História

Raízes na Grécia: A Origem do Gênero Trágico

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O teatro Grego fez tão parte do povo heleno quanto sua famosa filosofia. As obras do poeta Homero, por exemplo, é a essência de toda cultura ocidental até os tempos atuais. Fora no século V a.C. que surgira o gênero trágico que ainda hoje é um dos mais procurados por nós espectadores. Para o público atual, o trágico remete a tristeza, infortune-o ou a qualquer tipo de acontecimento danoso aos personagens. Mas enquanto ao Grego daquela época, o que seria o gênero trágico?

Suas raízes.

Muito se fala do início deste gênero teatral, chegando até ao ponto conflitante entre teses. Jacqueline de Romilly em seu livro, “A Tragédia Grega” nos traz algumas destas origens possíveis. Ela afirma que sua criação teve início na religiosidade, no caso, representações do culto ao deus Dioniso (2018, p.14). Estas representações vinham como em festa urbanas ao deus, onde se celebrava a Primavera. Havia procissões, sacrifícios e cânticos ditirâmbicos – o ditirambo é um cântico grego protagonizado por um único cantor, o corifeu, ele é conhecido por ser expresso com muito entusiasmo e paixão – tudo em homenagem a Dioniso.

Dioniso é o deus dos ciclos vitais, das festas, dos vinhos, da intoxicação e do diferente. Foi o último deus aceito no Olimpo e simbolizava tudo o que era caótico, inesperado e o que escapa da razão humana e posteriormente ao teatro que retrata muito bem todas as facetas designadas a este deus.

Aristóteles em Poética (1449 a) nos diz que a tragédia teria nascido de improvisos, que teria a sua origem em formas líricas como o ditirambo, que seria, portanto, tal como a comédia (um dos gêneros já existentes na época), à amplificação de um rito.

Etimologia do Trágico.

A palavra Tragédia vem de uma junção entre duas palavras; tragos (bode) e odé (canto) que resultava em “Canto do bode”. Rasamente foi colocado este significado a figura dionisíaca e até a assemelhar as barbas do animal ao deus em questão, mas há teorias e fragmentos que nos leva além disto.

Sabe-se que este gênero tem ligação direta com dois outros gêneros anteriores, o drama sátiro e os ditirambos. Os sátiros eram figuras mitológicas, metade humano e metade bode, viviam em bosques e em meio a natureza, atraiam humanos com seus cânticos para florestas adentro para lá se libertarem em representações artísticas. Os cantos ditirâmbicos eram por sua vez cânticos de louvor ao deus Dioniso.

Em dado momento ocorrera um processo de transformação para o gênero em questão. O historiador Lesky nos conta que em uma necessidade de se afastar do urbano e suas mazelas, alguns cantores voltavam suas atenções aos campos e as festas rurais, e logo se depararam com Dioniso e os concursos para se descobrir o melhor sátiro entre eles, tudo ainda com o fim de louvar ao deus, portanto, a tragédia proviria deste encontro. O prêmio era, neste caso, um bode. Algo que sustenta esta tese são as raízes rurais do primeiro tragediógrafo que se há notícias, Téspis (LESKY, 2019, p.84).

Sobre Tépsis (610 a 534 a.C.) – Diz-se dele que foi o inventor do estilo trágico, o primeiro a organizar um coro, a fazê-lo cantar um ditirambo, a denominar o que o coro cantava e a introduzir sátiros que falavam em versos. (LESKY, 2019, p.26)

O Teatro Trágico.

Havia duas oportunidades de se ir ao teatro no ano, cada uma comportava um concurso que durava três dias. Um autor devia apresentar três tragédias para então pô-lo a prova, seja de forma cronológica como geralmente acontecia ou não. Os cidadãos ricos que geralmente provinham os custos destes eventos.

“No dia da representação, o povo todo era convidado a ir ao espetáculo e desde a época de Péricles que os cidadãos pobres também o podiam, além de receber um pequeno abono” Romilly (2018, p.15)

Há dois aspectos bem característicos das representações teatrais gregas e que não foge ao gênero Trágico, que são o uso das máscaras e a utilização somente de atores masculinos. Ambos provêm de séculos anteriores, ainda com as primeiras formas de cânticos dos sátiros aos quais a utilização da máscara que tinham a função, segundo Albin Lesky, de transferir a seu portador poderes mágicos (LESKY, 2019, p.83 a p.89).

Segundo Aristóteles:

Tragédia é imitação de uma ação séria e acabada, dotada de grandeza, por meio de um discurso agradável, distinto para cada uma das formas em suas partes, de personagens que atuam e não mediante narração, a qual mediante compaixão e medo, efetua a purificação dessas paixões. (1449 b)

A palavra “purificação” aparece como katharsis no texto original, o filosofo Enrico Berti diz sobre ela que:

Dessa passagem se depreende, com efeito, que paixões como a compaixão e o medo, as quais de per se provocariam a dor, graças à imitação, ou seja, graças ao fato de serem experimentadas por pessoas que não são reais, mas pelos personagens representados, são purificados pela dor e proporcionam prazer, o prazer ligado à aprendizagem. (BERTI, 2015, p.137)

Está colocação feita por Aristóteles e Berti resumem bem a base deste gênero, os autores precisam obedecer tais regras e andar em harmonia com a katharsis, colocando-a sempre em ativo efeito em sua narrativa.

Do gênero em questão, três grandes autores surgiriam no século seguinte a Tépsis: Ésquilo, Sofocles e Euripides, esta tríade, tal como Homero, moldariam as mentes de seus espectadores por anos afora. Ainda hoje assistimos filmes ou lemos literatura cujo o autor utilizou-se de alguma das facetas criadas por eles.

Ao lê-los, a conexão é inevitável. Esta é mais uma amostra de como os helenos de outrora se imortalizaram em nós.

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Referencias:

ROMILLY, Jacqueline de. Leonor Santa Bárbara. A Tragédia Grega. Portugal: Edições 70, Ed 6, 2018.

BERTI, Enrico. Ephraim Ferreira Alves. Aristóteles. São Paulo: Editora Ideias&Letras,2015.

ARISTÓTELES. Edson Bini. Poética. São Paulo: Edipro, Ed 1, 2018.

LESKY, Albin. J. Guinsburg. A Tragédia Grega. São Paulo: Editora Perspectiva Ed 4, 2019.

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Vitor Guerino

Me chamo Vitor Guerino P. de Oliveira, tenho 24 anos e resido na cidade de São Paulo. Graduando em história e estudante assíduo de filosofia - minha maior paixão - e política, estou sempre presente na vida acadêmica publicando artigos científicos relacionados bem como em seminários e entre outros estudos focados. Minha especialidade mora na História Antiga, bem como sua Filosofia. Sou também cursado em ciências políticas, fluente em inglês e atuo na área de pesquisas. Colunista do jornal Duna Pess.
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