Primeira catástrofe astronáutica

Primeira catástrofe astronáutica

Sentimentos que pousaram em meu coração

A missão começa. Entro na cápsula pensando apenas no que devo fazer. Com toda paciência aguardo a ignição do primeiro estágio do meu foguete. Aí vamos nós! A decolagem começa, e sei que corro o risco de morrer nessa hora. Mas, tudo ocorre como planejado.

Já estou em órbita. Porém, existem problemas em minha nave: Os painéis solares não funcionam. Tento colocar tudo em ordem com minhas próprias mãos. Sei que meus colegas, que deveriam estar a caminho para acoplagem, não irão me encontrar em breve. Esses imprevistos acarretam a estrutura essencial de minha cápsula, e podem ocorrer também na deles, que, espero, que decole logo. Quando meus superiores, que acompanham tudo dessa missão, ficam sabendo do ocorrido, informam que devo retornar à Terra, imediatamente, para não colocar em risco minha vida e o programa em si.

Imagem: Desenho – Jessica Jaconetti, 08/06/2020.

Nesse misto de emoções, me sinto como um herói, pelo fato de ser a pessoa escolhida para testar um novo tipo de espaçonave, participar de sua construção, projeto, e tudo o que envolve a questão.

Meu pensamento continua a mil. Inicio o procedimento de retorno. Entro na atmosfera, o peso da gravidade começa a atuar em meu corpo, me lembro de meus familiares, amigos e simplesmente das pessoas que amo. Acontece que o paraquedas não abre. Tento manter a calma, forçando o segundo paraquedas abrir. Os dois se emaranham. Nada poderia ser pior do que minha cápsula indo em queda livre e recebendo mensagens triunfalistas e altas honrarias, como se já tivesse ficado para a História após minha morte certa.

Meu fim está próximo. Reflito como será minha passagem para outras dimensões ou e se voltaria ao espaço, em qual forma de matéria ou espírito, não sei.

Não abandono minha persistência, competência e tudo aquilo que aprendi sobre autocontrole em momentos críticos, principalmente nas aulas de expertise técnica e emocional de viagens espaciais.

Não pouso com elegância e nem tenho como escapar como meus colegas de missões anteriores. O assento ejetor foi banido do projeto.

Pessoas ouvem apenas uma explosão e vêm desesperadas ao local em que pousei. Não sei se estou vivo, mas certamente inerte. Terei o mesmo reconhecimento de meus colegas e irmãos que não falharam? Não sei.

Agora, fazendo uma análise, comparo o que acontece em uma missão espacial falha com o que penso sobre o amor. Nesse pensamento, decolamos e vamos para um local em que o futuro e as reações são totalmente incertas. Não sabemos se voltaremos, sobreviveremos, mas temos orgulho de nossos feitos para conquistar quem amamos. Porque somos tão desacreditados e humilhados por termos sentimentos verdadeiros, numa sociedade tão fluida, veloz e volátil? Não mais seria possível viver quem você realmente é, e como você é? 

Um astronauta desarmado é como o exército do amor, cantado por Viktor Saltykov: é o que mais tem esperança. Não tem como prever seu destino, está sozinho, apenas aguardando. Não dorme, pensando em sua missão, e acaba com o exército da razão. Me considero um astronauta caído. Faço, me inspiro, dou o meu melhor, mas, no fim, faleço em vão ao cair na Terra, sem paraquedas, e com destino certo.

Imagem: Desenho – Jessica Jaconetti, 08/06/2020.

Crônica baseada na história real de Vladimir Komarov – Владимир Михайлович Комаров (Moscovo, 16/03/1927 – Oblast de Oremburgo, 24/04/1967), primeiro cosmonauta soviético a ir ao espaço duas vezes e o primeiro homem a morrer numa missão espacial, a bordo da nave Soyuz 1, em abril de 1967.


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