Quem tem Sangue Azul?

Quem tem Sangue Azul?

“O mal da grandeza é quando ela separa a consciência do poder!”

Willian Shakespeare

Nos dias atuais, onde a teocracia e o complexo de messias fazem com que determinados integrantes do poder público sintam-se como membros de uma casta superior, tratando os servidores públicos de categorias menos distintas e o povo em geral, como plebe rude, sendo possível observar que existe atualmente um novo sistema de casta absolutista em solo pátrio, onde Deusembargadores e demais membros do distinto poder judiciário sejam a moderna nobreza de sangue azul.

Mas de onde vem a termologia sangue azul, qual a sua origem e qual a sua ligação com a nobreza? E porque as pessoas de sangue azul são consideradas acima das demais?

Existem várias vertentes que podem ter originado a expressão, todavia a mais remota remete ao Egito Antigo, onde os faraós, atribuam para si uma linhagem divina (como alguns Deusembargadores hoje em dia), e por assim ser, o Rio Nilo, que é de fundamental importância para a cultura egípcia, era considerado sagrado, por isso, os faraós afirmavam que seu sangue, era sagrado e azul como as águas do Nilo. Da mesma forma, a cor azul era sinônimo de nobreza, sendo comum encontrar nas pinturas os deuses e os faraós com os cabelos ou a pele azul. Tal analogia entre a cor anil e a nobreza não ficou limitada aos egípcios, tendo perdurado até idade média, sendo possível ver o azul como a cor predominante na bandeira francesa, onde o índigo serve de fundo para a flor-de-lis dourada, assim como em Portugal, a heráldica do rei Afonso Henriques era composta por uma cruz anilada, assim como a primeira bandeira do país ibérico, sendo então uma cor constantemente utilizada para retratar o valor das casas nobres em sua heráldica.

Outra vertente, na idade média, também de cunho racial, aponta a origem da expressão para a alta linhagem europeia da região ibérica no período da Reconquista, onde a miscigenação do povo mouro com o europeu, fez com que a tonalidade de pele das pessoas comuns possuísse uma gradação mais escura que a cútis da nobreza, que em decorrência dos casamentos arranjados e da endogamia, como é possível compreender melhor lendo o artigo relacionado: https://dunapress.org/2020/02/18/incesto-e-consanguinidade-nos-matrimonios-da-nobreza/,  manteve-se com a tez pálida, sendo possível ver as veias azuladas nos nobres diante de sua palidez, sendo portanto está a teoria mais contundente da origem da expressão, onde também bifurcou para um terceira hipótese, está relacionada as atividades laborativas da plebe, que em virtude da permanência por longos períodos expostos ao sol, os plebeus passassem a ter a cútis bronzeada, enquanto os nobres, que permaneciam em seus suntuosos palácios, não eram expostos com tanta constância a luz solar, e por isso eram pálidos com suas veias azuladas podendo ser facilmente vistas. Esta hipótese também é atribuída para a origem da expressão estadunidense Redneck, utilizada de forma pejorativa ao referir-se aos moradores das áreas rurais, que seria algo como chamar alguém de caipira em português.

É evidente que o sangue dos nobres de fato não possui a coloração azulada, salvo se o aristocrata estiver acometido de cianose, uma doença rara que altera a pigmentação das membranas mucosas e pode levar a óbito. Todavia, na mesma linha, existe desde o Antigo Egito um interesse em distinguir a linhagem nobre através do sangue, onde segundo é lecionado por Murry Hope, um grupo de eruditos egípcios, chamados de Seguidores de Hórus estudaram o fator sanguíneo, e descobriram que todas as linhagens reais do Egito, incluindo o famoso Tutancâmon, possuíam fator RH Negativo, um fato curioso, levando-se em conta que a tipologia sanguínea de várias dinastias de reis  de diversas partes do mundo, eram compostas pelo fator Negativo, o que reforça mais ainda o sentimento de distinção entre a realeza e a plebe, principalmente em decorrência da endogamia e dos casamentos arranjados.

Assim sendo, a epistemologia da expressão Sangue Azul remete a distinção das linhagens nobiliárias, que em decorrência de seus privilégios viviam de forma suntuosa e distante da plebe, em um sistema de castas não muito distinto do vivenciado nos dias atuais no Brasil, onde Deusembargadores dotados de um teocentrismo, onde os membros do STF sentindo-se integrantes de um panteão olimpiano, fazem uso de suas prerrogativas, que os colocam acima dos demais mortais, e espelhados por uma suprema corte de colegiados nomeados por influência política, independente das aptidões técnicas, balizando pelo notável saber jurídico, ao passo que muitos não foram capazes nem mesmo de serem togados por meio de provas e títulos. Fazendo com que essa casta superior seja totalmente imune a todas as leis vigentes (exceto a lei da gravidade), em um caricato arremedo de Luiz XIV ao parafrasearem o “l’estate se moi”, do empolado monarca. Ao passo que para a sorte da Casta Superior, o povo brasileiro permanece deitado eternamente em berço esplêndido, e não se impõe as tiranias do absolutismo judiciário, e em arremedo aos súditos do Rei Sol, não lhe apresentam a guilhotina.

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