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Crônicas

Coronel Drigo: Uma história de muito amor, coragem e salvamentos

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História que nasce de São Caetano do Sul para o mundo

Aos 16 de novembro de 1972, no Hospital Nossa Senhora de Fátima – Beneficência Portuguesa de São Caetano, nascia Eduardo Drigo da Silva, que passaria a ser mais conhecido como Coronel Drigo. Esta é sua história.

Certamente era um dia bastante corrido e cheio de emoções para o casal, o Cabo PM Silva Filho (José Antônio da Silva Filho), e Neuza Maria Drigo da Silva.

INFÂNCIA

Os avós paternos, José Olímpio da Silva e Júlia Vicenza da Silva, e, maternos, Isidoro Drigo e Nair Lombarde Drigo, surgem como referência de privilégio para maioria das pessoas de nosso século, quando muitos sequer conheceram um avô.

E, não parou aí! Drigo também teve a alegria de conhecer sua querida “bisa”, dona Amabile Maria Tonese, mãe de dona Nair.

Como existem vários “Drigos” importantes nesta linda história, vamos chamar cada integrante pelo prenome, ou nome completo, deixando a forma reduzida, Drigo, para o Coronel Eduardo Drigo da Silva, personagem principal desta crônica.

Depois de Drigo, vieram seus dois irmãos: Emerson Drigo da Silva e Evandro Drigo da Silva.

Emerson, advogado, cursou o Colégio Naval da Marinha do Brasil e Faculdade de Direito – Largo Francisco. Dedicou-se ao Direito Empresarial, área na qual se tornou mestre.

Em seguida, para formar o trio com “E”, surge o caçula, Evandro, que se tornou físico e pesquisador acadêmico, na área de desenvolvimento de equipamentos médicos; cursou a Escola Técnica Federal, e a Universidade de São Paulo – USP, onde se formou até o mestrado, concluindo como doutor pela UNESP.

Drigo é casado, desde 2003, com Simone da Silva Drigo. Têm duas filhas, Lívia da Silva Drigo, de quinze anos, e Amanda da Silva Drigo, de onze.

A linha de tempo é a seguinte: Trinta e um anos em serviço ativo como Oficial da Polícia Militar do Estado de São Paulo; desses, vinte e quatro anos no Corpo de Bombeiros, sendo cerca de duas décadas na região do Grande ABC – Metrópole de São Paulo – SP.

Foi na região metropolitana paulista que Drigo evoluiu para as hierarquias de Primeiro Tenente, Capitão, Major e Tenente-Coronel, servindo em São Paulo durante alguns períodos entre as promoções.

Até aproximadamente oito anos de idade, Drigo morava em uma casa de três cômodos, quarto, cozinha e banheiro, nos fundos do quintal da casa dos avós maternos, Isidoro e Nair.

Por ser o primeiro neto, logicamente foi bastante mimado (mesmo no contexto daquela época simples) e muito feliz. Adorava passar o tempo com o avô, Isidoro, ouvindo jogos do Palmeiras no radinho de pilha, ou as histórias de suas viagens; da época em que ele era caminhoneiro e trabalhava na vinícola Castelo, que tinha sua sede no Rio Grande do Sul.

Do outro lado da rua ficava a casa da bisavó Amabile Maria Tonese. Lá havia dois pequenos canteiros de rosas no quintal da frente e uma pequena capela com Nossa Senhora ao lado da porta da cozinha. A “vó Mábile” (como pronunciavam o nome da “bisa”) foi uma das pessoas mais corajosas e aguerridas que Drigo já conheceu. Sua memória é tanta sobre ela que se lembra de sua partida, ainda lúcida aos 97 anos de idade, após uma vida de muita luta.

Drigo também se recorda da “Vó Mábile” – a bisa – lhe contando histórias da época em que ela chegou do interior, após ter ficado viúva aos vinte e seis anos de idade, com seis filhos, dos quais, dois homens e quatro mulheres, que criou sozinha. Vó Mábile não voltou a se casar, e trabalhou como cozinheira e costureira.

