Cartas de um diabo para seu Aprendiz- Parte II

Cartas de um diabo para seu Aprendiz- Parte II

A mera instrução em moralidade não é suficiente para fomentar as virtudes. O tiro pode mesmo sair pela culatra, principalmente se a palestra for intensamente exortativa, e a vontade dos alunos, coagida. Ao contrário, uma visão convincente de que o bem é algo bom em si mesmo precisa ser apresentada de uma forma atraente e que estimule a imaginação. Uma boa educação moral dirige-se tanto à dimensão cognitiva quanto à dimensão afetiva da natureza humana. As histórias são um instrumento insubstituível desse tipo de educação moral. Isso é a educação do caráter. (Os Contos de Fadas e o Despertar da Imaginação Moral – Blog Como Educar seus Filhos)

Lewis escolheu a figura do diabo como meio para, didaticamente, versar sobre o modo como este tenta, desestimula e perverte o caminho do cristão, especialmente, o do novo convertido. Foi uma decisão acertada, pois assim pôde atribuir ironia, perversidade, sarcasmo ao personagem Screwtape (maldanado), o que o torna atrativo o suficiente para conseguir que o leitor acompanhe seus ensinos infernais.

O escrito, contudo, soa não muito cativante para àqueles que não são cristãos, pois a ausência de entendimento sobre a natureza maligna do diabo pode tornar as cartas maçantes ou mesmo pitorescas demais, uma tentativa de humor mal estabelecido, o que não permitiria a este leitor compreender o que Lewis deseja ensinar sobre os obstáculos e desafios da vida cristã para o novo convertido diante dos desejos intrínsecos de sua humanidade e das artimanhas que o adversário espiritual lança para derrubá-lo.

Em tempos onde a mídia, tanto dirigida para adolescentes e jovens, como para adultos, usa a figura do diabo como um anti-herói carismático, (vemos isso na série Lúcifer e nos quadrinhos com o demônio Etrigan da DC Comics, por exemplo), Cartas de um diabo a seu aprendiz tende a ser desinteressante para não religiosos, indivíduos que não convergem com a perspectiva cristã sobre o demônio, sem vivência na fé através de alguma linha ortodoxa do cristianismo e que não possuem superstição.

A indústria do entretenimento tem levado o paganismo e mundo místico com bastante sucesso, como na série O Mundo Sombrio de Sabrina (Chilling Adventures of Sabrina), consequentemente, não há um temor e apreensão na mente deste público ao ler estórias mais obscuras,  o que também pode não o permitir apreciar as advertência pastorais que Lewis aborda, implicitamente, através das cartas de Maldanado. A grandiosidade da didática que há na obra que criticamos aqui repousa no temor que deve ter o leitor na figura do diabo.

Por isso Lewis agrada tanto cristãos de varias vertentes e denominações. O articulista Filipe Sérgio Koller, aponta: “C. S. Lewis é um dos pensadores cristãos mais admirados do século XX. O autor de As crônicas de Nárnia – obra literária com claro fundo cristão – foi também um grande divulgador da fé cristã, como apologeta e pregador, escrevendo obras memoráveis como Cristianismo puro e simples, Cartas de um diabo a seu aprendiz e O peso da glória. E, curiosamente, o pensamento desse anglicano que viveu entre 1898 e 1963 encontra ampla aceitação entre cristãos de diversas denominações – mesmo entre os grupos mais fechados ao ecumenismo.”

A grande especialista Gabriele Greggersen no mesmo artigo escrito por Koller, acrescenta: “Para Gabriele Greggersen, uma das maiores especialistas brasileiras na obra de Lewis e tradutora das novas edições de Cristianismo puro e simples, Cartas de um diabo a seu aprendiz e A abolição do homem lançadas neste ano pela editora Thomas Nelson Brasil, um dos principais motivos da popularidade de Lewis entre cristãos de diversas confissões é justamente a sua própria confissão. “Como anglicano, ele tinha uma visão voltada para o diálogo inter-religioso e para o ecumenismo, não levantando bandeiras, principalmente da sua própria igreja”, explica ela ao Sempre Família.”

A identificação, quando o leitor se reconhece na leitura que realiza através de/das personagens, narrador ou tema tratado, aqui, ocorre pelo que já mencionamos acima, tornando-a restrita a um tipo de leitor específico.

Edificação moral, uma das três funções históricas da arte literária segundo o crítico literário José Guilherme Merquior, nesta obra é bem trabalhada caso a moralidade cristã seja considerada pelo leitor como um norte moral bem vindo. O Divertimento, outra importante função, ganha espaço para quem abraçar a sutil ironia de Lewis.

Contudo, não duvidamos que sendo o demônio o fio condutor do livro possa o leitor apegar-se a primeira camada interpretativa da obra, a caracterização do personagem, e assim, desfrutar com bons risos das tentativas deste de ensinar o sobrinho, o jovem demônio, como corromper almas humanas. A moralidade cristã e as advertências pastorais demanda um a reflexão mais profunda para ser compreendidas.

Cabe aqui a brilhante análise da articulista Casey Cep ,redatora do The New Yorker : “Acho que seu apelo vem do sucesso de Lewis em escrever uma teodicéia do cotidiano. Ao contrário de Dante e Milton, ele evitou uma grande teologia do cosmos, concentrando-se nas tentações cotidianas do homem comum. Um romance epistolar, “The Screwtape Letters” apresenta um demônio sênior chamado Screwtape, escrevendo trinta e uma cartas de conselhos e encorajamento ao seu inexperiente sobrinho, Wormwood, que está tentando conquistar a alma de um jovem sem nome. “O paciente” é um homem normal que briga com a mãe, se apaixona e morre em um ataque aéreo durante a Segunda Guerra Mundial. (grifo nosso)

Bibliografia:
POUND, Ezra. ABC da Literatura. Editora Cultrix, 12 edição. São Paulo, 2014
OLIVEIRA, Eduardo. CARTAS DE UM DIABO A SEU APRENDIZ: O livro de C.S. Lewis dedicado a Tolkien. Disponível em: https://www.nanocell.org.br/cartas-de-um-diabo-a-seu-aprendiz-o-livro-de-c-s-lewis-dedicado-a-tolkien/ Acesso em: 10-05-2020
KOLLER, Felipe Sérgio.Por que C. S. Lewis é uma unanimidade entre evangélicos e católicos?. Disponível em: https://www.semprefamilia.com.br/cultura/por-que-c-s-lewis-e-uma-unanimidade-entre-evangelicos-e-catolicos/ . Acesso em 25-05-2020
CEP, Casey. The Devil You Know. Disponível em: https://www.newyorker.com/books/page-turner/the-devil-you-know Acesso em: 25-05-2020.
Os Contos de Fadas e o Despertar da Imaginação Moral. Disponível em: http://comoeducarseusfilhos.com.br/blog/os-contos-de-fadas-e-o-despertar-da-imaginacao-moral/. Acesso em: 14-06-2020
ERRATA: Na página onde havíamos encontrado o texto do senhor Eduardo Oliveira, seu nome constava como Eduardo Stark, embora estivesse bem evidente ser um pseudônimo (o sobrenome se refere ao personagem do primeiro livro de George R.R Martin), não havíamos descoberto o sobrenome verdadeiro. Tendo averiguado ser o brilhante autor o senhor Eduardo Oliveira , trazemos aqui essa errata.
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