Psicose: Hitchcock no Divã!

Psicose: Hitchcock no Divã!

Há 60 anos atrás, os espectadores nas salas de cinema eram surpreendidos com a icônica cena onde a protagonista Marion Crane vivida por Janet Leigh, enquanto tomava banho, era surpreendida por uma silhueta sinistra portando uma faca, enquanto a trilha sonora composta por violentos golpes em violino fazia o espectador encolher-se na poltrona, ao passo que a protagonista era esfaqueada e na metalinguagem utilizada na época por Hitchcock, o sangue da mulher escorria pelo ralo do banheiro.

Lançado em 16 de junho de 1960, Psicose foi um filme que marcou sua época e que até hoje é referência ao falar-se nas obras de Alfred Hitchcock. A trama narra a fuga de uma jovem, que após furtar uma soma em dinheiro de seu patrão, abriga-se em um hotel de beira de estrada chamado Bates Motel, onde é atendida pelo prestativo Norman Bates, ao passo que percebe que além de Norman, lá também existe sua rude e controladora mãe. O destino da jovem é selado de forma inesperada, com sua morte na primeira metade do filme. Onde o segundo ato é concentrado na investigação de um detetive particular enviado a mando dos familiares da falecida, e posteriormente pelos próprios familiares, que acabam por descobrir os restos mortais da Srª Bates e que o pacato Norman Bates em um transtorno psicótico que o levava a adquirir a personalidade de sua mãe e cometer atrocidades. O filme revolucionou o gênero de terror para sua época, onde os antagonistas geralmente eram inumanos, como os infames monstros vividos nas décadas anteriores por Béla Lugosi, inovando ao mostrar que os vilões podem também ser humanos, facínoras capazes das mais inimagináveis barbáries.

Como a personagem do mundo real que inspirou a construção de personagem de Norman Bates, o assassino em série norte americano chamado Edward Theodore Gein, ou Ed Gein, que assassinava e violava cadáveres entre as décadas de 40 e 50. Gein era obcecado por sua falecida mãe e por isso escolhia as vítimas com biótipo e características semelhante as da genitora, bem como se travestia como ela, além de ter desmembrado suas vítimas e feito peças de roupas e artesanatos para sua casa com os restos mortais de suas vítimas, fato este que inspirou a produção de outro filme de baixo orçamento lançado em 1974, chamado The Texas Chain Saw Massacre, traduzido parcamente para o Brasil como O Massacre da Serra Elétrica.

Entretanto, em contraposto ao slasher de 74 com personagens e roteiros rasos, Psicose mergulhou profundamente nos conceitos psicanalíticos, onde Hitchcock produziu fielmente o distúrbio dissociativo de Norman Bates que somado ao Complexo de Édipo, faz com que o personagem oscile entre o cordial gerente de hotel para a personalidade violenta ao travestir-se como sua genitora.

Muito além das características vividas pelo personagem que variavam de acordo com a situação, existe subliminarmente outros fragmentos da teoria freudiana ao analisar-se o cenário dos assassinatos, onde no layout do cenário é possível identificar os três arquétipos descritos na teoria psicanalítica, o id, ego e superego. Segundo a teoria, Id é o lugar reservado às fantasias, onde não existem limites ou imposições sociais, sendo desta forma, completamente compatível com o porão do prédio, onde Norman esconde os restos mortais de sua mãe. O segundo arquétipo é o Ego, que é personificado pela imagem no qual cada um necessita transmitir para os outros, através do controle das vontades e impulsos em prol da autoimagem, podendo desta forma ser representado pelo piso térreo do hotel, onde o prestativo e cordial Norman Bates recepciona seus hóspedes, e por isso controla racionalmente seus impulsos homicidas. Por fim, o arquétipo do Superego, que é onde se encontram os mais severos e rígidos valores morais e censuras, podendo ser claramente representado pelo andar superior do prédio, onde Norman encarnado e travestido em sua severa matriarca, faz justiça com suas próprias mãos contra a ladra fugitiva que se banha no hotel enquanto uma sombra ergue uma faca para lhe assassinar aos sons agudos de violino ensurdecedores.

Em síntese, psicose é um filme que revolucionou o conceito de terror, extrapolando o paradigma do cinema de horror, onde as ameaças não eram humanas, para mostrar que Thomas Hobbes estava certo ao afirmar que “o homem é lobo do homem”, bem como apresentando ao público uma história com várias camadas e profundidade psicológica dos personagens, que nos faz pensar: qual a verdadeira natureza das pessoas ao nosso redor?

Referência Bibliográfica:

 – BLOCH, Robert. Psicose – Limited Edition: Hospede-se no Motel Bates.  Darkside. 2013.

– CALLIGARIS, Contardo. Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Zagodoni. 2013.

– FREUD, Sigmund. Neurose, Psicose, Perversão. Autêntica, 2016.

– PLANES. José A. Regreso al Motel Bates: Um estúdio monográfico de Psicosis. Mensajero. 2013.

– SAFOUAN, Moustapha. Psicose: uma leitura psicanalítica. Editora Escuta. 1991.

Créditos da Imagem:

Extraída da edição especial comemorativa do filme Psicose, em DVD, lançada em 2015 pela Home Vídeo, na seção Extras.

Print Friendly, PDF & Email