e se consagrou um dos maiores escritores do século 19.

Intitulado “Zumbi e a Consciência Negra – Existem de Verdade?” o texto do professor Luiz, cujo link está no final desta matéria, é fruto de cuidadosa pesquisa em fontes reconhecidamente confiáveis, como os historiadores Varnhagen, Leda Maria de Albuquerque, Afonso d’Escragnolle Taunay Guilherme de Andréa Frota e Hélio Vianna, todos estudiosos do tema e que chegam à mesma conclusão: Zumbi não é nome próprio, mas título honorífico de “chefe”, e as menções a ele são pontuais e raras, sem nenhuma marca de distinção ou ato heroico.

Não é qualquer um que tem a ousadia de restabelecer a Verdade dentro de um ambiente hostil e viciado em doutrinação, ainda mais quando esse ambiente se insere no contexto dos movimentos negros, criados pela esquerda para dividir a população brasileira, assim como as piadas de louras foram feitas para dividir as mulheres. Resultado: o Ministério Público iniciou uma “investigação de improbidade administrativa” contra Sérgio Camargo por questionar o “símbolo do movimento negro”. A grande imprensa falida não demorou para estampar manchetes determinadas pelos releases de assessores de imprensa desses movimentos, os mesmos movimentos que fazem plantão na Câmara e que no ano passado deram um show de gritaria na sessão solene em comemoração à assinatura da Lei Áurea. Certamente queriam a revogação da lei, pois eu não entendi qual era a reivindicação deles. Aliás, eu fico me perguntando quem paga os boletos desse pessoal, porque essa gente não sai dos gabinetes, do plenário e do salão verde. Essa, sim, seria uma boa pauta! Por isso, os ataques a Sérgio Camargo servem para demonstrar como movimentos esquerdistas já desmascarados e sem consistência ainda influenciam certos setores da imprensa e do Ministério Público. Outra boa pauta.

Todavia, como nunca se cria um herói sem destruir outro, para construir uma celebridade sem biografia, que é Zumbi, foi necessário matar na memória e no coração dos negros brasileiros outros muitos heróis que ainda nem haviam sido reconhecidos devidamente: André Rebouças, Luís Gama, José do Patrocínio, Francisco José do Nascimento, Lima Barreto e Machado de Assis, dentre outros, este último execrado pelos movimentos esquerdistas, assim como a Princesa Isabel, sua amiga, tanto que Machado esteve presente a seu lado na missa campal da Abolição da Escravatura! Veja a foto de destaque.

Ademais, ainda não li uma só linha de nenhum autor que contenha provas reais da existência e dos feitos heroicos de Zumbi, muito menos o desmentido de que ele tinha seus próprios escravos, torturava e matava os que queriam fugir do quilombo e mandou assassinar o próprio tio para tomar o poder: “Depois de feitas as pazes em 1678, os negros mataram o rei Ganga-Zumba, envenenando-o, e Zumbi assumiu o governo e o comando-em-chefe do Quilombo” (Carneiro, Edison. O Quilombo dos Palmares, Editora Civilização Brasileira, 3a ed., Rio, 1966, p. 35). Só esperando…

A despeito do que alguns radicais possam pensar, Sérgio não questionou símbolo nenhum, apenas pediu que a comunidade afro refletisse sobre como tem sido coagida por muitos anos. Era a hora de alguém dar um basta às mentiras que têm sido contadas por pessoas sem escrúpulos, e é dever de Sérgio fazê-lo, sob pena de prevaricação. Sim, sabendo que a comunidade que está sob sua responsabilidade está sendo enganada, se ele nada fizer para desmentir e desmontar a farsa, estará fugindo de sua missão como presidente da Fundação Palmares. Portanto, ao invés de ser processado, deveria ser homenageado por colocar a fundação nos devidos trilhos.

Ao mesmo tempo, o que o professor Luiz fez, em uma rápida analogia, nesse artigo de divulgação científica, foi dizer aos seus ingênuos alunos que Papai Noel não existe, ou que existiu um santo chamado São Nicolau, que morreu no ano 350, na Europa, usava roupa verde e distribuía presentes às crianças no final de cada ano. Sua figura foi distorcida pela Coca-Cola nos anos 50, para promover o refrigerante. Engordaram o velhinho, colocaram nele uma roupa vermelha, deram-lhe um trenó e um monte de renas. Hoje ele faz um “hohoho” monocórdico todos os finais de ano e todos se esqueceram do real motivo do Natal.

Assim também esse Zumbi Noel tem entorpecido a consciência dos negros e gerado discriminação, separação, divisão, racismo. Entendo que se colocando na linha de frente, o presidente da Fundação Palmares quer dar voz a outros agentes culturais e abrir a fundação aos negros de todo o país, não apenas a pequenos grupos de interesse que se autodenominam seus representantes, mas a artistas, cientistas, operários, executivos, profissionais liberais, donas de casa, mulheres e homens negros e brancos que certamente têm muito a aprender com os novos pesquisadores e autores que estudam com seriedade o papel dos negros na Cultura, na Ciência e na Política do Brasil. Que Deus lhe dê paciência para continuar sua missão, pois coragem e vontade política ele já provou que tem de sobra.

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Vera Amatti

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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