Literatura

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá – Uma Análise Literária

No artigo anterior, conhecemos Isaías Caminha, um homem de inteligência um pouco acima da média, atento às contradições do seu meio e desejoso de conquistar uma personalidade intelectual.

Vimos que o ambiente brasileiro o corrompeu, destruiu-o completamente, transformando-o em apenas mais um charlatão que vive de aproveitar a inépcia cultural de um povo moralmente doente, materialista e avesso a produções culturais mais elevadas.

Aproveito para contar uma curiosidade: Lima Barreto soltou uma nota anos depois da publicação de Isaías Caminha informando que o personagem tinha subido na vida, continuara sua ascensão naquele meio social podre e tornara-se, enfim, Deputado…

Mas agora vamos conhecer um outro destino. Nesse que é talvez o melhor livro de Lima Barreto, vamos saber que fim levou outro homem de inteligência superior, espírito refinado e cheio de cultura. O nome dele era Manuel Joaquim Gonzaga de Sá.

Manuel Joaquim Gonzaga de Sá

Nós o conhecemos por uma biografia filosófica escrita por um personagem que foi seu amigo íntimo, Augusto Machado. Logo no início, em explicação preliminar, Augusto Machado esclarece que seu propósito ao contar a vida de um simples amanuense, enquanto as biografias são, geralmente, destinadas aos Ministros de Estado, não é nenhum ímpeto revolucionário de qualquer natureza…

Aqui é interessante o leitor já captar um vício mental denunciado bem no começo. Augusto Machado precisa fazer essa justificação no início do livro pois os leitores do Brasil não compreenderiam que a vida de alguém que não teve altos cargos e muitos títulos pudesse ser biografada e publicada… Então ele se escusa, dizendo que a ordem do mundo e a divisão do trabalho exige que existam biógrafos para os ministros e biógrafos para os amanuenses…

Bem, Gonzaga de Sá possuía, segundo o biógrafo, boas luzes e teve sólidos princípios de educação e instrução. Conhecia psicologia clássica e a metafísica de todos os tempos. Comparava opiniões dos filósofos e fazia observações acuradas sobre a realidade daquele mundo e daquela sociedade.

Um sábio que não tinha títulos

Era, enfim, um homem de estudos, que não saiu atrás das titulações e das honrarias pois não queria perder tempo com bajulações e superficialidades sociais. No Brasil, para conseguir ocupar esses postos públicos destinados a intelectuais você precisa adular pseudo-mestres e o restante do grupo que lá está, de preferência apresentando teses e emitindo opiniões que agradem aos avaliadores e aos colegas e que não rompam com a mentalidade deles.

Gonzaga de Sá, então, para preservar sua independência de pensamento e sua liberdade para buscar a verdade, virou oficial de secretaria, um simples amanuense. Ele não publicava nada, e quando ousava levar aos seus colegas algum conhecimento filosófico o que ele conseguia era desdém e chacota…

Lima Barreto é bastante ácido neste livro, dizendo, inclusive, de forma provocadora, que deve causar surpresa a quem ler esta biografia, o fato de Gonzaga de Sá, oficial de Secretaria, ter contato com autores de filosofia.

Um sábio que nasceu no lugar errado

Há muita gente, diz ele, que sem queda especial para médico, advogado ou engenheiro, tem outras aptidões intelectuais, que a vulgaridade do público brasileiro ainda não sabe apreciar, animar e manter. São filósofos, ensaístas, estudiosos dos problemas sociais e de outros departamentos da inteligência, para os quais a nossa gente que lê, não se voltou, em virtude dessa pasmosa diferença de nível, que há entre a inteligencia dos grandes homens do Brasil e da sua massa leitora.

Certos de que as suas aptidões não lhes darão um meio de vida, os que nascem tão desgraçadamente dotados, se pobres procuram o funcionalismo, fugindo ao nosso imbecil doutorado (São palavras do livro!).

“Não são muitos; são raros em cada Repartição, mas consideráveis em todo o funcionalismo brasileiro. Em começo, procuram-no com o fim de manter a integridade do seu pensamento, de fazê-lo produzir, independente das primeiras necessidades da vida; mas, o enfado, a depressão mental do ambiente, o afastamento dos seus iguais e o estúpido desdém com que são tratados, tudo isso, aos poucos, lhes vai tirando a coragem e mesmo o ânimo de estudar. Com os anos, esfriam, não leem mais, embotam-se.”

