Um pouco entre Escotismo e Bushcraft

Um pouco entre Escotismo e Bushcraft

O histórico do primeiro e dicas simples do segundo em situações específicas.

Robert Stephenson Smith Baden-Powell nasceu em 22 de fevereiro de 1857, desde criança acompanhava os irmãos mais velhos dele em explorações ao ar livre, gostava muito de esportes (futebol, natação, remo, pólo, caça de javalis, cricket), era brincalhão, travesso e amigável, assim como um talentoso ator (sonho dele) de teatro, cantor e pianista. Aos 11 anos, ele conheceu a escola, sendo apenas aluno no máximo mediano; apesar disso, ele já sabia ler, escrever e pintar.

Ele era aquarelista, cartunista, desenhista (de borboletas!) e excelente escritor; porém, a vida de Baden-Powell é direcionada para outro setor não cultural ou educacional, quando reprovou no ingresso às Universidades de Oxford e de Christ Church e foi aprovado para o exame de oficial do Exército Britânico, ficando em 5° lugar de 718 candidatos. Em 1876, aos 19 anos, o subtenente Baden-Powell embarca para a Índia, onde cumpre diversas missões, registrando a cultura daquele lugar, entre símbolos e elementos, que no futuro serão parte do Escotismo.

Entre 1899 e 1902, na guerra entre os Impérios Britânico e Holandês, no Zimbábue, Baden-Powell escreveu um diário de instrução chamado Aids to Scouting, ou “Auxílio ao Escotismo”. Um compilado muito útil aos militares e civis (Boys Brigade).  Até ele ser enviado à Natal, na África do Sul, em 1884, muito tempo depois, após receber diversos títulos honoríficos e condecorações durante a trajetória de sucesso. E, nesta região, Coronel Baden-Powell (ou B-P popularmente conhecido) lidera hum mil homens contra seis mil, em uma situação quando o povo Bôers sitiou a aldeia Mafeking, na África do Sul, durante 217 dias; salvando aquele povoamento através das técnicas militares dos sentinelas e mensageiros, treinando cadetes e a polícia sul-africana com trabalhos de equipe.

Até a chegada oficial dos ingleses na localidade e Baden-Powell aclamado como herói de guerra, dessa forma, ele foi condecorado a General pela Rainha da Inglaterra, agora chamado de Lord Baden-Powell of Gilwell, o mais jovem inglês na patente com 43 anos de idade. Em 1903, B-P chegou a ser chefe de cavalaria na Inglaterra, pouco tempo antes de sua volta ao setor cultural, lançando seus escritos e conhecimentos militares em uma área que iria oficializar as técnicas militares no ambiente mais civil. Ele se tornou um renomado escritor a partir de seus registros e reflexões militares.

Baden-Powell estudou e estruturou os costumes indígenas de distintas culturas no mundo por onde foi, sofrendo influência também do livro The Birch Bark Roll (ou “O Rolo de Casca da Bétula”), que foi feito por Ernest Thompson Seton, em 1906. Na época, Ernest Seton era contra o militarismo dentro do Escotismo Americano, ele ficou entre 1910 e 1915 sendo Chefe Escoteiro americano e após o despertar da Primeira Guerra Mundial, Ernest desistiu do cargo e acusou Baden-Powell de ter roubado suas ideias.

Lorde Baden-Powell em 1907 foi o pai do Escoteirismo (ou Escotismo) a partir de um movimento cultural cívico-militar na Inglaterra. Esse evento foi um programa educacional extracurricular de escolas para jovens com idade entre 7 e 21 anos. O objetivo principal dele é servir a Deus, à Pátria, ao Rei (porque a Inglaterra era uma monarquia como é hoje) à comunidade local (cidadãos), aos pais, respeito aos superiores e subordinados, porque a formação de escoteiro fomenta a mentalidade (limpa nos pensamentos, ações e palavras) de liderança imprescindível à vida social comum.

Baden compilou, comprovou a veracidade dos trabalhos dele e se tornou um renomado escritor em 1908, através do livro Escotismo para Rapazes (Scouting for Boys); após um experimento com 22 jovens com idades entre 12 a 16 anos, em uma ilha britânica chamada Brownsea, durante 8 dias. Aqui neste evento, os jovens aprenderam jogos escoteiros, atividades esportivas, cantos, trocam experiências de técnicas da vida ao ar livre (algo semelhante ao Bushcraft atualmente) e com entusiasmo ajudar a comunidade local. Oficialmente nascendo o Movimento Escoteiro.

O Rei Eduardo VII, em 1907, condecora Lord Baden-Powell com a insígnia Order of the Bath, estimulando-o a dedicar-se ao Escotismo; por conseguinte, em 1910, B-P se coloca em reserva do Exército Inglês.  Baden-Powell, agora já popular e com influência cultural, ele percebeu que havia um enorme problema de risco social na população do país em que nasceu. E através de escritos em jornais dos quiosques ingleses, B-P educa os jovens e orienta-os para uma vida melhor através do Escotismo.

Só no ano de 1908, cinquenta mil jovens aderiram ao Escotismo. Cinco anos depois já ocorria o Primeiro Encontro Internacional de Escoteiros em Birmingham, Inglaterra. Em 1919, convoca os jovens escoteiros em prol da paz através do livro Guia do Chefe Escoteiro. Em Londres, um ano depois, oito mil jovens de trinta e quatro países proclamaram Lord Baden-Powell Chefe Escoteiro Mundial, título eternamente mantido em homenagem póstuma.