Claro, dentre as “histórias da Vó Mábile”, também tinham aquelas de outro tempo, em que as ruas eram de terra e o “Seu Samuel Klein” – conhecido como Baía, por homenagear os nordestinos que vinham de terras quentes, trabalhar no frio do ABC -, o visionário que passava pelas ruas vendendo cobertores e outros produtos em uma carroça puxada a cavalo.

O menino Drigo se encantava com o jeito duplo, amoroso e bravo, de Dona Amabile.

Aos oito anos, Drigo e a família se mudaram para casa que o pai havia comprado na vila Califórnia, divisa entre São Paulo e São Caetano do Sul. Distava a poucos quarteirões da casa dos avós maternos, Isidoro e Nair.

Para a família, a casa antiga, que aos poucos foi reformada, era um verdadeiro palácio. Tinha dois quartos, cozinha, sala, banheiro, uma edícula e um amplo quintal. Ficava numa rua sem saída, na qual Drigo e os irmãos podiam brincar, andar de bicicleta, jogar bola e até soltar pipa: um luxo!

Muito esforçado, seu papai, Cabo PM Silva Filho (José Antônio da Silva Filho), além de trabalhar na PM, “fazia bico” nas folgas, como taxista em São Caetano, e como segurança privado no pavilhão de exposição do Anhembi. Isso lhe custou algumas ausências em aniversários e natais.

Drigo morou nessa residência até se casar, apesar de ter se ausentado aos dezesseis anos para seguir a carreira militar. O já bravo guerreiro da vida retorna aos vinte e um como Aspirante a Oficial.

Seu pré-primário (terminologia da época) foi feito na atual EMEI Luiz José Giorgetti, bairro Fundação, São Caetano do Sul, curiosamente mesmo bairro em que reside hoje.

O ensino “Primário” (da primeira até oitava série) foi feito na EEPG (Escola Estadual de Primeiro Grau) João Firmino de Campos. Apesar de ser bem perto, bastando atravessar o Rio Tamanduateí, a escola pertencia ao município de São Paulo, por ser na Vila Califórnia (em mapas atuais, Vila Alpina, no Distrito de Vila Prudente).

Essa época também marcou a memória. Foi lá que o menino Drigo aprendeu amar a História, pelas mãos da querida professora Dona Anna Figueira. Ali nasceram grandes amizades, com quem se relaciona até hoje.

Outra realidade, incomparável daquela época, era o fato de que, aos doze ou treze anos de idade, esses meninos frequentavam muito as casas uns dos outros, sempre andando a pé, e com aquela deliciosa sensação de muita segurança, ainda que fossem bairros tão diferentes, como Vila Califórnia, Vila Alpina e Vila Prudente, em São Paulo, e, obviamente, toda a cidade de São Caetano do Sul.

Apesar de humilde, Drigo enfatiza que sua infância foi muito feliz. Era notável a presença efetiva de sua mãe, amiga de primeira hora, sempre acompanhando e incentivando. Ela garantia a percepção de que poderiam chegar onde quisessem na vida, sempre deixando muito claro que a única herança que ela e o pai poderiam deixar seria o estudo. Obviamente, essa “marca registrada” foi levada muito a sério por Drigo e seus irmãos.

Os momentos em que o pai podia estar junto à família tornou-se registro marcante e intenso. Mesmo fisicamente cansado, levava os meninos para andar de bicicleta na “pracinha” Mario Bulcão (Praça Prof. Mario Bulcão – Vila Califórnia – São Paulo). Como que em forte desejo de compensar os momentos ausentes, o papai se dedicava de corpo e alma, priorizando a família em todos os aspectos. Quanto à pracinha, lamentavelmente tornou-se espaço bastante degradado.

Esse exemplo paterno, de trabalhar com afinco, porém, priorizar a família, tornou-se essencial para Drigo, cujas marcas o acompanharam por toda carreira militar posterior, principalmente nos episódios em que precisou fazer algum juízo de valor sobre a conduta de subordinados.

