Redação e Linguagem Coloquial

Redação e Linguagem Coloquial

Textos de Comunicação, como reportagens e artigos jornalísticos, parecem permissivos com a linguagem, mas coloquialismos e transposições de fala são obstáculos para a leitura fluente

Redigir um texto jornalístico deveria ser fácil, pois genericamente como a escrita é manifestação da fala, bastaria reproduzir um discurso oral para ser bem-sucedido, já que estamos acostumados a conversar com nossos amigos, família e mesmo na internet, que se transformou em território de informalidade e intimidade nem sempre bem-vindas. Todavia, embora linguagem oral e escrita caminhem paralelamente, há adaptações importantes quando se escreve para informar, interpretar, criticar, persuadir ou opinar.

O próprio Padre António Vieira, o maior prosador em Língua Portuguesa de todos os tempos, costumava redigir seus sermões depois de proferi-los nas missas. Quase toda a sua obra é transcrição que foi adaptada e poderia facilmente ser novamente reproduzida oralmente. Essa é outra característica do texto bem-escrito: ele é reversível para a oralidade, sem prejuízo para o entendimento e o significado. Já o texto falado, mesmo que provoque efeito na plateia, não pode ser transcrito ipsis litteris.

Vamos, então, aos erros mais comuns e que devem ser objeto de revisão imediata por parte de redatores e revisores:

  1. Misturar segunda com terceira pessoa na mesma frase ou texto: Típico erro de regiões do Sul e do Nordeste do Brasil, às vezes vem também com erro de concordância. Ex.: Tu te contenta (s) com pouco, Eu te disse que você estava errado, Sua ideia de liberdade está em desacordo com o que te ensinaram.
  2. Vocabulário inadequado: O uso de gírias, jargões profissionais, regionalismos, siglas que ninguém conhece e sem a entidade que representa, palavras de baixo calão são vícios que empobrecem o texto porque dividem os leitores entre os que são ou não da tribo, da faixa etária, da região, da categoria profissional. É um corte no processo de comunicação que longe de aproximar o texto do leitor, afasta-o, por seu estilo informal demais. Por isso a linguagem padrão é tão importante e não denota arrogância, preciosismo ou erudição, mas democratiza a comunicação para que qualquer leitor de Língua Portuguesa, em qualquer região ou país, possa compreender. Exemplo: Ele é um cara legal, trilegal, positivo operante, trem bão, OK, FDP, Segundo a RNL, Bora pra casa, enfim, um léxico totalmente estranho ao meio escrito.
  3. Repetições desnecessárias: Uma revisão atenta pode suprimir ou substituir substantivos por pronomes ou adjetivos por sinônimos, a fim de tornar a leitura mais rica e menos enfadonha, bem como a repetição da partícula “que”, geralmente pronome relativo e, pelo próprio conceito, reporta-se a um termo anterior e obriga o leitor a voltar mentalmente na frase para encontrar o referente, o que também emperra a leitura fluente. Exemplo: A leitura é um hábito saudável, muitos evitam a leitura, porque a leitura dispende tempo e os meios digitais substituíram a leitura de livros pela leitura de posts na internet. Ficaria melhor: A leitura é um hábito saudável, mas muitos a evitam porque ela dispende tempo e os meios digitais substituíram os livros por posts na internet. Sobre a partícula “que”: A informação a que temos acesso hoje pelos jornais é a mesma que esteve online ontem na internet, que é muito mais ágil e que processa em tempo real o que a grande mídia pensa que é exclusivo dela. Melhor: A informação a que temos acesso hoje pelos jornais é a mesma divulgada anteriormente pela internet, muito mais ágil, processando em tempo real algo supostamente exclusivo da grande mídia.
  4. Supressão de termos da oração: É muito comum na fala não apenas a repetição, mas a omissão de palavras, pois no decorrer do discurso oral o sujeito, os verbos e advérbios invariavelmente vão aparecer à frente. Na linguagem escrita, a oportunidade de apontar o referente tem um lugar e um tempo: o encaixe na frase. O leitor precisa dessa orientação mental próxima, ou perderá tempo para entender a que se refere um verbo ou adjetivo. Veja um exemplo dessa falha: É um patrimônio das Línguas, que se definem como tal a partir da Literatura, fora disso seriam códigos artificiais criados para agregar. Não significam nada sem algo por trás. Melhor: A Literatura é um patrimônio das Línguas, que a partir dela se definem como tal, e sem ela seriam códigos artificiais criados para agregar pessoas com interesses comuns, sem significados subjacentes à Cultura e à História de onde surgiram.
  5. Falta de Paralelismo Sintático: É inescapável: organização na vida é também organização nas ideias e no texto. Na linguagem coloquial, do dia a dia, é comum unificar a regência de verbos (Assisti e gostei do vídeo, em vez de Assisti ao vídeo e gostei dele) e outros desencontros, mas a composição do texto deve ser objeto de atenção e revisão minuciosa antes da publicação ou divulgação. Períodos com orações coordenadas ou subordinadas devem manter um nexo lógico em paralelo com a mesma classe gramatical. Na prática: Se todos colaborassem, tudo ocorrerá como previsto. Melhor: Se todos colaborassem, tudo ocorreria como previsto. Outro exemplo: Os clubes buscam a expansão do número de associados bem como reduzir gastos com publicidade. Melhor: Os clubes buscam a expansão do número de associados bem como a redução dos gastos com publicidade.
  6. Usar os “coringas” da comunicação: Pronomes indefinidos e palavras enfáticas são muito comuns quando o falante é impreciso no que quer comunicar ou se esqueceu da palavra exata. Nesse conjunto, estão as palavras “coisa”, “algo”, “alguns”, e os engraçados “veja bem”, “para se ter uma ideia”, “atualmente”, “bem”, “eu acho” e outras expressões típicas para ganhar tempo para pensar, para “enrolar” o ouvinte. Exemplos práticos: Bem, minha opinião é que…, Veja bem, o contexto é de pandemia…, Para se ter uma ideia, o número de casos de infectados no Brasil…, O amor é uma coisa (sentimento) inesperada.

Agora que você já tem as primeiras ferramentas para a revisão do seu texto, mãos à obra e vamos escrever de forma elegante e persuasiva! Em tempo: a foto em destaque é de um livro antigo de Gramática, que recebi como herança e ao folhear, percebi a riqueza de conceitos e a liberdade que ela nos proporciona ao dar a entender que aprender a escrever é muito simples, faz parte da nossa cultura. Não é preciso ser nenhum gênio, basta amor ao texto e uma certa prática. Essa deve ser a inspiração para quem ensina e aprende e trabalha Língua e Literatura.

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