Paradigmas entre a mulher conservadora e a mulher revolucionária

Paradigmas entre a mulher conservadora e a mulher revolucionária

Embora se acredite que os seres humanos surgiram há cerca de 200 mil anos, a vida em sociedade organizada começou somente por volta de 10.000 a. C..

Das tribos nômades ao estabelecimento em locais de maneira permanente, graças ao domínio da agricultura e do pastoreio, foi preciso mais 6.000 anos, o que consequentemente promoveu a distribuição formal de tarefas entre os membros do que mais tarde seriam os clãs – comunidades ou conjunto de famílias que se presumem ou são descendentes de ancestrais comuns.

É aqui que começam as primeiras diferenças sociais entre machos e fêmeas.
Embora não necessariamente conflitantes, os papéis assumidos dividiam os membros de uma pequena sociedade, ao se levar em consideração aptidões, compleição física e até as características biológicas, que seriam conhecidas somente séculos depois.

E parir foi e é o que distingue de maneira inequívoca homens e mulheres.

Os avanços da sociedade em todos os campos do conhecimento acentuou o distanciamento social entre os sexos. Na medida em que cabia à mulher os cuidados com a prole, ao homem foi dada a incumbência de prover o que, na Roma Antiga, se sistematizou como a família patriarcal.

Como um conjunto de movimentos político, social, ideológico e filosófico, o feminismo tem como objetivo o estabelecimento da equidade em todos os campos do direito e da abolição dos padrões patriarcais ancorados em gênero.

A história do Feminismo pode ser dividia em três “ondas”: a primeira ocorrida no século XIX e estendida até o início do século XX, a segunda entre os anos 1960 e 1970 e a terceira dos anos 1990 até os dias atuais.

Entre todos os temas e aspectos envolvidos no Feminismo, colocados como objetos de discussão e até de imposição, é importante entender o que o lançou: (1) a promoção da igualdade nos direitos contratuais e de propriedade para homens e mulheres, (2) a oposição aos casamentos arranjados e (3) a derrubada do senso de propriedade sobre mulheres casadas e seus filhos, exercida por seus maridos. Essa foi a primeira onda.

Mais do que legítimo: justo e tardio.

A segunda onda se debruça sobre as desigualdades culturais e políticas entre os sexos, as vinculando às estruturas sexistas e estimulando as mulheres a entender os aspectos das suas vidas como profundamente politizados.

O impacto e a amplitude de campos e esferas por onde o Feminismo avançou fez com que evidentes e esperados insucessos ocorressem, tanto dentro como fora dos movimentos.

Assim, a terceira onda se estabeleceu basicamente para reordenar essas falhas e ampliar a visão de que o feminismo deveria ir além das experiências e percepções essencialistas da mulher branca, de
classe média; a feminilidade tem muitas cores, etnias, nacionalidades, religiões, etc., e a construção multidisciplinar e envolvente do universo feminino visa a conversão do debate para o que é e o que não é bom para a mulher. Nesse sentido, lideranças divergentes surgem e carregam consigo focos diferentes para os problemas comuns das mulheres, subvertendo o
feminismo e provocando o surgimento do Pós-feminismo e seus questionamentos sobre a validade do movimento original – a exemplo da historiadora da arte Amelia Jones, que escreveu textos pós-feministas retratando o feminismo como uma entidade monolítica.

Ou seja, mulheres modernas criticando as atitudes modernistas das mulheres. À parte do significado e da importância histórica do modernismo, hoje vemos a discussão dentro do próprio contingente feminino e feminista sobre os valores do feminismo e os seus reais propósitos; Alas radicais, alas moderadas e alas conservadoras, por exemplo, se confrontam nos questionamentos e nas visões distorcidas das origens e do futuro do movimento.

Nesse cenário “pós-feminista”, que se tornou global e se confunde com uma abordagem conservadora ou acomodada por questionar as batalhas vencidas e as metodologias aplicadas, assistimos à ruptura entre os blocos que defendem ações ainda mais revolucionárias, impondo métodos impactantes e até constrangedores ao comportamento humano, e os blocos
propriamente conservadores que, sobretudo, entendem a equidade, mas ao mesmo tempo compreende as diferenças imutáveis entre os sexos – a estes, os blocos ultrarradicais atribuem equivocadamente a denominação de “Contra Feminismo”.

E a equação é simples: não há unanimidade verdadeira nem nas decisões unânimes. Negociar é parte da conduta do homem, e quando isso deixa de acontecer de maneira ampla, nascem as pequenas ditaduras. O feminismo plural, que reconhece o fator da diferença como uma recusa à hegemonia de um tipo de feminismo sobre outro, valoriza as vitórias conquistadas
sem deixar de reiterar o próprio conceito de diferença e, no entanto, é motivo de confronto dentro da própria multiplicidade de leituras que o Feminismo preconiza.

