O Feijão e o Sonho, de Orígenes Lessa – Uma Análise Literária

O Feijão e o Sonho, de Orígenes Lessa – Uma Análise Literária

Você sonha em ser um escritor, um poeta ou um filósofo, mas em toda parte só o que encontra é desilusão?

Você almeja tocar os seus semelhantes com lições profundas extraídas da realidade que te ensina, transmitidas com beleza e emoção, mas só o que consegue dos que te cercam é incompreensão e descrédito?

Você tem alma de poeta, sensibilidade aguda e um profundo anseio em fazer disso tudo instrumentos para realizações reais na sua vida, mas só o que obtem é frustração e desânimo?

Talvez você esteja em uma situação semelhante à do protagonista de “O feijão e o sonho”, de Orígenes Lessa.

Campos Lara é um poeta por vocação, casado e pai de 4 filhos, aos quais não consegue prover satisfatoriamente as necessidades materiais.

Sua esposa, Maria Rosa, não o compreende; não aceita que um homem como ele insista tanto em literatura quando já ficou demonstrado na vida deles que isso não vai lhes trazer lucro.

Ele, por sua vez, recusa-se a levar tão à sério essas necessidades que, no fundo, são passageiras e menos importantes do que as grandezas literárias às quais é chamado a registrar um escritor.

Campos Lara, na verdade, não consegue aplicar nessas nobres atividades todas as dimensões do seu ser. Relaciona-se com o seu ideal e com as circunstâncias que tem para realizá-lo de forma absolutamente imatura.

Era Goethe quem dizia que o talento se forma na solidão e que o caráter, por sua vez, forma-se nas adversidades e na voragem da vida exterior.

Campos Lara quer desenvolver seu talento, mas negligencia teimosamente a formação do seu caráter.

Não sabe negociar com as circunstâncias da sua vida e acaba, por isso, sendo um fracassado.

Maria Rosa, a esposa, sabe que o marido está fazendo algo errado. Afinal, nem comida direito tem em casa. A situação financeira é realmente precária.

Acha, entretanto, que o problema é a atividade do esposo: a literatura.
Põe a culpa nela, a ponto de dizer que prefere que seus filhos sejam burros, contanto que saibam fazer dinheiro.

Maria Rosa pensa que as preocupações materiais que o marido não consegue atravessar são o solo duro da realidade, da qual Campos Lara vive alienado.

É por isso que briga tanto com ele! E a relação imatura dele com a vida só se agrava, eis que ele fica sem energia e desmotivado.

O drama desse casal ilustra um aspecto deprimente da cultura dos brasileiros.

Somos constantemente incapazes de integrar em nossos ideais de vida as circunstâncias concretas nas quais eles devem se realizar.

Campos Lara, vivendo apenas no mundo do sonho, ignora que esse sonho precisa ser transformado em verdadeiro projeto operacional, incluíndo nele as suas responsabilidades de marido e pai.

Por isso, despreza as oportunidades que a vida lhe oferece, negligenciando a dimensão material da sua existência.

Maria Rosa, vivendo apenas no mundo do feijão, ignora que o marido é, na verdade, uma vocação única!

Ela é incapaz de perceber que apenas fortalecendo seu espírito é que Campos Lara poderá tirá-los daquela miséria.

Assim, ao invés de ajudá-lo como companheira, acaba apenas o enfraquecendo mais e mais, sem perceber que o problema deles tem sua causa principalmente na imaturidade com a qual enfrentam a vida. E assim os dois ficam presos num ciclo infernal de impotência e pobreza de espírito.

Campos Lara, infectado também ele pelo vírus da alienação, buscava exemplos de fome e miséria em casas alheias quando no seio do seu próprio lar grassava a falta de recursos.

Quantos romances deve ter ele escrito sobre realidades difíceis, escondidas nalgum vilarejo hipotético do Brasil? Com que sensibilidade deve ter ele percebido as dores e as aflições de anônimos seres que se debatiam na luta pela sobrevivência, tudo isso ao mesmo tempo em que fechava os olhos e tapava os ouvidos às dores de sua própria família?

Quantos Campos Laras não haverão Brasil afora… Poetas e romancistas, a descrever as experiências de humanos abstratos, percebendo-as com uma habilidade formidável, incapazes, entretanto, de compreender o seu próprio contexto.

Campos Lara, porém, no fim de tudo, percebeu o que fizera. Chegou até mesmo a reconhecer que Maria Rosa tinha razão.

Afinal, revia o grande erro da sua vida. Enveredara pelo sonho, esquecendo a realidade imediata. Sacrificara, por aquele ideal inútil, a felicidade dos seus.

E isso foi, no fim de tudo, a triste consequência de sua inaptidão em reabsorver a circunstância – é nesse sentido que diz Ortega y Gasset que a reabsorção da circunstância é o destino concreto do ser humano.

Maria Rosa por sua vez provou o seu valor. E foi na atitude virtuosa de não guardar rancor ao marido que conseguiu tocá-lo, fazendo-o finalmente descobrir o lar, a esposa e os filhos. Acontece que, no mesmo instante, ele abandonou a pena! Parou de escrever…

Qual o significado desse antagonismo entre o feijão e o sonho?

Na verdade, é a pobreza de imaginação de um povo no fundo materialista que não sabe ver senão contradição entre a vida intelectual e a vida social e profissional.

É uma inabilidade fruto de uma deficiência na cultura mesma da nação, que produz intelectuais falsos e estereotipados de um lado e homens práticos desprovidos de elevados ideais de outro.

Pessoas com um relacionamento tão deprimente com a vida – a exemplo do casal desse livro – não podem fazer um trabalho filosófico ou literário verdadeiramente real e de qualidade.

Para escapar do ciclo vicioso retratado nessa obra apenas uma atitude é possível: Mudar de postura perante a vida, integrando na realização de sua personalidade os arredores da vida concreta que são o lugar mesmo onde o sonho se torna, enfim, realidade.

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