A covardia moral nas Memórias Póstumas de Brás Cubas

A covardia moral nas Memórias Póstumas de Brás Cubas

Após lermos e analisarmos de Lima Barreto 3 livros escolhidos para entender o Brasil – livros indispensáveis segundo esse critério – o próximo escritor sobre o qual avançaremos é ele, o Bruxo do Cosme Velho. 

Como diz Otto Maria Carpeaux na sua Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira, trata-se de um escritor contemporâneo do naturalismo e do parnasianismo, que não pertence a este nem àquele grupo. Seria preciso afirmar a existência de um “grupo” de que ele é o único membro. José Veríssimo, crítico literário e historiador da literatura fez mais ou menos isso. 

Mas, segundo o mesmo Carpeaux, não é tanto assim. Machado foi, na mocidade e na primeira fase de sua carreira literária, romântico, superando depois essa tendência. E foi no livro que vamos analisar hoje que ele dividiu a sua carreira em duas. Foi neste livro que ele teve o seu estalo. Passou a ser conhecido como o anti-romântico mais definido da literatura brasileira. E chamam-no também realista: embora não no sentido que muitas vezes se dá ao realismo literário do século XIX, como precursor do naturalismo, mas principalmente no sentido em que Dostoievski falou de “realismo psicológico”.

Pois bem, a obra que vamos analisar hoje foi escrita “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Sobre ela, o autor, que é um defunto, assim se explica: “Trata-se de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo”. Sim, estamos falando daquela grande obra, dedicada ao verme que primeiro roeu as frias carnes do cadáver do autor. Estamos falando das Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Machado leitor da grande Literatura

É no prólogo da quarta edição que o nosso Joaquim Maria Machado de Assis como que explica essas referências mencionadas a pouco, que são influências suas, admitidas abertamente. Xavier de Maistre escreveu “Viagens em volta do meu quarto”, Almeida Garrett escreveu “Viagens na minha terra” e Sterne escreveu “Uma Viagem Sentimental pela França e Itália”. Ele diz que todos estes viajaram, o primeiro no próprio quarto, o segundo na sua terra e o terceiro, que era irlandês, na terra dos outros. E que de Brás Cubas, o autor deste livro, pode-se dizer que ele viajou ao redor da vida.

Vaidade das vaidades…

Segundo o Machado mesmo, o que faz de Brás Cubas um autor particular é o que ele, Cubas, chama “rabugens de pessimismo”. Isso o diferencia dos modelos que o inspiraram. E, de fato, nestas memórias nós encontramos o retrato psicológico de um sujeito incrivelmente tacanho. Não é um pessimismo filosófico do mais alto grau, como aquele encontrado no Livro do Eclesiastes, por exemplo. Vaidade das vaidades… Afirmar que tudo é vaidade é uma espécie de pessimismo santo, que nos faz tirar os olhos das coisas terrenas e fixá-los em coisas mais altas, duradouras. As rabugens de pessimismo de Brás Cubas vêm da sua mediocridade mesma, da sua estreiteza existencial. Um sujeito desprovido, absolutamente, de qualquer ideal. Na vida dele, de fato, foi tudo vaidade.

Quanto aos fatos, não há motivos para narrá-los aqui. Sabemos de antemão que o protagonista está morto, e que conta suas memórias do além-túmulo. Os fatos da sua vida só interessam na medida em que ajudam a compreender a formação dessa personalidade tão desprezível. Aliás, dos livros que já analisamos aqui, todos contam a história de personagens medíocres, quando muito ingênuos, coisa que distingue bastante a nossa literatura da do restante do mundo. Somos, na literatura, como que uma pátria sem grandes heróis, santos e até sem personalidades muito complexas. Em Lima Barreto vimos algumas personalidades que fugiam um pouco do ordinário e por isso mesmo, acabaram muito mal no ambiente brasileiro. No caso de Policarpo Quaresma, por exemplo, a complexidade de sua personalidade é uma coisa cômica, não heroica.