Gonzaga de Sá, diz o biógrafo, não possuía qualquer sabedoria excepcional, mas tinha em compensação vistas suas e próprias e resistiu à depressão mental do ambiente da secretaria onde trabalhava, à qual, como à de todas as Secretarias, poucos resistem.

O biógrafo de Gonzaga de Sá

Augusto Machado registrou muitos dos seus diálogos com Gonzaga de Sá, que se abriu pois viu no jovem um interesse sincero.

No Brasil, como as pessoas tem verdadeiro desprezo e ódio ao conhecimento, Gonzaga de Sá tinha que escondê-lo, tendo mostrado algo a Augusto Machado apenas porque os dois tornaram-se amigos.

No decorrer do livro, os dois dialogam sobre várias questões de existência e de sociedade. Os assuntos são interessantes e diversificados, indo desde o ofício das costureiras até a famosa querela dos universais, no debate entre nominalistas e realistas, passando pelo real panorama intelectual do Brasil.

Sobre este último, em particular, vale a pena destacar o que diz Gonzaga de Sá: Ele afirma que entre nós há muito talento, mas não há publicidade. Um jornal dos grandes, diz ele, é uma empresa de gente poderosa, que quer ser adulada e só tem certeza naquelas inteligências já firmadas, registradas, carimbadas, etc.

Demais, o ponto de vista limitado e restrito dessas empresas, não permite senão publicações para os leitores medianos, que querem política e assassinatos. Os seus proprietários fazem muito bem, dão o que lhes pede o público…

Incultura nos meios de comunicação

“Se não é assim, populista, têm que lisonjear os potentados, os graúdos, porem-se a serviço deles. Além disso, são necessárias mil curvaturas, para chegar até eles, os grandes jornais; e, quando se chega, para não escandalizar a sua clientela, é preciso jogar fora o que se tem de melhor na cachola.”

Isso é muito representativo do que acontece de verdade no Brasil! Isso mostra que a literatura de Lima Barreto nasceu da experiência real! Ainda hoje, para você ser aceito nos meios intelectuais brasileiros, você precisa compartilhar com eles a linguagem, os cacoetes, a ideologia enfim, e abrir mão absolutamente da percepção real, da busca sincera pela verdade, deixando-se levar pela total alienação linguística daquela panela de pressão cultural.

Não há entre nós, continua Gonzaga de Sá, aquela procura que estimula a argúcia dos editores do estrangeiro – a da inteligência viva e nova. Satisfazem-se os nossos negociantes de livros e jornais com o prosaico e os nossos intelectuais com o estereótipo e para variar mandam buscar a novidade no estrangeiro.

Complexo de vira-lata

Fazem sofrer o nosso pensamento, porque quem não aparece no jornal, não aparecerá nem no livro, nem no palco, nem em parte alguma — morrerá…(Qualquer semelhança entre o cenário descrito por Gonzaga de Sá e o que aconteceu a Mário Ferreira dos Santos, o maior filósofo brasileiro e quiçá de todo o século XX não é mera coincidência… O ostracismo em vida e o desprezo pós morte dedicado a Mário Ferreira dos Santos é apenas mais uma prova de que a denúncia feita por Lima Barreto nesse e em outros livros é verdadeira).

Entretanto, Gonzaga de Sá achara um meio de travar conhecimento com a jovem inteligência de nossa terra: ele lia as “revistas obscuras e alguns jornais de província”. É mais ou menos como hoje, quando temos que achar a inteligência verdadeira em blogs esparsos e sem visibilidade e em pensadores que vivem à margem da academia. E quando você leva aos ditos meios intelectuais qualquer novidade ou denúncia contundente, a reação dos letrados é sempre a mesma: desdém. Eles riem, desprezam, fazem sarrinho, piadinha.

A verdadeira intelectualidade à margem do Brasil oficial

Na verdade, como são charlatães que estão a parasitar a inépcia cultural de um povo incauto, eles precisam se defender com uma atitude de superioridade, escondendo-se atrás de suas cátedras e de seus títulos.

