Literatura

Triste Fim de Policarpo Quaresma – Uma Análise Literária

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A obra de Lima Barreto é o pé na sua cara. Digo na sua pois não há brasileiro que passe imune a um exame de consciência em potencial ao ler os principais livros desse autor.

Todos no Brasil conhecem, por exemplo, o “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Quem não leu, já ouviu falar. Há ali um retrato desesperador de certos aspectos odiosos da cultura brasileira. 

Poucos, entretanto, realmente sabem disso. Pouco ou nada se fala do real significado dessa pesadíssima obra literária. Policarpo Quaresma era um patriota ufanista brasileiro que se deu muito mal. Mas e daí? O que isso quer dizer?

Análises sérias dessa obra são dificilmente encontráveis por aí. Muita falsificação, deturpação e instrumentalização ideológica do livro estão em circulação, mas muito pouco sobre o livro em si e sua mensagem real. Eis a deficiência que vamos suprir aqui.

Os Estados Unidos do Brasil

É usual nas análises disponíveis sobre a obra dar grande ênfase à figura do protagonista, Policarpo Quaresma. Nós vamos começar, contudo, pela compreensão do ambiente cultural e político que serve de cenário para a trama da vida dele: O ambiente brasileiro.

Aplicado por oligarquias de escravocratas e positivistas, o golpe que implantou no Brasil o regime republicano foi um ato que desencadeou uma série interminável de trapalhadas.

Não houve apoio popular algum na implantação da República e muita insatisfação foi manifestada logo nos primeiros anos do novo regime.

Todos os movimentos que se manifestaram criticamente em relação à República foram brutalmente reprimidos, e o regime assumiu ares de uma implacável ditadura.

Não podemos esquecer, também, do que aconteceu com os pobres sertanejos do arraial de Canudos. Reunidos em torno da figura de Antônio Conselheiro, o humilde povão de Canudos, que crescia cada vez mais, via a República como o governo do Anti-Cristo.

O governo da República, recém-instalado, queria dinheiro para materializar seus planos, e só se fazia presente pela cobrança de impostos; instituiu, também, o Estado Laico, que para Antônio Conselheiro era uma sinal claro da impiedade daquele novo regime.

Circulou-se como justificativa para o terrível massacre que o exército republicano realizou no arraial de Canudos que aquele era um grupo de “perigosos monarquistas”. A brutal e covarde crueldade que foi praticada contra aquele humilde vilarejo todos conhecem, e está magistralmente registrada no livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.

Enfim, sobre isso disserto pois era isso que estava acontecendo no Brasil. Massacres, perseguições cruéis, execuções sumárias e muita tirania para consolidar o regime republicano, tudo em nome do Positivismo, que é uma ideologia filosoficamente pueril.

E na cabeça do Policarpo Quaresma? Nada disso! Nosso Major Quaresma, apesar de extremamente bondoso de coração e bem intencionado, vivia completamente alienado. Seus estudos consistiam na exaltação da natureza da Pátria, nossas selvas, nossos rios navegáveis, nossas potencialidades naturais, nossa identidade nacional etc.

Não que o patriotismo de Quaresma seja condenável. Na verdade é louvável! Até entrar na fase da frutificação de suas ideias, Policarpo passou trinta anos em meditações patrióticas! É bastante tempo… O homem sabia muito do Brasil, mas seu patriotismo era folclórico e ingênuo. Também a sua inteligência foi infectada por uma espécie de torpor intelectual que era muito comum nessa época; Talvez em todas as épocas; São raros os homens que realmente estão acordados para a realidade, e isso não depende de erudição…

Patriotismo naturo-ufanista

Eis uma característica da cultura brasileira que aparece no personagem mesmo que é protagonista, Policarpo Quaresma: um “patriotismo naturo-ufanista”, ou seja, um orgulho das nossas vantagens naturais, das nossas matas e dos nossos climas.

