Sir Clive Staples Lewis, nosso querido e amado C.S. Lewis, retorna para nossa coluna devotada à literatura brasileira e mundial. Depois de termos trabalhado de modo exaustivo a obra Crônicas de Nárnia, voltamos nosso olhar para outro livro considerado uma das produções mais fascinantes de Lewis: Cartas de Um Diabo a Seu Aprendiz (The Screwtape Letters).

Criticar qualquer obra já exige competência e inteligência daqueles que desejam ser chamados de críticos, muito mais, se pede ao criticar obras consideradas clássicas ou de renome, aclamadas pelo público e/ou academia. Criticar virou tarefa ingrata, pois na internet, vemos inúmeras páginas que evocam para si tal alcunha, creem que suas análises são apropriadas e competentes, mas, na verdade, são meras repetições do que vive sendo dito por anos a fios pelas mãos de verdadeiros estudiosos. Temos muitos fãs ardorosos que ao ler as palavras “erro”, “inapropriado”, “falho”, logo usam toda uma sorte de vocabulário requintado para expressar sua indignação, pois, para eles, o autor analisado escreveu como desejou baseado na escola literária do seu tempo e projeto artístico.

Tais senhores são meros fãs, suas críticas nada mais são que notas lisonjeiras ou, quando julgam o trabalho de um escritor que não os satisfaz, meras páginas repletas de birra, raiva e sentimentalismo excessivo. Ficar preso a concepção do que julgou, este ou aquele autor, o apropriado na arte de escrever é ser covarde, uma eterna sombra de mentes superiores e almas audaciosas. Como diria o renomado Ezra Pound no Livro ABC da literatura: “O crítico que não tira as suas próprias conclusões, a propósito das medições que ele mesmo fez, não é digno de confiança. Ele não é um medidor, mas um repetidor das conclusões de outros homens.”  (grifo nosso)

Aqui fazemos crítica literária, ousamos pensar e expressar tal pensamento, portanto, o dito pelos outros, mesmo que sejam estes outros grandiosos, não é em nada verdade absoluta para nós, tampouco algo irrefutável. Tendo deixado claro nossa proposta, comecemos a analisar este clássico que ainda tem muito a falar ao leitor de hoje, como teve ao de ontem e terá para o de amanhã, pois como afirma Pound: “Um clássico é um clássico não por estar conforme certas regras estruturais ou se ajuste a certas definições (das quais o autor clássico provavelmente jamais teve conhecimento). Ele é clássico devido a uma certa juventude eterna e irreprimível”

Este livro foi dedicado a outro grande nome da literatura inglesa, J.R.R. Tolkien, como bem salienta o articulista Eduardo Stark: “No exemplar que Lewis deu ao Tolkien foi escrito o seguinte: “Em pagamento simbólico de uma grande dívida” (In token payment of a great debt). De fato, J.R.R. Tolkien foi uma das principais influências na vida de Lewis em termos literários e religiosos. O professor Tolkien teve participação ativa na conversão de Lewis ao cristianismo e seu mundo de fantasia influenciou a criação de Nárnia.”

Contudo, o criador do grandioso mundo do Senhor dos Anéis teria visto o livro de modo negativo, tanto pelo ponto de vista teológico, Tolkien era um católico devoto o que o colocava contrário a vários pontos da visão teológica de Lewis, sendo este um anglicano, como também sobre a estética do livro, o julgando um trabalho fraco e apressado.

Stark em seu texto inspirador, assim coloca:

Tolkien não expressou claramente sua opinião sobre o livro Cartas de um diabo a seu aprendiz, os únicos registros conhecidos, até o momento, são duas cartas (com conteúdo parecido).

A primeira carta foi endereçada a Michael Tolkien, em novembro ou dezembro de 1963:

Além disso, ironicamente me diverti ao ver dito (D. Telegraph), que ‘o próprio Lewis nunca gostou muito de Cartas de um diabo a seu aprendiz’ seu best-seller (250.000). Ele o dedicou para mim. Eu me perguntava por quê. Agora eu sei – dizem eles.” (Carta 252).

Em um conteúdo similar, Tolkien escreveu a George Sayer, em 28 de Novembro de 1963, o seguinte:

Mas então Jack (C.S. Lewis) nunca me mandou nada. Nem mesmo o Cartas de um diabo ao seu aprendiz, que ele dedicou para mim (sem permissão). Eu sarcasticamente me diverti ao saber do Daily Telegraph que ‘Lewis nunca gostou muito de seu trabalho’. Eu depois/muitas vezes [esta palavra é especialmente difícil de discernir] me perguntei por que a dedicatória foi feita. Agora eu sei, ou deveria.

A primeira referência sobre a opinião do Tolkien vem no livro The Inklings, do biografo Humphrey Carpenter. O autor conheceu o Tolkien pessoalmente e escreveu a primeira biografia do professor autorizada, tendo procedido com diversas entrevistas e acesso amplo a documentos pessoais. Humphrey Carpenter também foi o editor do livro As Cartas de Tolkien, que reúne mais de trezentas cartas do professor.

Assim, no livro The Inklings está escrito o seguinte:

O próprio Tolkien não era de todo modo um entusiasta do livro, pois sendo alguém que acreditava profundamente no poder do mal ele achava uma tolice brincar com essas coisas e mais ainda desdenhar”. (The Inklings, Houghton Mifflin, p. 175)

Os biógrafos posteriores ao Humphrey Carpenter apresentam a mesma tendência de que Tolkien não teria gostado do livro, porém apresentando argumentos um pouco diferentes.

Segundo o biografo Michael White: “Ironicamente, Tolkien não se importou com a história, considerando-a bastante banal e feita de maneira apressada. Em muitos aspectos, Tolkien era quase um católico fundamentalista. Acreditava que o diabo e seus demônios realmente existiam e, portanto, seria bastante temerário desdenhar de assuntos sérios como este”. (J.R.R.Tolkien, O Senhor da Fantasia, editora Darkside, p.133).

Continuamos na próxima semana com a análise deste livro.

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