ADOLESCÊNCIA E JUVENTUDE

Desde que se conhece por gente, sempre manifestou o desejo de ser militar (coisa de vocação mesmo), para desespero da mãe e, possivelmente, do próprio pai: pois, por sua experiência na Corporação, era quase impossível o filho de um soldado chegar a ser oficial.

Drigo atribui a Deus a realização desse sonho, em 1989, quando, após uma árdua fase de preparo no “cursinho” General Telles Pires, e um concorrido concurso (aos 15 anos de idade), foi admitido ao Ensino Médio, conhecido como Curso Preparatório.

Apesar de enormes desafios, Drigo consegue ingressar no Curso de Formação de Oficiais, em uma das mais respeitadas instituições de ensino militar do país: a Academia de Polícia Militar do Barro Branco – APMBB, Escola de Oficiais da PMESP. A academia leva esse nome por ter sido fundada na antiga invernada do Barro Branco, pertencente à Força Pública, Zona Norte de São Paulo, no Distrito do Tucuruvi.

Apesar de sair tão novo de casa (a academia era em regime de semi-internato), e do choque inicial com a realidade da Caserna, hoje Drigo enxerga que lhe foi uma das melhores passagens de sua história.

Conforme consta da História do Estado de São Paulo, com a eclosão da Revolução Constitucionalista em 1932, o então CIM – Centro de Instrução Militar (atualmente APMBB) foi totalmente deslocado para frente de batalha atuando em todas as frentes. Como resultado das batalhas houve o falecimento do cadete Ruytemberg Rocha, então aluno do 2º ano do Curso de Formação de Oficiais. Como resultado desse fato o jovem guerreiro se tornou símbolo dos valores de um cadete da APMBB, existindo, hoje em dia, um núcleo de preservação da história da revolução que carrega seu nome, além de uma condecoração militar em sua honra.

Para Drigo, a mudança de vida foi radical. A primeira quinzena era chamada de “período de adaptação”. Esse já foi divisor de águas, fazendo com que a rigidez da caserna, pautada por ordens bradadas aos gritos e as intensas atividades físicas, fizessem alguns companheiros desistir.

Foram dias de muitas novidades. Receberam o uniforme, ou quase isso. O “bichoforme” era constituído por calça jeans, camiseta branca, coturno, e um crachá com o sobrenome: o famoso nome de guerra – DRIGO.

Distribuíram os rapazes em pelotões de aproximadamente trinta cadetes cada. Receberam um armário e uma cama, no alojamento.

Passaram a conhecer as dependências da Academia. Certamente eram as maiores edificações que a maioria desses meninos havia conhecido na vida. O complexo contava com salas de aula, o sagrado Pátio Interno, onde o jovem Drigo aprendeu marchar e laurear os Símbolos Nacionais, do Estado, e da Gloriosa Força Pública. Também havia o Destacamento de Cavalaria, onde aqueles meninos (crescidos) aprenderam dominar o medo, muito mais do que apenas a montar. Os olhos saltavam para os equipamentos esportivos, que incluíam piscina, ginásio, campo, pista de aplicação e quadras.

Impossível esquecer da imensa invernada do Barro Branco, onde as manobras de maneabilidade contribuem para forjar o caráter dos alunos. O garoto Eduardo passa a ser o Cadete Drigo!

Sem dúvida, foi uma adolescência muito diferente da maioria dos antigos colegas, pautada numa rotina de estudos, em período integral, permeada por preparação física intensa, rotina militar, serviços de guarda do quartel, e estágios operacionais na atividade de policiamento ostensivo.

Tamanha rigidez era compensada pelos laços de amizade que se formavam e pela oportunidade de, nas férias, viajar praticamente o país inteiro, frequentar festas badaladas e requintados bailes de debutantes. Nessas ocasiões, surgiram muitos namoros, conhecimento de novas realidades sociais e diversão natural de rapazes, em franca construção do próprio futuro, caráter e história pessoal de cada um.

