Filme de terror com a comida

Filme de terror com a comida

Constantemente recebemos informações em texto, áudio ou vídeos que mostram os riscos e perigos que estamos expostos quando consumimos alimentos processados e industrializados, ou ainda os danos que determinadas associações entre alimentos “não-naturais” causam.

Mensagens eletrônicas alertando sobre supostos envenenamentos e mortes associadas a mistura de, por ex. de rodelas de limão “velho” com refrigerante de cola light numa casa noturna, ou o café processado que leva sangue de bovinos na sua moagem para obter maior rendimento, ou ainda falas de “especialistas nutricionais” (pouco ou muito famosos) que revelam os danos irreparáveis dos alimentos processados como margarina, pipoca de micro-ondas, requeijão e sorvete. Tais conteúdos pretendem revelar ao grande público, “tudo aquilo que as indústrias de alimentos multinacionais imperialistas não querem que você saiba”.

Não é surpresa para ninguém que existem práticas no mercado que visam a redução dos custos e obtenção de maiores lucros, coisa totalmente natural e justificável pois todos os empresários vivem e existem devido ao lucro. Todos nós também buscamos o lucro em nossas ações diárias. Todos gostam de uma promoção ou oferta vantajosa no comércio, ou compramos um produto mais caro e de melhor qualidade porque sabemos que aquilo vai ser vantajoso a médio e longo prazo, pois é melhor, ou dura mais, ou proporciona mais satisfação, isto é, dá lucro financeiro e pessoal.

Desde que haja informação correta ao consumidor e respeito às suas preferências, a atividade empresarial que visa o lucro é indispensável. Diferentemente dos empresários, existem os aproveitadores e golpistas que visam o lucro fácil e rápido causando prejuízo ao bolso e à saúde do consumidor.

Mas nada disso se aplica aos conteúdos assombrosos e as explicações esdrúxulas de vídeos com alertas sobre os riscos que estamos expostos com esses alimentos “artificiais”, “processados” e “causadores de males a saúde”.

Um vídeo particularmente interessante e bem impactante é este abaixo, que mostra diversos alimentos e suas composições, e que revela e expõe os “verdadeiros venenos” que são para a saúde dos consumidores e que devem ser totalmente evitados para o bem da saúde nossa e de nossos familiares.

Vamos então olhar com mais cuidado cada um dos exemplos mostrados e vamos tentar esclarecer aquilo que é possível com relação aos aspectos técnicos e científicos de cada caso apresentado no vídeo.

Em ordem de apresentação os experimentos do vídeo são numerados a seguir de 1º a 9º.

1º Cera na maçã “envenenada” da bela adormecida !

Na primeira do parte do vídeo aparece a encenação da morte da personagem depois de uma mordida na maçã contendo cera em sua superfície, usada para dar brilho a fruta, e mostra como retirar esta cobertura com água morna para que esteja supostamente boa para consumir.

As substâncias colocadas sobre frutas e vegetais além de dar brilho servem também para proteger contra a degradação. Essas ceras são comestíveis e tem seu uso autorizado pela legislação brasileira e de diversos países. Seu uso aumenta muita a validade desses alimentos prolongando sua durabilidade, seu aproveitamento e seu tempo para consumo, produtores destas substâncias informam que a durabilidade proporcionada é aumentada em 300% nas frutas e em 250% em vegetais.

O único problema que observo neste caso é a falta de informação ao consumidor sobre a presença de enceramento da fruta. Mas de acordo com legislação, alimentos não embalados não necessitam de lista de ingredientes, assim vemos uma falha na legislação, pois ela não se aplica ao caso de frutas ou vegetais vendidos a granel nos mercados.

E como o próprio vídeo mostra, essas ceras podem ser retiradas, se você preferir, com água morna antes do consumo.

– 2º e 7º refrigerante tendo sua cor perdida para o papel toalha e por filtro de água.

