“O Povo vive e move-se por vida própria; a massa é em si mesma inerte e não pode mover-se senão por um elemento extrínseco.”
Pio XII, Papa

Que o esquerdista é intelectualmente desonesto, eu mesmo posso confessar pois já fui um. É recorrente que dos monopolistas das boas intenções partam denúncias contra as “elites” que, segundo dizem, vivem manipulando as massas toda vez que o povo mesmo se levanta contra a agenda política da esquerda. Desmascaramos a risível desonestidade desses guerreiros do povo. No entanto, quando tentamos fazer uma perquirição filosófica sincera a respeito das suas afirmações. Convido o leitor a acompanhar a investigação socrática.

Democracia é o governo do Povo. Assim, para sabermos se a Democracia é possível, devemos responder à pergunta: É o Povo capaz de governar?

Quando nos empenhamos em saber qual seria a melhor forma de governo – tema central da Ciência Política, não a maquiavélica, mas a verdadeira – automaticamente se colocará à nossa frente a seguinte pergunta: o Povo é ou não é capaz de governar? Pois bem, perguntemos ao esquerdista, paladino da Justiça Social:

-Sim! – responde o barbudinho – Se o proletariado tudo produz, a ele tudo pertence! A ideia aqui é a seguinte: alegar a necessidade incontornável da existência de elites para a gestão da sociedade reflete um pensamento elitista, favorável a que uns dominem os outros. Dizer que sem uma hierarquia, nem um formigueiro e nem uma colmeia funcionam é defender a exploração.

Maravilha! Então agora aproveitemos que encontramos um sábio esquerdista para descobrirmos como é que se deve organizar – ou desorganizar – a sociedade.

György Lukács

György Lukács, por exemplo, filósofo que estruturou as práticas revolucionárias de Lênin e Stálin na filosofia formal da revolução, muito embora tenha depois se afastado da ortodoxia marxista – grande colaborador da metamorfose frankfurtiana – chegou a apoiar o regime stalinista dizendo que era muito conforme ao pensamento marxista. Mas como isto pode responder nossa investigação socrática? Ora, Lênin e Stálin eram os líderes supremos da revolução, e viviam cercados pela elite estatal.

Qual a relação dos comunistas com a hierarquia?

A ideia de que a sociedade poderia funcionar sem hierarquia nem a eles ocorreu. – Ah, mas ali era o “capitalismo de Estado”, ali houve apenas a substituição da classe dominante burguesa pela classe dominante burocrático-estatal! – objeta o esquerdista mais moderninho, de mentalidade tão avançada que nem Lukács poderia a ele se sobrepor.

Este é precisamente o ponto de inflexão que faz com que você seja um comunista verdadeiramente cônscio da causa: acreditar que as experiências socialistas mundo afora não foram o tão almejado comunismo, mas que este ainda está por vir. O dia em que a multidão amorfa puder governar ou a-governar a sociedade, acabou a luta de classes, acabou o capitalismo, acabou a História.

Mas, e até lá? O que estes comunistas devem fazer? Continuar a falar ideologicamente em nome do “povo”, quando na verdade eles mesmos são uma casta de formadores de opinião, manipuladores da militância.

Ora, façamos agora uma apuração no vocabulário, através de uma necessária distinção conceitual. Povo é diferente de Massa. Poder ao Povo significa afirmar a soberania que dele emana enquanto sociedade civil organizada. O que os mais esquerdistas querem mesmo é o governo da Massa, que é amorfa, indistinta e desorganizada, isto sim, uma ideologia extravagante e inaplicável, que ao fim e ao cabo, culmina simplesmente no domínio dos intelectuais de esquerda sobre uma massa culturalmente indigente. Eis a possessão coletiva, na qual os revolucionários de gabinete são o diabo.

O que foi a Democracia Coroada?

Agora o Povo, este sim é soberano. O governo dele chama-se democracia. Mas como fazer uma verdadeira democracia? Recorramos à nossa história, e procuremos encontrar em que momento alguma oligarquia arrebatou para si o poder, à revelia do Povo, e instaurou uma forma de governo que não é nenhuma daquelas formas sadias de governo, mas apenas uma mescla das corruptelas destas.

Um parênteses: Os filósofos gregos diziam ser as seguintes as boas formas de governo: a Monarquia, a Aristocracia e a Democracia. As suas respectivas corruptelas seriam: Tirania, Oligarquia e Demagogia. Nas três primeiras, os governantes governam segundo o bem comum, nas três últimas, segundo seus próprios interesses.

Voltando, pois, à história do Brasil, há um aspecto da proclamação da República que não ensinam nas escolas. A República que tirou o Brasil dos trilhos de sua estabilidade e progresso civilizatório naturais, orgânicos, por mais que aos professores simpáticos à esquerda não interesse ensinar isto, foi um golpe envolvendo uma oligarquia fundiária e escravista mais um exército moralmente corrompido, quando não, imbecilizado por uma moda filosófica pueril: o Positivismo.