O JOVEM ADULTO

Aos vinte e um anos de idade, em 15 de dezembro de 1993, Drigo é declarado Aspirante a Oficial, recebendo, durante formatura, a tão almejada Espada Oficial, no Sagrado Pátio Interno. Receber o maior símbolo do oficialato e deixarem seus espadins representa aos cadetes: a virtude, a bravura e o poder da luta e da justiça. O evento é impactante e inesquecível, com presença do Governador e incontáveis autoridades do Estado de São Paulo.

Drigo é destacado para servir no Sexto Batalhão de Polícia Militar, em São Bernardo do Campo, e classificado na Companhia de São Caetano do Sul.

Nesse mesmo ano, 1993, o não mais menino, mas, jovem adulto, ingressa nas cadeiras jurídicas, na histórica Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo.

Após cinco anos de academia militar, o curso superior parecia um verdadeiro oásis, pois além da aquisição do conhecimento jurídico, houve um convívio social bastante intenso, dado a todos os fatores favoráveis: era jovem, apresentável, bom salário, perspectiva de futuro promissor em cargo de comando, boa saúde; enfim, uma vida a ser vivida, e bem vivida!

E ele não fez por menos, viveu muito bem essa fase. Fez novas amizades, namorou bastante, conheceu novos lugares e se especializou profissionalmente.

O oficial, agora universitário, diz que também aumentou bastante sua fé, voltando a ter vida mais intensa junto à Igreja Católica, coisa que não fazia desde a primeira comunhão, antes de entrar na PM.

A experiência na atividade de policiamento foi curta (apenas três anos), mas tremendamente intensa, tendo a oportunidade de conhecer as felicidades e agruras da profissão, que é, segundo a experiência de Drigo, a última barreira entre a civilidade e a barbárie.

Foi quando Drigo descobriu que, na sociedade, não há vácuo de poder, de tal forma que, quando o Estado não se impõe, surge um poder paralelo que ocupa seu lugar. Nesse momento, não por outro motivo, se percebe a ascensão do crime organizado sobre as periferias dos grandes centros urbanos.

Novamente, Deus abre outro caminho. Por influência de alguns tenentes da turma de academia, em 1996, Drigo presta concurso interno, migrando para o Corpo de Bombeiros, onde se realiza profissionalmente.

Fato é que, após a Faculdade de Direito, o ainda jovem adulto combatente, abraça todas as demais oportunidades de estudo que surgem. Em 2001, conclui a pós-graduação em Direito Público pela Escola Paulista de Direito.

Não satisfeito, e querendo mais, se lança à Engenharia Civil pela Universidade de Guarulhos, com nova graduação em 2012.

Com fome de aprender e preparar-se ainda melhor para a vida, avança para o Mestrado em Segurança Pública, pelo Centro de Altos Estudos da Polícia Militar, alcançando título de Mestre em 2013.

Também aproveita ao máximo os cursos de Inteligência Policial pelo SENASP; e o de Compliance (Combate a Corrupção), pelo INSPER; além de inúmeros cursos de especialização da Corporação.

Já bastante inserido nas hierarquias profissionais, Drigo tem a oportunidade de exercer funções operacionais e de comando, e o faz nas sete cidades da enorme região do Grande ABC, berço da industrialização nacional.

COORDENADOR REGIONAL DE DEFESA CIVIL

Entre 2008 e 2014, surge a função de Coordenador Regional de Defesa Civil. Com a responsabilidade dessa cadeira, Drigo tem os desafios de atuar em várias ocorrências de grande vulto, na Capital e Grande ABC. São elas:

Acidente com Fokker 100 da TAM em São Paulo – SP, 1996

Mais detalhes: https://www.youtube.com/watch?v=zjHtjn2Hl3M

O monstruoso incêndio no Porto da Alemoa, Santos – SP, 2015

Incêndio e desmoronamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, Capital, 2018

O maior engavetamento da história das rodovias Anchieta – Imigrantes, com 300 veículos, 2011

