História

Os Vikings não usavam chifres! Mas e os reis?

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Por muito tempo ao ouvir-se falar em vikings, a primeira coisa que vinha na cabeça das pessoas era a figura de loiros barbudos com elmos de chifres.

Atualmente, com a popularização dos valentes guerreiros nórdicos, por meio da mídia televisiva, este mito vem sendo quebrado. Onde por outro lado vem-se criando novos mitos no imaginário popular, onde atualmente os vikings são vistos como hispsters boa pinta com cabelos e vestes arrojadas. Mas de onde veio o mito do elmo cornífero aos guerreiros nórdicos?

Um dos primeiros relatos, e possivelmente a origem dessa falácia, ocorreu em 1820, quando fora lançado um compendio de crônicas nórdicas chamado A Saga de Frithiof, onde em suas ilustrações os guerreiros nórdicos foram erroneamente ilustrados usando elmos com chifres, entendendo-se que o ilustrador da obra ao buscar inspiração para a arte do livro, confundiu-se e usou como fonte os guerreiros celtas e germânicos que realmente faziam uso de tal aparato em cerimonias religiosas, mas somente nessas. Uma vez que tal adereço no traje de um guerreiro, dificultaria sua mobilidade e seria um ponto fraco, fazendo com que fosse capturado e imobilizado com maior facilidade por seus inimigos, do mesmo modo que o elmo dos gladiadores da categoria dos Murmillos, que faziam uso de um grande elmo para tornarem-se alvos fáceis dos seus clássicos rivais de arena, os Retiárius. A confusão sobre o uso do aparato cornífero por parte do vikings ficou ainda maior quando entre 1848 e 1874 o germânico Richard Wagner compôs a série de óperas chamadas O Anel dos Nibelungos (a mesma que inspirou J.R.R. Tolkien a escrever O Senhor dos Anéis), que na apresentação da ópera os cantores encenavam vestindo-se com elmos de chifres. Sendo por meio da ópera wagneriana que solidificou-se erroneamente na cultura popular a figura do viking com chifres.

Mas quanto aos reis? O que elmos com chifres tem a ver com eles?

Segundo apontam os registros históricos, no início da civilização suméria, os líderes tribais, chamados de Lugal, uma forma embrionária de reinado, e em decorrência do primeiro culto ser ligado aos ancestrais, logo aos reis era atribuída uma genealogia divina, fato este que perdurou até a idade média, onde os reis eram escolhidos e ungidos por influência divina, e em todas as civilizações conhecidas, a figura do monarca sempre é representada com uma coroa, tiara, cocar ou adereços similares, sendo pacificada a coroa com o símbolo icônico da realeza. E é neste ponto que se encontra o elo de ligação, pois tanto os reis quanto os deuses frequentemente eram representados com elmo cornífero, como pode ser visto no obelisco intitulado Estela de Naram Sin, onde o rei Acadiano veste uma coroa composta por dois chifres, sendo assim o touro um símbolo constante nas mitologias pagãs da mesopotâmia (lembrando-se do bezerro de ouro retratado na bíblia). Neste sentido, está uma forma figurativa de demonstrar o poder, masculinidade e virilidade do monarca em comparação com o touro dominante, que com seus imponentes cornos lidera a manada, e em como recompensa se banqueteia com os melhores pastos e copula com as melhores fêmeas, perpetuando uma linhagem seleta. Mas não só na cultura paga os chifres são associados a realeza, podendo observar-se analogias entre chifre e reino na Bíblia em Daniel 7:24, onde é dito: “E, quanto aos dez chifres, daquele mesmo reino se levantarão dez reis; e depois deles se levantará outro, o qual será diferente dos primeiros, e abaterá a três reis”.

Com o passar dos séculos, a corona cornífera foi sendo estilizada e os chifres foram sendo transformados no que hoje se compreende como coroa, não se afastando do viés místico e de influência divina que seguiu durante todo período medieval em virtude a união da religião com o Estado. Desta forma, em decorrência da origem histórica das coroas reais somada a quebra do mito dos elmos vikings, seria mais verossímil vermos figuras do Rei Artur com elmo cornífero do que o Rangar das tirinhas em quadrinho.

Referência Bibliográfica:

– BURBANK, Jane. COOPER, Frederick. Impérios: Uma nova visão da história universal. Editora Critica. 2019.

– GARRAFFONI, Renata Senna. Gladiadores na Roma Antiga – Combates e Paixões. Annablume. 2005.

– GUARINELLO, Norberto Luiz. História Antiga. Editora Contexto. 2013.

– KRIWACZEK, Paul. Babilônia: A Mesopotâmia e o nascimento da civilização. Zahar Editora. 2018.

– LANGER, Johnni. Dicionário de História e Cultura da Era Viking. Editora Hedra. 2017.

– LÉVÊQUE, Pierre. As Primeiras Civilizações: Da idade da pedra aos povos semitas. Edições 70. 2009.

– MELLA, Federico A. Arborio. Dos Sumérios a Babel. Editora Hemus. 2001.

– PINSKY, Jaime. As Primeiras Civilizações. Editora Contexto. 2001.

– REDE, Marcelo. A Mesopotâmia. Saraiva. 2014.

– VELASCO, Manuel. Breve História dos Vikings. Versal. 2013.

– WAGNER, Richard. O Anel do Nibelungo – A Ópera. Independently Published. 2019.

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Marcos Ferreira

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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