Lima Barreto, o literato historiador

Para que o leitor não ache que estou inventando essas coisas, recorramos à literatura de Lima Barreto, que pelo período em que viveu (primórdios da República) e pelo seu estilo realista e quase auto-biográfico possui um valor histórico documental mais valioso que muitos livros de História:

“Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, os tenentes e os capitães. Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender sua autoridade sobre o pelotão e a companhia, a todo esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia sentimento mais puro, desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo, um pedantismo tirânico, limitado e estreito, que justificava todas as violências, todos os assassínios, todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição necessária, lá diz ele, ao progresso e também ao advento do regime normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com fanhosas músicas de cornetins e versos detestáveis, o paraíso, enfim, com inscrições em escritura fonética e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!…” (Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma, 1915)

Quem lê esta obra prima da literatura brasileira vê lá que o Regime Republicano instalou-se sem apoio popular nenhum, e com muita ferocidade, perseguindo opositores e promovendo verdadeiras chacinas contra quem ousou levantar-se para defender a legitimidade, o Império do Brasil, regime constitucional, que teve em seu Poder Moderador um grande fator de estabilidade e desenvolvimento para toda a Nação.

Foi golpe!

Tudo isso eles fizeram porque a República representaria um progresso em relação à Monarquia? Ingênuo quem assim pensa, pois a República nunca representou senão o interesse de uma elite corrompida, que ora foi positivista, ora foi de esquerda, sempre pugnando, através da manipulação da massa, pelos seus próprios interesses.

A estrutura fundamental da comunidade política é fruto do gênio de cada povo e da marcha da sua história. A República é uma usurpação oligárquica, incompatível com a Nação brasileira.

A República foi um golpe envolvendo uma oligarquia fundiária e escravista mais uma outra oligarquia, burocrática e militar, moralmente corrompida, quando não, imbecilizada por uma moda filosófica pueril: o Positivismo.

Neste sentido, convém esclarecer uma coisa: Para o Brasil, a monarquia não é uma simples ideia extravagante, de gente passadista, caturra, mas constitui em si mesma o melhor regime, porque é o que mais facilmente favorece a estabilidade que o País nunca teve após o funesto golpe de 1889, a paz e a moralidade na administração pública.

Algumas coisas que você deveria saber sobre teoria política e monarquia

É também o que mais favoreceu o desenvolvimento cultural do País, pois às oligarquias manipuladoras das massas que sucederam a Monarquia brasileira nunca interessou que estas se transformassem em Povo. Além de tudo, para que este último seja realmente soberano, a Monarquia é o melhor caminho, pois o melhor modo de moderar e robustecer a monarquia é rodeá-la de aristocracia e democracia, criando um sistema orgânico, que favorece que os vários postos da sociedade sejam ocupados pelas pessoas que realmente a eles são vocacionados, favorecendo assim uma verdadeira democracia, emancipadora do Povo. (Ver, a propósito, “Nobreza e elites tradicionais análogas” e “A Democracia coroada” – referência bibligráfica ao fim do artigo).

Encerremos este artigo, não com alguma palavra de ordem retumbante em prol de alguma causa ideológica, mas com a leitura serena de mais um trecho daquela obra prima da nossa literatura pátria citada alhures.

Aposto que ninguém te contou que Lima Barreto era monarquista…

O trecho é o diálogo de dois militares da época, que conversavam baixinho e às escondidas sobre o recém exilado Dom Pedro II:

” -E era um bom homem, observou o almirante. Amava o seu País… Deodoro nunca soube o que fez.

Continuavam a andar. O almirante coçou um dos favoritos e Albernaz olhou um instante para todos os lados, acendeu o cigarro de palha e retomou a conversa:

– Morreu arrependido… Nem com a farda quis ir para a cova!… Aqui para nós que ninguém nos ouve: foi um ingrato; o imperador tinha feito tanto por toda a família, não acha?

-Não há dúvida nenhuma!… Albernaz, você quer saber de uma coisa? Estávamos melhor naquele tempo, digam lá o que disserem…

-Quem diz o contrário? Havia mais moralidade… Onde está um Caxias? Um Rio branco?

-E mais Justiça mesmo, disse com firmeza o almirante. O que eu sofri, não foi por causa do velho… Demais, tudo barato!

-Eu não sei, disse Albernaz com particular acento, como há ainda quem se case… Anda tudo pela hora da morte!”

Referência bibliográfica:

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma – São Paulo: Lafonte, 2018.

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Nobreza e Elites Tradicionais análogas nas alocuões de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza Romana – São Paulo: Livraria Civilização-Editora, 1993.

TORRES, João Camilo de Oliveira. A Democracia coroada: teoria política do Império do Brasil – Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2017.

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