Nenhuma realização do povo – que nunca existiu – ou de grandes espíritos; apenas a exaltação de algo que não é absolutamente mérito de ninguém a não ser Deus… Não há a ação histórica humana presente na identidade nacional do brasileiro de tal forma que ele possa dizer “Isto aqui nossos antepassados e fundadores fizeram, é nossa herança!”

Ódio e desprezo pelo conhecimento

Uma aspecto que salta aos olhos e que reflete, novamente, o ambiente cultural brasileiro (até hoje) é o ódio e a afetação de desprezo pelo conhecimento. 

Parece exagero, mas é tristemente um verdadeiro ódio que se manifesta na demonstração afetada de superioridade e desprezo com relação a todo e qualquer tipo de conhecimento. Só o que vale no Brasil são os diplomas, os títulos e os postos oficiais de “dotô” e “póis-dotô”. E nada disso precisa vir acompanhado do conhecimento que, em tese, seria simbolizado pelo título correspondente.

Louvor aos títulos

Temática que já havia surgido nas “Recordações do Escrivão Isaías Caminha“, do mesmo Lima Barreto, essa reverência pachola que temos pelos títulos e o desprezo pelo conhecimento real é algo que traz muito atraso intelectual ao País.

Há a famosa descrição do “Triste Fim…”, logo na primeira página do livro, que relata o comentário que um afamado clínico da região onde morava Quaresma, Doutor Segadas, fazia em relação aos livros que Policarpo tinha e que podiam ser vistos da rua quando abertas as janelas: “Se não era formado, para quê? Pedantismo!”

Também os “amigos” de Policarpo, na casa do General Albernaz, quando recebem a notícia de que Quaresma estaria doido, dizem:
-Nem se podia esperar outra coisa, disse o Doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de leitura…
-Pra que ele lia tanto? – indagou Caldas
-Telha de menos, disse Florêncio.
Genelício atalhou com autoridade:
-Ele não era formado, para que meter-se em livros?
-É verdade, fez Inocêncio.
-Isto de livros é bom para os sábios, para os doutores, observou Sigismundo.
-Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros.

E para que não fique dúvida de que é a um aspecto da cultura brasileira, especificamente brasileira, que Lima Barreto se refere, saiba-se: quando um compadre de Policarpo Quaresma, o italiano Coleoni, viu nos jornais a troça que faziam do Major, não pode compreender o que Policarpo fizera de tão grave para merecer tanta galhofa;

É assim que descreve Lima Barreto o que acontecia ao compadre: “Europeu, de origem humilde e aldeã, (…) como apesar dos bastos anos de Brasil, ainda não sabia juntar o saber aos títulos, tinha em grande consideração a erudição do compadre.

Esse odioso aspecto, para irmos adiante na análise, volta a ser retratado por Lima Barreto várias vezes, tanto neste, quanto em outros romances. Avancemos.

Mediocridade jurídica e burocrática

Na descrição do Contra-Almirante Caldas, ao informar o leitor de que adquirira uma mania demandista, Lima Barreto narra que “ultimamente andava ele de cartório em cartório, acotovelando-se com meirinhos, escrivães, juízes e advogados – esse poviléu rebarbativo do foro que parece ter contraído todas as misérias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos.

Ora, tendo o próprio Lima Barreto trabalhado em repartição pública e tido contato com ambientes burocráticos de secretaria, podemos abrir os olhos através da leitura desse romance em relação a um problema altamente irritante e detestável.

Temática presente também em “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá“, a mediocridade dos meios jurídicos e burocráticos faz com que aquilo que deveria ser uma máquina à serviço do povo seja uma casta de favorecidos pensando cada um no seu próprio conforto e deleitando-se na sua auto-imagem.

É uma cena icônica do “Triste Fim…” que faz com que caiam as escamas de nossos olhos, escamas que impediam que enxergássemos o ridículo da tola vaidade e orgulhosa presunção presentes nesses meios.