A mulher revolucionária, que emblematicamente usa de armas para agredir o convencional com o objetivo de impor o pensamento crítico sobre questões isoladas do feminismo que não representa o todo, como tampouco a mulher conservadora que entende as diferenças, mas defende uma clara separação de conduta e responsabilidades dentro da esfera social.

Ambas tem razões, ambas cometem erros e ambas se mostram ditatoriais.

A história humana mostra, e prova, que todo avanço começou por meio da imposição; somos pouco desenvolvidos para que uma aceitação seja ampla e simplificada, pois ela depende da compreensão dos propósitos. Os mais bem dotados de conhecimento e capacidade de discernimento sempre serão minoria, razão pela qual até na Roma Antiga, onde os casamentos foram concebidos da maneira como basicamente os conhecemos na atualidade, havia o sistema de governo monocrático e ditatorial, em cujo cenário social e politicamente inóspito, veja só, destacou-se uma rainha: Cleópatra.

Várias mulheres se destacaram ao longo dos 12.000 anos em que vivemos no modelo de sociedade, mas obviamente a minoria teve presença histórica nas decisões que moldaram o mundo, posto que por milênios coube ao homem ir à guerra – no sentido amplo e figurado, tanto para assegurar o provento como para manter o domínio da espécie

A aceleração do feminismo, que em menos de dois séculos promoveu de maneira fantástica debates fundamentais para o equilíbrio entre os sexos e concretizou avanços em todos os campos das relações humanas, ainda carece de uma solução simples para a questão que mais impacta na equidade de homens e mulheres: a aceitação da nossa própria natureza.
E neste ponto, fica clara a discrepância do discurso entre os blocos revolucionários e os blocos conservadores, quando pensamos nas regras escritas que buscam se sobrepor às regras humanas.

A equidade não substitui e tampouco coloca num mesmo nível o que nos faz diferentes, seja em relação à complexidade genética ou às variantes do nosso comportamento. O Feminismo, que não encontra par no sexo oposto, se coloca no limiar entre a discussão e a imposição dos assuntos tratados – e é aqui que reside a sua resistência.

“Meu corpo, minhas regras”.

Uma frase feminista que reúne uma série de interpretações, mas que se originou na discussão legítima sobre a violência sofrida por mulheres de todos os tipos, mas que também revela uma pontinha ditatorial: sem compreender o seu significado original, a massa feminina a adota para
questões prosaicas como, por exemplo, contestar uma vacina sem conhecimento médico ou mesmo adotar dietas amalucadas sem qualquer fundamento nutricional. O desmanche de valores do próprio feminismo, em parte, acontece pelas próprias mulheres.

Mulheres podem, querem ter filhos, ou não, e isso é um direito conquistado pelo pensamento emocional, não pela racionalidade. No entanto, exercendo ou não esse direito, e salvo as exceções de origens fisiológicas, todas as mulheres podem ser mães. Homens não.

Homens são naturalmente guerreiros no sentido fiel da palavra, mulheres não.

Se há aquelas que, de maneira conservadora, entendem que o formato patriarcal, ainda que meramente emblemático, pode sustentar um modelo de convívio fundamentado na distinção entre os sexos, ainda que modernamente respeitoso e harmônico, também há aquelas que, de
maneira revolucionária e ambiciosa, defendem que os resíduos históricos e as diferenças biológicas são apenas referências para construir uma sociedade absolutamente equânime.

Sobre isso, uma coisa é 100% certa: jamais haverá consenso entre as mulheres, pois se existe algo que não faz parte do DNA feminino é a possibilidade de concordância entre elas mesmas.

Referências:
1. The Smithsonian Institutions’ Human Origins Program, “Homo Sapiens”, 2016.
2. José Jefferson Cunha Machado, “Curso de Direito de Família”, 2000
3. Maggie Humm, “The Dictionary of Feminist Theory”, 1990.
4. Rebecca Walker, “Becoming the Third Wave”, 1992.
5. Carol Hanisch, “Hanisch New Intro to ‘The Personal is Political’ – Second Wave and Beyond”, 2008.
6. Stacy Gillis, Gillian Howie, Rebecca Munford, “Third Wave Feminism: a Critical Exploration”, 2007.
7. Judith Butler, “Introducción a Su Lectura”, 2003.
8. Amelia Jones, “Postfeminism, Feminist Pleasures and Embodied Theories of Art”, 1994.
9. Simone de Beauvoir, “O Segundo Sexo”, 1976.
10. Rosi Braidotti, “normandic Subjects: Embodiment and Sexual Difference in Contemporary Feminist
Theory”, 1994. Por EMERSON EDUARDO RODRIGUES – Autor dos trabalhos conhecidos como NESSAHAN ALITA

Imagem em destaque: Representação Feminina – MediaBox


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