Experimento interessante, mas que não mostra muita novidade, o corante (verde Chernobil !) está presente conforme deve mostrar a lista de ingredientes no rótulo. A retenção do corante pelo guardanapo ocorre pelo processo de adsorção. A adsorção (isso mesmos, “d” e não “b” como você imaginou) é um processo físico quando uma substância fica retida fisicamente em uma superfície geralmente porosa. A mesma coisa ocorre quando usamos uma pedra de carvão (ou carvão ativado) para retirar o cheiro ruim de dentro da geladeira. O carvão serve como filtro e as moléculas que dão cheiro ficam adsorvidas na superfície porosa do carvão.

– 3º Bolinho com uma massa fibrosa em seu interior

Esse foi meio misterioso, experimentei dissolvendo na torneira várias marcas destes bolinhos, ou muffin, comprados no supermercado e em nenhum caso apareceu essa massa fibrosa igual à do vídeo. Imagino que a massa esteja vindo do papel da embalagem que pode ter ainda permanecido no momento que o manipulador retira a embalagem, ou simplesmente essa massa foi colocada de propósito num truque para degradar a imagem do produto.

Quem ainda estiver desconfiado pode repetir em casa o experimento com bolinhos do supermercado, acho que vai chegar aos mesmos resultados.

– 4º e 9º Reação do iodo com maionese e queijo mostrando a adição de amido.  

O iodo (coloração vemelho-tijolo) quando em contato com amido, mesmo em quantidades muito reduzidas, produz uma coloração azul-violeta. Isso é bem conhecido pelos estudantes de química e serve como um indicativo qualitativo (presença) de amido.

Sabendo que o amido esta amplamente presente na nossa alimentação originados de produtos vegetais (batata, mandioca, milho, trigo, aveia, cevada..) não entendi porque a presença de amido é um risco tão grande para a saúde como o vídeo alega. Como se colocar maisena (amido de milho) para engrossar molhos, sopas, sobremesas ou caldos transformasse a saborosa comida preparada na sua casa em veneno num passo de mágica.

Só vejo problemas se este amido não estiver devidamente identificado no rótulo do queijo ou da maionese, isso caracterizaria uma adulteração ou fraude, não um problema à saúde, mas engano ao consumidor quanto a qualidade ou identidade do produto.

– 5º Identificação do mel verdadeiro misturando com água e surgindo a “memoria genética”

Esse foi engraçado, o aparecimento de formas geométricas, bem irregulares por sinal, semelhantes a hexágonos dos favos de mel identificaria o mel verdadeiro ! Mas heim !?

O mel é composto principalmente de açúcares simples (76,8%) principalmente frutose (38,5%), enquanto que imitações de mel são geralmente feitas de açúcar de cana ou de amido de milho hidrolisado (países como Estados Unidos usam o milho como fonte de açúcar pela sua maior disponibilidade). O mel e o hidrolisado de amido de milho são dois produtos formados basicamente de açúcares, sendo o mel considerado mais saudável devido a sua composição conter antioxidantes com certas propriedades benéficas a saúde, enquanto o “xarope de milho” ou de cana é quase completamente só açúcar.

Uma maneira de verificar se um produto espesso amarelado é verdadeiramente mel ou não é mistura-los com álcool. O mel não se solubiliza no álcool, enquanto a calda amarelada de açúcar sim.

6º Margarina e manteiga, uma solúvel em água quente e outra não.

Essa parte simplesmente revela a composição diferente dos dois alimentos e seu comportamento quando misturados com água quente. A manteiga e a margarina são emulsões do tipo água em óleo (ingrediente aquoso espalhado em um corpo maior de óleo), na manteiga a parte oleosa é a gordura de origem animal. Já a margarina é feita da mistura de óleos vegetais, podendo ou não ser adicionada de gorduras de origem animal, conforme previsto na legislação brasileira. O que o vídeo revela, então ? Que um é mais solúvel em água quente que o outro. Só isso.

– Conclusão

Testes para verificar a qualidade e identidade de alimentos devem ser feitos dentro de laboratórios, de maneira padronizada e uniforme, com pessoas preparadas e de maneira científica. Vídeos, bem produzidos aliás, com fortes atrativos emocionais, como este tem somente o objetivo de chamar a atenção, alarmar sem necessidade ou até deliberadamente confundir o consumidor.

Não deixe sua comida se transformar em um filme de terror, ou em um drama.

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