Com Brás Cubas é um pouco diferente. Ele não teve problemas na sua vida, não se deu mal no seu ambiente social. Nunca se interessou pelo País, nem pelo pensamento, nem sequer em pessoa alguma. Pensou apenas em si mesmo. Até quando Brás Cubas teve uma paixão intensa, que foi Virgília, uma mulher casada, era apenas seu egoísmo falando mais alto que o amor ao próximo. Tendo a oportunidade de casar com ela, não quis. Depois que ela casou, ele a quis. E querendo uma mulher casada e com filhos, queria o mal dela. 

O clássico auto-engano

Entretanto, fino leitor, ele não admite essas coisas. Ele te persuade muito bem de que sua conduta tem outras explicações, em geral bastante estapafúrdias. E ele o faz pois antes persuadiu a si mesmo. Quanto a querer Virgília casada, ele se explica, por exemplo, no capítulo LVI com a teoria do momento oportuno. Ele mesmo se pergunta por que é que quando podia casar-se com ela, não houve atração mútua, e agora que ela está casada com outro, a paixão se acende. E quando aparece um sujeito galanteando-a e ela diz “ah, que sujeito importuno”, ele pensa: “Olha aí, está explicado! Eu vim de importuno a oportuno!”. Trata-se, é evidente, de uma blague.

O egoísmo de Brás Cubas o deixa, em suma, completamente cego às reais motivações de seus próprios preconceitos e de suas próprias ações. Vez ou outra ele admite que foi movido, por exemplo, pela sede de nomeada, quando cogitou do emplasto Brás Cubas. Mas em geral, ele esta se auto-enganando.

A formação moral do homem

E essa mania ele não inventou não. Seu pai já se auto-enganava. No capítulo XI, intitulado “O menino é pai do homem”, conhecemos como foi a formação moral de Brás Cubas, formação que sempre se dá no seio da família. Após falar brevemente de seu pai e de sua mãe, ele diz:

“Da colaboração dessas duas criaturas nasceu a minha educação, que, se tinha alguma coisa boa, era no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio cônego fazia às vezes reparos ao irmão; dizia-lhe que ele me dava mais liberdade do que ensino, e mais afeição do que emenda; mas meu pai respondia que aplicava na minha educação um sistema inteiramente superior ao sistema usado; e por esse modo, sem confundir o irmão, iludia-se a si próprio.

Tinha o tio cônego – pode pensar o leitor – que deve ter exercido sobre ele alguma influência benéfica. Mas sobre ele, diz o autor: “Não era homem que visse a parte substancial da Igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepelizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos.”

E essa era a expressão geral, como diz o autor, do seu meio doméstico: Vulgaridade de caracteres, amor das aparências, frouxidão da vontade, domínio do capricho etc.

Por que temos personagens tão desprezíveis

E assim vai. Em todo o curso do livro, o leitor acompanha a sucessão de sacanagens que Brás Cubas pratica cinicamente contra os outros. E o pior: narrando suas patifarias com um ar vaidoso e auto-complacente. Um cidadão medíocre, tão preocupado com a própria glória que não conseguiu fazer nada de glorioso.

Este é, em linhas gerais, o retrato implacável que temos do Brasil pela pena de Machado de Assis. Isto é, caro leitor, muito recorrente na literatura brasileira. E não poderia ser diferente: Um escritor brasileiro dificilmente pode retratar grandes epopeias, feitos homéricos, sublimidades espirituais e grandiosidades existenciais. E por um motivo muito simples: ele não tem a experiência direta disso!

Mesmo que tenha havido figuras ilustres na história do País, a experiência constante e corriqueira do brasileiro tem sido sempre a da vileza moral e existencial. Isso se tornou o comum de tal forma que nos acostumamos com isso e achamos normal! E os escritores, mormente um realista como Machado, transpõem para o universo literário a humanidade do seu entorno, o que faz das Memórias Póstumas de Brás Cubas, quando lidas e transformadas em objeto de meditação, um instrumento precioso de recuo imaginativo que permite ao leitor avaliar a sua sociedade, compreendendo-a e vendo o que há de anormal nela.