Lá pelas tantas, um compadre de Gonzaga de Sá morre. Essa fato desencadeia uma série de reflexões no nosso protagonista que se põe a perguntar por que é que se vive…

Dentro de um meio altamente deprimente e destruidor dos bons propósitos, com tanta pobreza de espírito e pequenez, era natural que Gonzaga de Sá começasse a perguntar porque é que desgraçados como ele não se matavam todos de uma vez. Schopenhauer propôs o suicídio da humanidade inteira. Ele não ia tão longe, apenas os desgraçados, os infelizes poderiam fazê-lo. “Os felizes que ficassem com a sua felicidade!”

Mas pensando bem, eles não aceitariam. A burrice é firme, e os leva a viver, apesar de tudo… Gonzaga de Sá desatina em um desabafo, dizendo que não sabe porque essa gente vive, ou melhor, porque teima em viver! O melhor seria matarem-se, “ao menos os princípios químicos dos seus corpos, às toneladas, iriam fertilizar as terras pobres”.

Nesse momento, Augusto Machado contra argumenta, dizendo que na Europa os camponeses sofrem… Mas lá é outra coisa! responde Gonzaga de Sá. “Há uma literatura, um pensamento que vincula grandes idéias, que espalham o são espírito pela individualidade humana. E aqui, o que há? Nada!” A cultura superior, a beleza e tudo aquilo que pode dar sentido à vida humana nos foi tirado!

A relação deprimente com a existência

Depois, Gonzaga de Sá faz o seu amigo reparar em como as pessoas são satisfeitas. Por que iriam eles perturbá-las com as suas angustias, os seus tormentos? Era feliz a inconsciência daquele povo. No Brasil, é verdadeiro o ditado que diz que a ignorância é uma benção…

Entretanto, o compadre morrera e deixara um filho. O pequeno Aleixo Manuel, foi adotado por Gonzaga de Sá para ser educado. Valeria a pena? Ampliar o horizonte de consciência daquele menino apenas para ele sofrer no meio social estúpido do Brasil?

Antes pudesse ele ter apenas os conhecimentos necessários para uma vida utilitária, como um autômato, sem preocupar-se com o porquê disso tudo… Mas era uma esperança! -Hei de fazê-lo grande! Dizia Gonzaga de Sá.

O País do futuro…

Mas não pôde ir até o fim. Nosso protagonista era de idade e veio a falecer quando o menino entrou no curso de preparatórios. A tia levou-o até o fim, com carinho e abnegação.

Ambos souberam ser bons, cumprindo sua missão pedagógica, apesar de terem concorrido para ampliar no menino, com o hábito de análise e reflexão que o estudo traz, a consciência, fazendo surgir nela, para o futuro, uma mágoa constante e uma permanente inadaptação ao meio, criando-lhe um mal estar irremediável.

Mas, que importa isso se o sofrimento do pequeno, “exteriorizado algum dia em grandes atos ou em grandes obras, possa concorrer mais tarde para o contentamento de muitos dos seus iguais que vierem depois?” Que importa?

“A felicidade final dos homens e o seu mútuo entendimento têm exigido até aqui maiores sacrifícios…”

E assim, essa obra magistral encerra com uma angústia e uma esperança e aprendemos, com Lima Barreto, mais um destino reservado a quem quer seriamente levar uma vida de estudos neste país.

Uma lição preciosa

Vivemos em um ambiente cultural especializado em destruir as vocações intelectuais, em corrompê-las – como no caso de Isaías Caminha – e em deprimi-las – como no caso de Gonzaga de Sá.

Temos ainda mais um exemplo: o ufanista patriota esmigalhado pelo País que tanto ama. Contaremos no próximo artigo como foi o Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Mas você pode assim ter uma noção de quantas lições extraímos da obra de Lima Barreto; e não é apenas com sua obra que aprendemos algo, mas com sua própria biografia. Lima Barreto todos conhecem. Por algum motivo ele se reconciliou com o Brasil. E sabe por quê? Porque Lima Barreto também se destruiu.

Não como um dos seus personagens, mas fornecendo mais um exemplo desses destinos reservados às vocações intelectuais no ambiente brasileiro. Tornou-se um alcoólatra, foi internado várias vezes e passou o fim da vida pelos hospícios, morrendo aos 41 anos de um ataque nervoso que lhe rendeu um colapso cardíaco.

Se você sente um chamado à vida intelectual, cuidado com o Brasil, pois ele passa, hoje mais do que no tempo de Lima Barreto, por uma pandemia de infecção moral.

O entorno do intelectual brasileiro é de insanidade, inveja, burrice, desdém e vaidade; e isso tudo pode ser altamente contagioso.

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