A partir do experimento com os jovens, o Escotismo foi oficializado através das práticas e saberes, buscando a formação das características do Líder Servil e fá-lo promover seguidores (educandos) mais saudáveis, fortes, viris, livres, autônomos e sábios, ao ponto de cada um se tornar um novo Líder Servil (mestre de si). Dessa forma, o líder do escotismo se torna docente e os professores de escotismo promovem formação de equipes, projetos comunitários e uma vida ao ar livre (técnicas de sobrevivência).

Inicialmente, os escritos de Aids to Scouting tornaram-se um manual para soldados melhorarem suas perícias deles em situações extremas, como liderança em momentos de risco de morte, furtividade, rastreio e sobrevivência em ambiente selvagem. Desde então até a atualidade, o Escotismo progrediu a método pedagógico caracterizado para conservar o amor à Pátria, as noções civis de cavalheirismo, Bushcraft (e Sobrevivencialismo no geral),  incluindo neste último, inicialmente, técnica de salvamento (terra e mar).

Poder-se-á adaptar algumas dessas metodologias criadas em região temperada da Inglaterra por B-P em Arte do Mato (Bushcraft), especialmente, para um ambiente tropical brasileiro. Fazer cordas, cabanas, abrigos, redes, fogueiras, cozer, costurar roupas, criar artesanatos e pescas ou caçar, entre outras ações tornam-se essenciais a sobreviver. Portanto, logo em seguida, caro leitor, você irá aprender um pouco sobre Bushcraft dentro do território brasileiro, especificamente, fauna e flora para Mata Atlântica e Caatinga no Nordeste. A arte de sobreviver é o rastreio de recursos em uma área para suprir o indivíduo nas mais básicas necessidades dele e para isso deve-se saber primeiro sobre fauna e flora (depende da estação do ano) regionais.

Na flora, a regra do vegetal CAL (Cabeludo, Amargo, Leitoso) não consumível, exceto, sapoti e mamão. Sempre evite comer cogumelos. Pode-se obter água (miolo de Mandacaru e Xique-xique), fazer abrigo (Mandacaru e Facheiro), nutrir-se (o miolo de Xique-xique, Umbuzeiro e Macambira), fazer itens e fogo (Facheiro). Das cascas e raízes, pode-se curar, por exemplo, cajueiro (cicatrizes), jurema preta (lavar ferimentos) e sucupira (mordida de cobra). O Bambu sempre será a árvore mais versátil que você encontrará no ambiente. A resina de jatobá e a taquara de bambu servem para fazer fogo.  Em área aberta, geralmente, as partes mais úmidas de troncos de árvores (e pedras) são voltados ao sul geográfico.

Na fauna,  a maioria das abelhas nativas são sem ferrão (gênero Melipona), no ninho delas você pode encontrar potes com água, sal, vitaminas e proteínas que elas mesmas armazenam em forma de mel aquoso. Ou ainda para saber caçar, também deve-se saber a trilha, local e horário (recomendável entre 4 e 6 e 18 e 21 horas) por comportamento animal (diurno, noturno, alimentação, nidação e rastro) e sempre esteja contra o vento para a presa não te perceber, a armadilha (exemplo: tarranga ou arapuca) deve estar camuflada na trilha do animal, e esteja sempre em silêncio absoluto. Na pesca, a armadilha curral é muito boa; as vísceras só são usadas para isca, o resto é comestível e sempre cozer no peixe; enquanto que os melhores peixes estão apenas a 5 metros de profundidade (não projete luz ou sombra diretamente na água), em rios de terreno argiloso com temperatura entre 25°C e 30°C.

Este é o terceiro artigo da Série Sobrevivencialismo, sendo que o próximo será o penúltimo: Sobrevivencialismo Moderno.

Referências Bibliográficas:
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Manuel Castells, (1994) em palestra proferida no Congresso Internacional “Novas Perspectivas Críticas em Educação”, organizado pelo Departamento de Ciências da Educação da Universidade de Barcelona.
Martins, Carlos B. (1982) O que é sociologia, Editora Brasiliense, Coleção primeiros passos n° 57, São Paulo, Brasil, p. 60.
Nagy, Laszlo, (1985) 250 Milhões de Escoteiros, Edicions Pierre, Marcel Favre Public S/A, Genebra, Suíça, Edição brasileira União dos Escoteiros do Brasil, p.13, p. 51, p. 54, p. 68-69, p. 83, p. 114-115, p.
Powell B, (1908) Escotismo para rapazes, Edição Fraternidade Mundial, Editora Escoteira da União dos Escoteiros do Brasil, Ed. 1986, p. 24 – 26, p. 367.
Princípios, Organizações e Regras (2008), União dos Escoteiros do Brasil, 9ª
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RABELO, Ricardo Rocha. Uma vez escoteiro, sempre escoteiro: Marcas da educação escoteira em Sergipe (1958 – 2009)/; Raylane Andreza Dias Navarro Barreto (a). 135 P. IL. Inclui bibliografia. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Tiradentes, Ano. 1. História da Educação. 2. Impressos. 3. República. I. Nome do Orientador (orient.). II. Universidade Tiradentes. III. Título. CDU: 543.555 665.6

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