Estou falando do chilique que o diretor da repartição de Policarpo Quaresma dá quando o Major amanuense, ao iniciar uma desculpa, diz:

Pois não. Mas Vossa Excelência não sabe…

-Não sabe! Que diz? O diretor levantou-se da cadeira, com os lábios brancos e a mão levantada à altura da cabeça. Tinha sido ofendido três vezes: na sua honra individual, na honra de sua casta e na do estabelecimento de ensino que frequentara. (…) Tantos títulos valiosos e raros de se encontrarem reunidos, mesmo em Descartes ou Shakespeare, transformava aquele – não sabe – de um amanuense em ofensa profunda, em injúria.

-Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor porventura o curso de Benjamim Constant? Sabe o senhor Matemática, Astronomia, Física, Química, Sociologia e Moral? Como ousa então? Pois o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francesinho aí, pode ombrear-se com quem tirou grau 9 em Cálculo, 10 em Mecânica, 8 em Astronomia, 10 em Hidráulica, 9 em Descritiva? Então?!

E o homem sacudia ferozmente a mão e olhava ferozmente para Quaresma que já se julgava fuzilado.

-Mas, senhor coronel…

-Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda ordem.

Mesquinhez política

Depois de passar seis meses internado num hospício e ser aposentado por invalidez, Policarpo Quaresma resolve ir cuidar de um sítio, o “Sossego”, na cidade de Curuzu.

Ali, sem a menor pretensão de envolver-se com a política local, vê-se, em razão de fofocas e comentários anônimos, vítima de uma série de absurdas arbitrariedades contra sua pessoa, seu sítio e sua modesta produção.

Após largo período de trabalho árduo, sofrido, coalhado de desafios, Policarpo consegue singelas colheitas de frutos, batatas, milho, aipins etc. e vende-as, transportando o resultado de seu trabalho em carretas, obtendo lucro irrisório, pois gastava quase tudo o que receberia com a venda na logística.

É com todas essas dificuldades que, após recusar-se a mentir a um tal Neves a pedido de um político da região, o Doutor Campos, ele recebe uma estapafúrdia intimação para, sob as penas das posturas e leis, roçar e capinar as testadas do sítio que confrontavam com as vias públicas.

Recebendo a intimação e percebendo que foi o Doutor Campos que a assinara, Policarpo tem um vislumbre. Transcrevo o trecho pois vale a pena:

A luz se lhe fez no pensamento… Aquela rede de leis, de posturas, de códigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de tais caciques, se transformava em potro, em polé, em instrumento de suplícios para torturar os inimigos, oprimir as populações, crestar-lhe a iniciativa e a independência, abatendo-as e desmoralizando-as.

Pelos seus olhos passaram num instante aquelas faces amareladas e chupadas que se encostavam nos portais das vendas preguiçosamente; viu também aquelas crianças maltrapilhas e sujas, d’olhos baixos, a esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aquelas terras abandonadas, improdutivas, entregues às ervas e insetos daninhos; viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, ativo e trabalhador, sem ânimo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que lhe passava pelas mãos – este quadro passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do relâmpago;

Foi após esses acontecimentos que Policarpo Quaresma teve a convicção de que o Brasil só se ergueria depois que fizéssemos reformas na agricultura, que removêssemos os empecilhos para a lavoura e trabalhassemos carinhosamente a terra, baixando impostos e eliminando entraves para o sucesso econômico da população.

Assim, ele redigiu um extenso memorial para o Marechal Floriano Peixoto, expondo, com base em seus estudos e em suas experiências, o que era necessário para erguer o País.

Quem sabe o que Floriano Peixoto disse sobre o memorial, sabe. Quem não sabe, vai ter que ler o livro…

Quanto ao mais, dispensa comentários esse aspecto. Eis o mundo da política brasileira, que é o mundo gerador das leis e do direito que regulam nossa vida.

Conclusão

Enfim, já falei demais. Tendo visto em alto relevo tantos aspectos odiosos do ambiente cultural e político do Brasil, podemos agora fazer-mo-nos mais conscientes de qual o cenário das nossas vidas.

Para conhecer o Brasil, a obra de Lima Barreto é fundamental. E conhecer o Brasil, se não quisermos ser destruídos por ele como os personagens de Lima Barreto e o próprio Lima Barreto, é indispensável.


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