O que nos leva a pensar que, se houvesse um sujeito que se pautasse por um critério atemporal de moralidade e se comportasse nessa sociedade como uma pessoa normal de uma época normal, ele seria visto ou como um mentecapto ou como um interesseiro mor. Não é isso o que acontece com Brás Cubas. Ele é um sujeito normal para o padrão de anormalidade do seu entorno. Teve até uma boa reputação entre a sua classe social e é justamente por isso que percebemos tão nitidamente ao meditar sobre o livro o que há de canalha em ser aceito gostosamente por todos. Em muitos ambientes, uma postura moralmente aceitável colocaria o indivíduo em situação conflitiva com o entorno.

Das Memórias póstumas nunca se dirá tudo

Dito isso, podemos registrar que esta obra pode render uma infinidade de meditações. Ela mesma está cheia de meditações. E não seria possível nem razoável, em uma modesta análise literária como esta, pretender esgotar o melhor do significado de um livro tão rico e tão poderoso como este.

Surge neste romance, por exemplo, um personagem muito interessante: Quincas Borba, o criador de uma filosofia extravagante chamada Humanitismo. Dentro do romance, então, Machado de Assis insere as elucubrações filosóficas de Quincas Borba que explica a Brás Cubas o seu sistema, bem como a tentativa de Cubas – uma falsa tentativa, diga-se, pois não havia nisso empenho sincero – em criar um jornal baseado nos princípios do Humanitismo.

A marcante figura de Dona Plácida é outro exemplo que pode servir para tantas meditações. Dona Plácida nasceu em situação miserável e teve sua vida praticamente salva por Virgília. A circunstância da vida fez com que os amantes transformassem-na em uma confidente deles. Seu nascimento foi trágico, sua vida foi trágica e sua morte foi trágica. E Brás Cubas não devotava-lhe mais do que a indiferença que a todos devotou. 

O escravo Prudêncio é também outro exemplo: quando criança, Brás Cubas, bem nascido, proprietário, montava no Prudêncio, punha-lhe um freio na boca e batia nele, fazendo de conta que era um animal. Adiante, Brás Cubas reencontra depois de muitos anos o mesmo Prudêncio, que tinha sido, entretanto, liberto. Mas o reencontro é chocante: Brás Cubas o vê chicoteando um escravo, que agora ele também tinha. Pensando nisso, Brás Cubas chega à conclusão de que aquele era um modo de Prudêncio se desfazer das pancadas recebidas, transmitindo-as a outro.

Entre esses e outros inúmeros exemplos, vemos, enfim, que temos em mãos um daqueles livros que deve-se ler várias vezes ao longo da vida; e por mais que se o leia, ele sempre terá algo a lhe dizer.

As negativas e a negativa das negativas

Ao fim e ao cabo, entretanto, no último capítulo, que é das negativas, diz o defunto autor que não realizou nada. Não alcançou a celebridade, não foi ministro de estado, não foi califa e não conheceu o casamento. Diz ainda que teve a sorte de não comer o pão com o suor do seu rosto. Uma vida inútil, irrelevante e vivida no macio, no gostoso. Como o leitor pudesse pensar que saiu, no fim, quite com a vida, ele diz que não; chegou do outro lado ainda com um pequeno saldo positivo, que é não ter tido filhos: “Não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

Mais uma mentira. Virgília ficou grávida, mas perdeu a criança durante a gestação. A verdade é que ele gerou às escondidas um filho com uma mulher casada, filho este que Deus levou antes que fosse tarde. Com um desfecho desse, portanto, temos apenas mais uma demonstração de como o autor mentiu o tempo todo. Jamais teve coragem de encarar objetivamente a realidade da sua vida, sempre se eximiu da responsabilidade moral. Fez mal a Virgília, fez mal a Prudêncio e fez mal a Dona Plácida. Foi um verdadeiro cretino. Com suas rabugens de pessimismo, na verdade, não passa ele de mais um reles e animalesco gnóstico.

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