Quincas Borba, de Machado de Assis – Uma Análise Literária

Quincas Borba, de Machado de Assis – Uma Análise Literária

Abundam em nossas Universidades trabalhos que fazem uma leitura marxista, schopenhauriana ou existencialista de Machado de Assis. Nada mais diminutivo de Machado do que isso. Antes vissem seus romances como puros romances, sem lição filosófica.

Meu intuito não é falar de Machado de Assis como um todo, apenas de Quincas Borba, o romance, não o personagem. Ocorre que não é possível falar de nada em Machado de Assis que não diga algo sobre Machado como um todo.

Por isso, terei de explicar por que nada pode ser mais apequenador de Machado de Assis do que dele fazer uma leitura marxista, schopenhauriana ou existencialista. Quanto ao como farei isso, a melhor maneira é fazer a leitura mais genuína e sincera possível de Quincas Borba, sem perder tempo com a empulhação intelectual.

O Absurdo

Antes de tudo, convido você a uma reflexão. Pense comigo se você tem ou não experiência de algo que podemos chamar “absurdo”. Isso é importante para todo aquele que quer pensar filosoficamente sobre pessimismo ou otimismo.

É praxe intelectual comum entre estudiosos da filosofia tratar as experiências como puros conceitos, tentando extrair deles sistemas fechados de mundo. Chegam até a “filiar-se” a uma ou outra dessas imaginárias escolas filosóficas, e acham o máximo posar como um legítimo representante do niilismo, do existencialismo ou do ismo que preferir.

O que falta, entretanto, é o material de experiência humana suficiente para poderem fazer uma reflexão séria, e não ficar apenas no nível da pachorrice juvenil do que quer parecer culto e descolado. Ora, esse material pode muito bem ser adquirido através da literatura, e no tocante ao que chamamos de “absurdo”, Machado de Assis é uma ótima pedida.

Caso surja a dúvida, já adianto que é do mesmo tipo de absurdo de que fala Albert Camus que vamos encontrar em Machado, porém com uma tônica diferente. Machado é anterior a Camus e sua inteligência não tinha sido tomada pela sentimento de náusea e desespero que é a nota marcante dos existencialistas do século XX.

Albert Camus

Mas vamos falar da experiência humana culturalmente elaborada. Vamos falar de como ler e do que procurar em Machado de Assis, e da razão de Quincas Borba ser tão importante para a literatura brasileira.

O filósofo

No artigo anterior já apareceu Quincas Borba. Porém deixamos para falar dele e de sua filosofia neste artigo. A filosofia de Quincas Borba, o Humanitismo, é tão importante como chave de leitura das Memórias Póstumas de Brás Cubas, que mereceu de Machado um desenvolvimento em livro próprio em forma de continuação daquele romance. Eis o que é Quincas Borba.

O filósofo que foi amigo de Brás Cubas observou no mundo a realidade da tragédia. Daí, resolveu abdicar de toda e qualquer metafísica que pretendesse erigir como formas explicativas noções transcendentais como Bem ou Justiça.

No lugar desses transcendentais, Quincas Borba imanentiza o princípio explicativo, e coloca como princípio de explicação uma lei da satisfação dos apetites, que acaba sendo um tipo de lei do mais forte.

Ao vencedor, as batatas!

Quincas Borba afirma que não há mal no mundo; que ele é uma ilusão da nossa mentalidade fraca. A fome, a peste, a dor, a guerra, a opressão não são senão manifestações necessárias de um mesmo princípio, chamado Humanitas. Quincas Borba explica a necessidade da tragédia pelo exemplo do campo de batatas:

 Imagina um modesto campo de batatas, ele diz, e duas tribos famintas. Do outro lado de uma grande colina, um campo tremendo, onde há batatas em abundância. Se as tribos repartirem pacificamente as batatas entre si, não se nutrirão suficientemente e não terão energia pra transpôr a colina, o que fará com que todos morram de inanição. Nesse caso, a paz é a destruição. Agora, se as tribos guerrearem, uma aniquilará a outra, podendo comer as batatas e atravessar a colina. Nesse caso, a guerra é a conservação. “Ao vencido, ódio ou compaixão. Ao vencedor, as batatas!”

Mais um exemplo, para que fique bem claro: Sabe como morreu a avó de Quincas Borba?

Não há morte no Humanitismo

Bem, ela estava andando numa rua, quando um cavalo foi fustigado pelo chicote, saiu espaventado fazendo com que os outros cavalos que estavam junto com ele amarrados a uma carruagem saíssem também. A boa velhinha, que não pode se esquivar, foi terrivelmente atropelada pela carruagem. Nada se pode fazer, sangrou e morreu. 

Agora veja bem – dirá Quincas Borba – no Humanitismo não há morte. O dono da carruagem estava com fome. Acenou para o cocheiro para que o levasse em casa o quanto antes. O que é isso? Humanitas precisa comer! Havia um obstáculo no caminho, que era a avó de Quincas Borba. Humanitas apenas atravessou o seu obstáculo.

Imagine uma chaleira de água fervendo. As bolhas aparecem e desaparecem, em constante ebulição. Você não vai perguntar a opinião da bolha, que surge e logo some. Assim é também Humanitas, um princípio único, onde a vó de Quinas Borba era apenas uma bolha, que deveria, inclusive, ficar orgulhosa de morrer para que Humanitas se satisfizesse.

Essa é a filosofia de Quincas Borba, que no fundo é uma sátira de certas filosofias da época. Uma sátira, vocês sabem, pretende mostrar o que determinada coisa tem de ridículo. E o Humanitismo cumpre a tarefa muito bem.

