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Análise do impacto psicológico do enfrentamento à epidemia em profissionais da saúde é alvo de pesquisa

Pesquisa avaliou saúde mental de profissionais do Hospital Universitário de Brasília (HUB). Foto: Ascom/HUB
 

Na linha de frente do combate à covid-19, os profissionais da saúde lidam diariamente com trabalho exaustivo por uma série de fatores, seja por sobrecarga de atendimentos, estresse, esgotamento físico ou risco de contaminação. Essa rotina tão intensa pode, no entanto, ter consequências para o bem-estar psicológico desses trabalhadores.    

Pesquisadores da área de psiquiatria da Faculdade de Medicina (FM) da Universidade de Brasília e do Hospital Universitário de Brasília (HUB) desenvolveram um estudo para analisar o impacto do trabalho de enfrentamento à covid-19 na saúde mental dos profissionais da saúde. Eles avaliaram o comportamento de médicos residentes do HUB que estiveram envolvidos, entre os meses de abril e junho, no atendimento de pacientes com suspeita da doença, com o objetivo de identificar possíveis quadros de insônia, depressão e ansiedade. 

O projeto foi aprovado em chamada prospectiva de ações para enfrentamento à covid-19 lançada pelos decanatos de Pesquisa e Inovação (DPI) e de Extensão (DEX), juntamente com o Comitê de Pesquisa, Inovação e Extensão de combate à covid-19 (Copei) da UnB. 

>> Confira o portfólio de projetos de combate à covid-19 desenvolvidos pela UnB

 De acordo com o professor de psiquiatria da FM Lucas Brito, que integra o grupo de pesquisadores, o medo intenso de se infectar, de contaminar entes queridos e de serem estigmatizados como transmissores da doença por parte da população são fatores que aumentam os níveis de estresse desses profissionais. 

Dados preliminares da pesquisa apontam que, entre os três distúrbios analisados, a ansiedade é a que mais afeta os trabalhadores da saúde. Parte disso se deve ao medo de contaminar familiares que moram na mesma residência. As informações levantadas até então mostram também que 25% dos médicos residentes que responderam à pesquisa afirmaram já ter cogitado trocar de especialidade devido à pandemia. E, ainda, 91,7% confessaram não ter esperança de que a situação melhore no próximo mês. 

Entre os sintomas de ansiedade, os mais detectados foram incapacidade de relaxar, medo de que aconteça o pior e nervosismo, constatados de forma moderada em 41,7%. Os principais sintomas de depressão identificados foram cansaço, dificuldade para se concentrar, pouco interesse e sentir-se mal consigo mesmo. Além disso, 83,3% afirmaram que a qualidade geral do sono está prejudicada e 75% apresentam sonolência diurna. 

A residente em psiquiatria do HUB e pesquisadora Yasmin Furtado Faro explica que a ideia de realizar o estudo partiu de queixas dos médicos residentes em grupos de WhatsApp. Com o aumento do número de casos da covid-19, eles começaram a comentar mais que estavam cansados e a perguntar se os colegas se sentiam assim. 

Muitos dos comentários se relacionavam a previsões ruins sobre a pandemia nos próximos meses e demonstravam preocupação com o número de óbitos de médicos em decorrência da covid-19. “Isso chamou nossa atenção, e consideramos a necessidade de fazer o estudo para avaliar qual seria a melhor forma de ajudar os profissionais de saúde”, relata a médica residente. 

Segundo o professor Lucas Brito, os pesquisadores estimaram algumas situações que poderiam estar relacionadas às atuais dificuldades encontradas pelos profissionais no serviço de saúde universitário. “Em primeiro lugar, a sobrecarga assistencial, a superexposição ao vírus e as dificuldades de enfrentamento a algo tão novo, do qual pouco se sabia; além disso, a suspensão das atividades de ensino (para estudantes e residentes), com mudança radical nas rotinas dos serviços, seria um fator que se somaria a todos os outros para um prejuízo à saúde mental”, observa o docente. 

Estudos mundiais já apontam que os profissionais da saúde demonstram grande aumento do estresse, além de piora na qualidade do sono, sintomas de depressão e de ansiedade – este último, o mais frequente – neste cenário de pandemia. Trabalhadores que já apresentavam um ou mais desses transtornos também têm sofrido com o agravamento dos sintomas. 

“Profissionais em sofrimento mental se tornam mais desmotivados. Além de consequências comuns dos sintomas, que são particularmente importantes quando acometem profissionais de saúde, o transtorno depressivo, a ansiedade e a insônia, na maioria das vezes, são acompanhados de dificuldade para se concentrar, distorção da percepção, negativismo, fadiga, estafa e irritabilidade. Tudo isso gera prejuízos nas relações desses profissionais, incluindo a relação médico-paciente”, observa Yasmin Furtado. 

“A incerteza de estar seguro, a preocupação de contaminar um ente querido, os estigmas da população geral que os colocam como vetores da doença, cargas horárias de trabalho aumentadas, realocação em outros setores do hospital que não o seu e falta de tratamento comprovadamente eficaz acabam gerando níveis de estresse muito altos, o que desencadeia todos os sintomas”, completa a residente em psiquiatria. 

A pesquisadora pondera que os níveis de estresse nesses profissionais tendem a diminuir com o fim da pandemia, mas que podem permanecer em certos trabalhadores caso não haja acompanhamento psicológico adequado. “Já temos a experiência da pandemia de influenza em 2003, que não afetou tanto o Brasil. Mas nos países mais afetados, quando os profissionais não eram adequadamente tratados, os prejuízos de insônia, depressão e ansiedade permaneceram, mesmo depois de dois anos. Por isso a necessidade de detecção precoce, para se instituir também precocemente um tratamento adequado.”Professor da área de psiquiatria, Lucas Brito destaca que o diagnóstico precoce de transtornos psicológicos contribui para reduzir os impactos provocados pela pandemia nos profissionais da saúde. Foto: Arquivo pessoal

“Sabe-se que haverá muitas consequências, no sentido de que a organização da sociedade está muito diferente, as representações sociais dos profissionais de saúde estão se modificando, assim como o trabalho em saúde em si, num contexto em que o mundo está vivendo caminho de mudanças radicais. Esperamos que essas modificações não tragam uma maior carga de adoecimento mental para os trabalhadores da saúde”, comenta o professor da área de psiquiatria. 

Na avaliação do docente, diagnóstico e intervenção precoce são fundamentais para atenuar o impacto do combate à pandemia na saúde mental dos profissionais. Também é importante o acompanhamento de um profissional da saúde mental, rotinas que incluam tempo de descanso, relaxamento, lazer, convívio familiar e com amigos – ainda que a distância –, e melhorias no ambiente de trabalho. 

Lucas Brito reforça que os serviços de saúde precisam garantir condições adequadas de trabalho, com fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs) e evitando sobrecargas aos trabalhadores e jornadas exaustivas. Já os profissionais devem evitar se submeter a situações de maior risco, inclusive observando as condições de trabalho, e procurar auxílio para sofrimento psíquico, quando for o caso. 

“Até a população em geral pode ajudar, mantendo o distanciamento social – medida indicada para desacelerar a transmissão viral –, o que diminui a sobrecarga do sistema de saúde e evita piora nas condições de trabalho e esgotamento dos profissionais”, afirma o professor da FM. “Mesmo socialmente distantes, temos que seguir virtualmente de mãos dadas, afinal, a covid-19 é uma doença que atinge toda a sociedade, não apenas um indivíduo”, finaliza Lucas Brito.

Fonte: gov.br / Imagem em destaque: Mec

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Leonardo Garbossa

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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