O incêndio no Centro de Distribuição da Nestlé em São Bernardo do Campo – SP, onde faleceram dois Heróis Bombeiros, 2001

O desabamento parcial do edifício Senador em São Bernardo do Campo – SP, 2012

O incêndio e vazamento de produtos da empresa Dial Química em Diadema – SP, 2009

OS TRÁGICOS TEMPORAIS, DESLIZAMENTOS DE TERRA, DESABAMENTOS, ENCHENTES E INCONTÁVIES RESGATES NA REGIÃO DO GRANDE ABC – GRANDE SÃO PAULO – SP

E inúmeras outras ocorrências ao longo da carreira.

DRIGO E SEUS GRANDES AMORES

Como a vida não se resume a trabalho e estudo, nesse meio tempo, Coronel Drigo realizou outro sonho: o de viver um grande amor! É assim que ele conhece aquela que seria sua esposa, Simone da Silva Drigo. Dessa grande história de amor nascem o que chamam de “os maiores presentes da vida”, as duas filhas: Livia da Silva Drigo, de 05/11/2004, e Amanda da Silva Drigo, de 24/04/2009.

Se a existência é permeada por marcos que mudam destinos, no caso do Coronel Drigo, as grandes transformações, creditadas a Deus, sempre foram para melhor: O ingresso na Academia Militar; o casamento e o nascimento das duas pequenas.

Ainda que não reconheça nenhuma habilidade esportiva, a rotina de preparação no Barro Branco desperta, na maioria dos cadetes e oficiais, a vocação para cuidar da própria saúde.

Todos são estimulados ao hábito de cuidados com a higidez por toda a vida, de forma que, até atualmente, Drigo aprecia corridas ou caminhadas, três a quatro vezes por semana.

Diz que é palmeirense por herança do avô materno, mas, logo tenta se redimir, enfatizando que o futebol muito pouco interfere em sua vida.

O gosto musical é amplo e eclético. Passa por gêneros como: jazz, música clássica, MPB, reggae, rock, destacando apreciar Oswaldo Montenegro, Milton Nascimento e Raul Seixas.

EXPERIÊNCIAS PRÉ-PANDEMIA DE 2020:

É engraçado pensar na vida antes da pandemia. Só reforça a sensação – bem humana – de que sempre se valoriza mais exatamente aquilo se perde ou que não mais se possa ter.

Fato é que, antes da crise de 2020, o Coronel Drigo possuía uma “rotina” (se é que bombeiro consegue ter rotina) bastante simples.

Por ser Comandante do Corpo de Bombeiros da Região do ABC, acordava pontualmente às 05h30, preparava o café para as filhas, deixando a mais velha na escola, por volta das 06h50. De lá seguia para encontrar alguns colegas no parque Duque de Caxias – hoje mais conhecido como Parque Celso Daniel – Santo André, para uma caminhada ou corrida. Depois, seguia para o quartel. Ao passar pelo “portão das armas” não se tem mais certeza de como será o dia.

Por rotina, as manhãs eram dedicadas a despachar documentos ou realizar reuniões nas sete cidades do Grande ABC, ou ABCDMRR (composta por Santo André (A), São Bernardo do Campo (B) e São Caetano do Sul (C); e, também, Diadema (D), Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra).  Às tardes, é momento de rondar quartéis. Não sendo isso, eram as reuniões no Comando em São Paulo, Capital.

Isso tudo, sempre acompanhando a grande gama de ocorrências diárias. Um dia nunca era igual ao outro.

Quando possível, Drigo fazia questão de pegar a filha na hora do almoço, passar esse tempo com ela; ou, almoçar em casa com toda a família. É claro que agendas tinham que coincidir! Essa era sua “vida normal”.

CHEGOU A PANDEMIA DE 2020

Em meados de janeiro de 2020 o Coronel Drigo cumpria a promessa feita à filha mais velha, dois anos antes, de que, quando completasse quinze anos de idade, fariam uma viagem a Londres. Sonho de Livia (jovem escritora que logo revelaremos) há longa data.