Agora, o que é mais importante é perceber que o Humanitismo não é somente a filosofia do Quincas Borba. É a explicação para o comportamento de todos os personagens dos romances.

Humanitas é o princípio…

Brás Cubas viveu a vida procurando satisfazer sua vontade, já vimos no outro artigo. Os personagens do segundo romance fazem a mesma coisa. Analisemos:

Rubião é apaixonado pela Sofia, mulher do Cristiano Palha. Vai sutilmente tentando se aproximar dela para lhe sugerir o adultério. O Palha é seu amigo, fato que não lhe causa nem um tipo de escrúpulo. Este, por sua vez, sabe que Rubião é apaixonado por sua mulher, pois Sofia mesma contou; Diante disso ele não fica ultrajado, e sim aproveita para tirar dinheiro do Rubião – como Rubião recebeu a herança do Quincas Borba, ele ficou muito rico.

Assim, o Palha aproxima-se dele, usando conscientemente a mulher, para firmar uma amizade e emprestar dinheiro, montando uma sociedade. Depois, quando o Rubião começa a ficar maluco, ele, Palha, apenas conta mais uma mentira a Rubião e simplesmente remove-o dos negócios, deixando claro ao leitor que a amizade nunca foi verdadeira.

Apenas uma personagem foge um pouco da regra: é a Dona Fernanda, que tem uma espécie de “simpatia universal”, nas palavras de Machado. Ela sim demonstra uma espécie de amor ao próximo, quer ver todos felizes, tem compaixão etc. Mas regra geral, a lei que rege o mundo é o princípio do humanitismo, a satisfação dos apetites, mesmo que isso prejudique alguém.

Que é o homem e por que tamanho desconcerto?

É isso que Machado de Assis está tentando mostrar, que a maioria dos indivíduos rege-se por essa lei, e pronto. Não há muito o que fazer.

Eis em que consiste o seu pessimismo: Na constatação de que há uma ânsia de paixões insaciável no ser humano que o torna muitas vezes mal. E o pior, é que essa ânsia nunca pode ser satisfeita.

O ser humano está condenado a arder, arder, arder sem nunca ficar satisfeito. Notamos assim, através do gênio de representação de Machado, que o homem tem sede do infinito, tem desejo de eternidade, de uma plenitude irrealizável neste mundo cheio de mazelas.

José Veríssimo – que é um crítico do tempo em que existiam críticos no Brasil – diz algo fantástico a esse respeito. Ele diz que desse tema, que é a repetição do algumas vezes milenar tema da vaidade das vaidades, do Eclesiates, que tudo é vaidade e correr atrás de vento, o tema do engano da vida, que aparece tantas vezes na tradição da alta cultura ocidental, Machado de Assis faz a transposição para o meio brasileiro, incorporando, por assim dizer, esse tema universal da desilusão da vida no nosso pensamento, ajustando ele às nossas feições e ao nosso meio, dando uma expressão pessoal e revelando novas faces desse elemento que está lá no topo da alta cultura.

Gustavo Corção

O grande Gustavo Corção, naquela obra magnífica que se chama “O Desconcerto do Mundo”, diz algo incrível. Ele diz que as pessoas com pouco discernimento, que dão o mesmo nome a todos os pessimismos, dirão que Machado de Assis é um cético ou destruidor, como poderiam dizer o mesmo de um Camões, mas que, na verdade, Machado de Assis repete as palavras bíblicas do Eclesiastes de Cóelet, e que o seu pessimismo não é do tipo perverso, negativo, como o de Jean-Paul Sarte, que é uma verdadeira apologia do mal, mas que é um pessimismo estimulante e que conduz a Deus.

Gustavo Corção

Bem, depois do que disse José Veríssimo e Gustavo Corção, fica difícil acrescentarmos algo, não? Por isso que eu recomendo muito a leitura da boa crítica literária! Os grandes analistas da literatura iluminam a nossa leitura dos clássicos de uma maneira espetacular.

Eu já ia terminando, mas tenho mais uma coisa a dizer. Há um conto de Machado de Assis que é muito pitoresco! Chama A Igreja do Diabo. Leiam esse conto, é curtinho, e vocês verão que a Igreja do Diabo é a realização perfeita da filosofia de Quincas Borba… Isso é muito significativo. O Diabo tem a ideia de pegar cada virtude humana e transformá-la em vício, principalmente através do orgulho e da vaidade. O resultado é uma religião da satisfação incondicional dos apetites do homem.

Bem, essa é exatamente a filosofia do Quincas Borba, que mereceu uma súmula neste romance desconcertante que analisamos neste artigo.

Para fechar com chave de ouro, cito novamente o grande José Veríssimo, para que o leitor ouça da pena deste mestre da crítica qual vem a ser a importância de ler Machado de Assis:

Ninguém jamais contou com tão leve graça, tão fino espírito, tamanha naturalidade, tão fértil e graciosa imaginação, psicologia tão arguta, maneira tão interessante e expressão tão cabal, historietas, casos, anedoas de pura fantasia ou de perfeita verossimilhança, tudo recoberto e realçado de emoção muito particular, que varia entre amarga e prazenteira, mas infalivelmente discreta.
Histórias de amor, estados d’alma, rasgos de costumes, tipos, ficções da história ou da vida, casos de consciência, caracteres, gente e hábitos de toda casta, feições do nosso viver, nossos mais íntimos sentimentos e mais peculiares idiossincrasias, acha-se tudo superior e excelentemente representado, por um milagre de transposição artística, nos seus contos. E sem vestígio de esforço, naturalmente, num estilo maravilhoso de vernaculidade, de precisão, de elegância.

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