Jean-Jacques Rousseau (Genebra, 28 de junho de 1712 — Ermenonville, 2 de julho de 1778)  foi um dos filósofos que mais relevância possui na formação do pensamento ocidental nas últimas décadas. Embora muito do que se apregoe sobre sua filosofia seja fruto de algo apreendido pelo imaginário popular e não o que a sua obra indica, devemos deixar claro que, de fato, para ele as estruturas educacionais e sociais eram responsáveis por denegrir a condição humana, pervertendo a sua natureza.  Claro essa é uma definição bem limitada, pois a obra, repito, possui um escopo mais denso e necessita ser lida.

Muitos foram impactados, e ainda são, com a ideia de ser a natureza do homem, apartada da convivência social, ser de uma pureza única e a nossa “expulsão do paraíso” se dá ao entrarmos na sociedade. Muitos romances possuem essa concepção, vemos isso em Alencar e em muitos autores posteriores a este, como também, anteriores. Bem, obras como Ben-Hur, revelam que todo individuo possui em si seu próprio demônio, que cada um de nós somos os reais responsáveis por nosso destino, não podendo o meio ser o real definidor de nossa historia.

Valério Gratus, esse é o nome que muda toda a existência do nobre judeu, pois sendo este o quarto prefeito romano da Judéia, sua segurança é uma prioridade e qualquer ataque a ele é, no fim, um ataque a Roma e uma ameaça a seu domínio. Ben-Hur vai ao telhado para ver a procissão que escolta Gratus, uma telha se solta e cai justo na figura do prefeito romano. Messala revela aqui sua natureza e não oferece ao amigo de infância um julgamento, condenando-o a escravidão, como já foi anteriormente dito em nossos textos. De uma família de boa reputação e importância na história do povo hebreu, agora, são tratados como rebeldes tendo suas posses confiscadas, o sucessor levado cativo e sua irmã e mãe presas na fortaleza Antônia.

O jovem não sucumbe ao terror e aniquilação que a situação lhe impõe graças ao encontro com um jovem carpinteiro, que mais que água, lhe oferece força para seguir em frente. Jesus está presente em todo o livro e na vida do personagem, dando-lhe forças, e, podemos inferir, toda a jornada do herói aqui trabalhada é para propiciar um encontro entre o Judah com o logos divino. Como revela Amy Lifson:

“Em outra cena bíblica familiar, nas margens do Jordão, onde João Batista abençoa Jesus, vemos a cena através dos olhos de Ben-Hur, que desconfia do João, sujo e despenteado, e também de um suposto rei vestido como rabino modesto e coberto de poeira. “Apesar de sua familiaridade com os colonos ascéticos em En-Gedi – seus trajes, sua indiferença a todas as opiniões mundanas, sua constância aos votos que os entregavam a todo sofrimento imaginável do corpo. . . ainda o sonho de Ben-Hur sobre o rei, que havia de ser tão grande e fazer tanto, havia colorido todo seu pensamento sobre ele. “Como muitos, ele esperava ver arautos e cortesãos como os de Roma e ficou confuso com o que realmente estava à sua frente.”

O articulista David Jensen reforça ao afirmar: “Ao longo da história, Wallace explora o conceito do papel de Jesus como um Salvador celestial, e não um rei terrestre, e as ramificações espirituais da distinção. O protagonista, Judah Ben-Hur, inicialmente espera que o Messias prometido por Deus seja um chefe militar para levar os judeus a se libertarem do domínio romano e depois dominarem o mundo. Somente após uma série de dificuldades e desventuras que culminam em testemunhar a crucificação, ele percebe que não é para isso que Jesus foi enviado.”

Ben-Hur trabalha de modo primoroso a jornada do herói, monomito, estudado e divulgado pelo antropólogo Joseph Campbell, tendo sido apresentado pela primeira vez com o livro The Hero with a Thousand Faces (“O Herói de Mil Faces”). Esse conceito logo invadiria a cultura pop através de filmes, desenhos e de todo o entretenimento.

Primeiro o herói enfrenta a partida ou separação/ruptura, quando o personagem é destituído do seu estado inicial e demovido do seu mundo e status, aqui é o momento da destituição do seu papel como nobre e rico judeu para se tornar um escravo. Depois há a iniciação, onde o herói passara por obstáculos, dificuldades que o moldarão em um a figura mais forte e poderosa, aqui representado pelo tempo como escravo e seu encontro com o comandante romano Quintus Arriu, que sabendo por Judah sobre sua origem nobre, orienta ao guarda que este não seja mais  acorrentado como os demais remadores, o que possibilita, mais tarde, a este salvar Arrius.

Essa parte é onde o herói ferido e perdido se reencontra consigo mesmo e possibilita seu retorno. Ben-Hur é adotado por Arrius, se torna um homem rico e influente após a morte deste e ademais antes da última parte da jornada, O regresso, ele treina arduamente na Palaestra em Roma, um lugar onde gladiadores eram treinados em diferentes formas de combate armado e desarmado. Ele volta pronto para ter sua vingança.

Diferente de muitas outras narrativas heróicas, aqui, o herói não tem sua vitória definitiva sobre o vilão/antagonista Messala, embora este o tenha derrotado na corrida de carruagem, tão espetacularmente mostrada no cinema, Messala segue vivo embora com o corpo cheio de ferimentos causados por haver sido pisoteado por cavalos na corrida e pobre, pois a derrota o fez perder toda a fortuna de sua família. Cabe a uma antiga amante de Ben-Hur e filha de Balthasar, um dos reis-magos, a morte de Messala, que a condenou a uma vida de dores e miséria junto a ele.

Não caberia a este livro desfecho diferente, pois o herói que destrói seus inimigos e triunfa sobre os que tanto o maltrataram, não converge com a ideia de perdão tão presente no cristianismo. Ben-Hur é um livro que nos entrega Cristo sem dogmas ou liturgias, ele apresenta a essência da conversão e mudança sem grande misticismo. É um livro sobre um Jesus não acorrentado nem diminuído pela mente humana.  

Bilbiografia:
https://www.britannica.com/biography/Lewis-Wallace. Acesso em: 01 de abril de 2020.
https://www.britannica.com/topic/Ben-Hur-historical-novel-by-Wallace. Acesso em 04 de março de 2020.
OZORIO DE MELO, João. Kim Kardashian mostra que é possível exercer a advocacia sem ir à faculdade. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2019-abr-19/kim-kardashian-mostra-exercer-advocacia-ir-faculdade. Acesso em 04 de março de 2020.
LIFSON, Amy. Ben-Hur: The Book that Shook the World. Disponivel em : https://www.neh.gov/humanities/2009/novemberdecember/feature/ben-hur-the-book-shook-the-world. Acesso em: 10 de março de 2020.
B.GORDON, Alice. A Critical Estimate of the Writings of Lew Wallace. Acesso em: 11 de março de 2020. Disponível em: https://digitalrepository.unm.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1138&context=engl_etds
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