E, lá estavam Drigo, Simone, Livia e Amanda. Da Inglaterra, tinham programação de seguir para Portugal, escala de um dia em Roma e retorno ao Brasil.

A primeira notícia ouvida sobre a doença foi dada pela sogra de Drigo, Dona Sylvia, numa das ligações diárias com as netas. Contou sobre o noticiário do surgimento de uma nova gripe ou algo parecido, na China, semelhante ao H1N1, que causara mais impacto do que anos antes.

Na verdade, não sentiram nenhum alarde, nem em Londres, nem nas cidades pelas quais passaram em Portugal. A televisão já começava divulgar que havia surgido um caso da doença na França. Isso deixou a família Drigo em alerta, afinal, havia uma infinidade de viajantes chineses em todos os locais turísticos que estavam visitando.

Particularmente, o Coronel, agora em situação de marido e papai, não achou que houvesse motivo para preocupação. Pensava que, se de fato a doença fosse grave, já estaria sendo controlada na própria China.

Ledo engano! Até os mais experientes foram tomados de assombro. A coisa começou ficar estranha quando, em Lisboa, antes do embarque para Roma, por insistência da esposa, tentaram comprar máscaras numa das farmácias do aeroporto. O produto estava esgotado!

Como teriam um dia e meio na Itália, deixaram para comprar em algum comércio próximo ao hotel. Nova surpresa: o produto estava esgotado em todas as cinco farmácias pelas quais passaram.

Como não havia notícia de nenhum caso além daquele (ocorrido na França), durante os vinte dias em que estavam viajando, continuaram tranquilos.

Agora, retomando o ímpeto natural de coronel, Drigo confessa que a tensão aumentou. Tinha ciência de que aeroportos são locais propícios para promover a contaminação cruzada.

Ao chegarem ao Brasil, porém, o clima era completamente outro. Nem se falava em gripe chinesa. O clima era de preparação para o carnaval.

A viagem tinha ajudado a reforçar os planos de que, em meados do ano, o Coronel deixaria o serviço ativo. Sim, seria o momento fatal, após trinta e um anos. Passaria para a reserva logo após completar um ano no posto de Tenente Coronel. Isso habilitaria a promoção ao último posto da carreira, abrindo caminho para o que talvez pudesse ser o próximo importante momento da vida.

Surgem hipóteses e vários convites para se submeter ao teste das urnas para, quem sabe, iniciar uma nova missão, dessa vez, procurando fazer diferença social positiva na vida política.

Até o momento, são conjecturas, e o mais importante é o inquietante desejo de servir, servir, servir; para isso Drigo foi construído pela vida.

Retomou as atividades no quartel. A rotina continuava normal, até que houve a grande catástrofe que atingiu o litoral paulista, com escorregamentos de terra simultâneos, e mais de uma centena de desaparecidos, dentre os quais dois bombeiros em serviço.

Como o grupamento que Drigo comandava era o mais próximo, além daqueles do próprio litoral, foi acionado, ainda de madrugada, para apoiar os colegas, deslocando efetivo e viaturas.

Na época, imaginou que aquela seria sua última ocorrência de vulto e o maior desafio ao Corpo de Bombeiros em 2020: Uma operação envolvendo efetivo do Estado inteiro e vários dias de ação intensa. Mal podia imaginar o que estava por vir.

Uma semana antes de ser determinado o isolamento social, o Coronel participa de um café da manhã com Oficiais do Alto Comando do Corpo de Bombeiro. De praxe, cumprimentou e abraçou quase que a totalidade dos participantes. Muitos eram oficiais de sua turma de Academia do Barro Branco.

Após reuniões que perduraram durante toda a manhã, saíram para almoçar, em um bom restaurante do Centro de São Paulo. Estava tão lotado que ficou até difícil juntar mesas para todos.

Impossível, naquele momento, imaginar que seria o último almoço com os amigos. Vez por outra, Drigo se pega lembrando já com saudades de algo tão intenso e há tão pouco tempo. Nada como um bate-papo por telefone com outro oficial que também participou do evento para aumentar ainda mais esse sentimento.

