História

Eurípides: O Tragediógrafo das Mulheres

Início da vida.

“Certamente, o mais trágico dos poetas” (ARISTÓTELES,1453 a.29-30) assim relata Aristóteles sobre Eurípides em sua Poética que também cita Sófocles que, comparando-se a Eurípides, declara: Eu pinto os homens como deveriam ser; Eurípides os pinta como eles são” (ibid., 29-30) e assim é conhecido o mais racional Trágico do século V – posterior aos outros grandes nomes do gênero, Ésquilo e Sófocles.

É pouco sabido de sua vida, alguns relatos dizem que nasceu em Samalina, em 484 a.C. e faleceu em Pelas, na Macedônia por volta de 406 a.C., tendo inclusive um fim trágico ao qual foi dilacerado pelos cachorros do Rei Arquelau aonde vivia. Porém o escritor Wilson Ribeiro Jr. nos relata que seu nascimento foi na verdade em Flieus, na tribo Cecrópida em 485 a.C. e morreu em 406 a.C. na própria Atenas aonde viera da Macedônia pouco antes de sua morte (RIBEIRO Jr, 2010, p.576).

Seu pai foi Mnesárquides, sua mãe provavelmente uma verdureira, viveram de forma abastada, grande parte em Atenas. Eurípides costumava se isolar das outras pessoas, interessou-se pela ciência e pelas ideias filosóficas da época. Aparentemente costumava meditar em uma gruta frente ao mar. Pacifista, Eurípides sempre viveu as sombras de seu rival, Sófocles que era ativo politicamente e militarmente, sempre envolvido nos assuntos locais, enquanto que Eurípides voltava-se a filosofia, os estudos e a suas peças. Nelas alias era aonde o autor empregava suas opiniões políticas e problematizava sua época que tanto o incomodava.

Sendo um liberal munido de novas ideias e vivendo em uma Atenas fervilhante pela Guerra, rica e poderosa, acabou por ser declarado por alguns como blasfemo e sofista além de por vezes, difundidor de heresia.

Eurípides como Tragediógrafo.

Devido a sua fama nos séculos seguintes e por suas obras constituírem o protótipo do moderno drama posterior – com diálogos vívidos, linguagem coloquial, discussões que frequentemente envolviam técnicas sofisticas, cantos de corais curtos e de enorme beleza lírica – Eurípides é o trágico mais lido até os dias de hoje.

Compôs 92 obras, tendo sua estreia em competições aos 30 anos (455 a.C.). Por conta da preferência que as gerações subsequentes se manifestaram por suas obras, nós hoje dispomos de 19 peças sobreviventes, enquanto os outros dois trágicos, Ésquilo e Sófocles possuem apenas 7 cada.

A tragédia foi um dos primeiros gêneros teatrais e é a partir dela que toda a cultura literária ocidental se desenvolve. Não devemos somente a Homero os filmes, teatros modernos e grandes histórias que temos hoje, devemos também a este belíssimo gênero, e claro, a Eurípides.

Se a base de uma tragédia é a mescla do Dionisíaco com o Apolínico, ou seja, a embriaguez livre e o sonho moral (NIETZSTCHE, 1948, p.41 a 46), Eurípides é aquele que mais deixa latente estes dois opostos. Sua fixação pela dor exposta através das mulheres é um mistério, talvez, provenha de bastante reflexão e experiências próprias, que o fizeram concluir que a verdadeira expressão de dor, provém do feminino.

Mas Eurípides deixa claro sua inclinação, apesar de todo personagem seu ser bem trabalhado nas questões emocionais, é das mulheres a carga emocional maior, e delas também, em alguns casos, a responsabilidade de vestir os trajes do herói, que, ao superar suas dores e fatídico destino, ergue seu triste rosto sob uma nova forma trajada de uma luz convicta, enfrenta então o grande oposto do bem que a muito não sentia, em grande parte, esta batalha final não resulta em uma mudança de estado e é ai que vive a grande catarse aristotélica, a mulher então enfrenta sem perspectiva seu destino, mas antes, seus monólogos e diálogos demonstram sempre grande peso de dor frente sua realidade, este é o estilo particular de Eurípides, que, em dado momento, o colocou até mesmo como “machista” por retratar o feminino sempre em estado calamitoso, o que não é, definitivamente, o caso geral, Alceste, que possui um final feliz, prova isto por exemplo.

Aristófanes, que viveu no século seguinte, esboça várias críticas a sua contemporaneidade em relação ao estado da Tragédia. Seu trabalho, “As rãs”,é voltado sobre esta busca pessoal da volta a verdadeira arte deste gênero, onde o autor coloca frente a frente os falecidos Sófocles e Eurípides em uma busca por “qual ideal ira salvar a Tragédia atual”.

Infelizmente não temos como exprimir o quão superficial se tornou as tragédias gregas posteriores a Eurípides, mas tanto já para aquele momento, como os posteriores, Eurípides ganhou então o título de “Ultimo dos Trágicos Gregos”.

Referencias:
NIETZSCHE, Friedrich. Erwin Theodor. A Origem da Tragédia: Proveniente do espírito da música. eBooksBrasil Digitalizado: Editora Cupolo, 1948.
ARISTÓTELES. Edson Bini. Poética. São Paulo: Edipro, Ed 1, 2018.
Ribeiro Jr., W.A. (editor). Hinos homéricos: tradução, notas e estudo. São Paulo, Ed. UNESP, 2010.
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Vitor Guerino

Me chamo Vitor Guerino P. de Oliveira, tenho 24 anos e resido na cidade de São Paulo. Graduando em história e estudante assíduo de filosofia - minha maior paixão - e política, estou sempre presente na vida acadêmica publicando artigos científicos relacionados bem como em seminários e entre outros estudos focados. Minha especialidade mora na História Antiga, bem como sua Filosofia. Sou também cursado em ciências políticas, fluente em inglês e atuo na área de pesquisas. Colunista do jornal Duna Pess.
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