Depois disso, a dinâmica das coisas começou mudar muito rapidamente. Começou chegar, em ritmo alucinante, ordens no sentido fazer levantamento de materiais e equipamentos: luvas, máscaras, aventais, etc.

Surgem as primeiras notícias de galopante contaminação de pessoas. Agora há uma população em pânico, e ao mesmo tempo, a necessidade de estar presente junto à tropa, para acalmar, tentar explicar tudo que estava acontecendo (como se fosse possível) e quais seriam os novos procedimentos. Tudo muito novo, monstruoso, diferente, fora das rotinas, por piores tragédias que já tivessem experimentado!

Rondas diárias, conversas francas, explicações sobre a conduta de isolamento social, métodos de desinfecção de viaturas e materiais… Tudo isso para que o Corpo de Bombeiros pudesse continuar atendendo a população, sem contrair a doença ou levá-la para dentro dos quartéis e das próprias casas. Principalmente sem se tornar um vetor de contaminação. Quanto mais conhecimento, mais se sente o peso da responsabilidade e das possibilidades do que pode ocorrer.

Essa situação e iminência da passagem para a reserva, sob pena de se tornar inelegível por descumprimento dos prazos e burocracias eleitorais, levaram Drigo a conversar com alguns oficiais amigos, e com o próprio Comandante do Corpo de Bombeiros. Havia a hipótese de abrir mão do convite para candidatura e permanecer em seu posto, no enfrentamento da nova situação causada pela pandemia.

Todos, de forma uníssona, aconselharam seguir o planejamento inicial. Diziam que a crise não seria uma ocorrência simplesmente de bombeiro; que o mundo teria que enfrentá-la com estratégias muito diferentes de caminhão de combate a incêndio ou socorro a desastres.

Disseram que teriam que continuar, com a permanência de Drigo ou não, mas que a oportunidade de entrar na vida política, talvez não se repetisse com as mesmas chances. Disseram mais: Que, sendo eleito, poderia ser peça importante, até para a própria Corporação, na reconstrução social, e no enfrentamento da recessão, vinda a reboque dessa calamidade sem precedentes. Assim, Drigo decidiu seguir o “plano de voo”.

Sexta-feira, 30 de abril de 2020, foi seu último dia de trabalho como Comandante do Oitavo Grupamento de Bombeiros. Drigo não imaginava que seria assim: Sem poder estender a mão para cumprimentar amigos de muitos anos, sem abraços, sem despedida formal, sem festa, e diante de uma crise mundial desencadeada por um vírus.

Deus lhe permitiu fazer uma das coisas que mais gosta na carreira: Estar em contato com a tropa, orientando, tranquilizando, motivando e indicando o rumo a ser seguido.

Ao refletir, Drigo agradece e presta honra:

  • A Deus, por ter lhe proporcionado a realização pessoal por meio do maior presente recebido: a família. Pela realização profissional plena ao comandar o Corpo de Bombeiros da Região do ABC.
  • Profundo respeito aos oficiais e praças da unidade em que serviu, por mais de vinte anos, e que sempre será sua segunda casa.
  • A todos com quem teve a oportunidade de conviver, nesses trinta e um anos de carreira.
  • Aos amigos que colecionou por toda a vida, pela confiança que lhe foi depositada.
  • Pede as devidas escusas se, de alguma forma, ainda que sem haver percebido, ofendeu ou prejudicou alguém. Creia que não foi o objetivo de Drigo, em momento algum.
  • Oferece um fraternal abraço a todos, e como faz diariamente, mas, principalmente quando tem que tomar grandes decisões, pede a Deus que esteja à frente e lhe faça instrumento de Sua vontade.

O Coronel Drigo repete, segundo ele, uma última vez (na visão deste editorial, ecoará por muito mais vezes) o pensamento difundido durante toda a carreira nas preleções feitas à tropa:

Ser Bombeiro e Policial Militar é muito mais que uma profissão. É a oportunidade que Deus dá de exercer uma das mais cristãs das atividades. Coloca-se em risco a própria vida para fazer o bem a pessoas que não se conhece, não se sabe se são de boa ou má índole, se têm família ou amigos, se são pobres ou ricas, se pertencem a “minorias”, se possuem ou não opiniões políticas, e, cuja maioria, não irá, sequer, agradecer. É exercício diário de abnegação. Isso, não tem preço!

Pensando sobre a pandemia de 2020, Drigo diz que, a principal lição, pode até ser clichê, mas é: Reforçar a ideia de que se deve viver bem cada fase da vida, em toda sua potencialidade, pois não é possível se saber como será o amanhã.

Não se pode adiar sonhos. Ainda que não se consiga realizá-los: A decisão de tentar não pode ser coibida.

DEPOIMENTO DO CORONEL DRIGO

“Ontem foi um dia bastante estranho. Meu último dia de trabalho no 8GB. Não imaginei que seria assim: Sem poder estender a mão para cumprimentar amigos de muitos anos, sem despedida formal, sem festa, diante da crise deste maldito vírus.

Por outro lado Deus me permitiu fazer uma das coisas que mais gosto na nossa carreira: estar em contato com a tropa, orientando, tranquilizando, motivando e indicando o rumo a ser seguido.

Pra quem não está entendendo nada, explico: Já estava, há algum tempo, me preparando para transição da reserva, em agora em 2020. Cumpri o interstício de um ano como Tenente Coronel, tendo essa notícia corrido, em meados do ano passado aqui pelo ABC.

Agradeço primeiramente a Deus, por ter me proporcionado a realização profissional plena que foi comandar o Corpo de Bombeiros da Região do ABC; aos Amigos que colecionei, pela confiança que me foi depositada; ao Cel. Maxmena, Comandante do Corpo de Bombeiros do Estado, por igual confiança e, posso dizer, compreensão e incentivo.

Agradeço e manifesto meu profundo respeito aos oficiais e praças desta Unidade, em que servi por mais de 20 anos, e que sempre será a minha segunda casa.

Em especial, quero agradecer aos amigos mais próximos […], que me incentivaram a manter “o plano de voo”, e conseguiram me fazer enxergar que posso ser peça importante para a própria Corporação, na fase posterior à crise e, no enfrentamento da recessão que virá a reboque.

Por fim, agradeço a todos com quem tive a oportunidade de conviver nesses trinta e um anos de carreira. Peço as devidas escusas se, de alguma forma, ofendi ou prejudiquei alguém (creia que não foi meu objetivo em momento algum). Um fraternal abraço a todos.”

O Coronel Drigo teve, como Comando, o Oitavo Grupamento de Bombeiros. Definitivamente, Drigo marca a História do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Seus trinta e um anos e cinco meses em serviço, dos quais, vinte na Região do Grande ABC, em franca e constante participação de operações em São Paulo, litoral e circunjacências. Afastou-se em transição para a reserva, a fim de se dedicar a um futuro tão brilhante quanto esse magnífico passado.

Certamente, sua esposa e rainha, Simone, as duas princesas, Livia e Amanda, sempre terão muito de que se honrar. Da mesma forma, não haveria palavras nos léxicos conhecidos para este editorial agradecer, como parte do Estado, Capital, Grande São Paulo e Grande ABC, e dignificar esse personagem Coronel Drigo, que, não apenas participa da História, como mero figurante, mas a faz acontecer, como protagonista.

Drigo é mais um dos verdadeiros grandes heróis da sociedade.

Veja mais:

IMAGENS: Arquivo Pessoal / Reprodução

Este relato é parte integrante da obra de DAN BERG, baseada na compilação de histórias reais: NOS BASTIDORES DA QUARENTENA. ©Copyright: todos os direitos reservados ao autor.

Convite para preleção ou indicar alguém para o rol de heróis, em meio a pandemia: danberg1000@gmail.com


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Dan Berg

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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