Maçãs nazistas: Holocausto

Maçãs nazistas: Holocausto

O lado hediondo da História que o mundo não pode esquecer, para nunca mais ocorrer

No meio acadêmico (e químico), muitas pessoas já me perguntaram se as maçãs têm veneno em suas sementes, como popularmente disseminado por mídias pseudocientíficas.

De fato, as maçãs podem ser mortais para aqueles que ingerirem suas sementes em grande quantidade. Mas, qual é a relação da maçã com os nazistas, como sugere o título?

O senso comum erroneamente compreende, por definição, que sementes de maçãs têm cianeto “puro” em sua composição.

Em termos de química orgânica, as moléculas [U1] de cianeto (ou nitrilas) são espécies químicas que, em sua composição, apresentam como grupo principal, o ciano (carbono e nitrogênio unidos por uma ligação tripla), representado comumente, em estruturas moleculares, como CN ou C≡N.

Nas sementes das maçãs, podemos encontrar glicosídeos cianogênicos.

Vamos analisar por partes: Glicosídeos são compostos orgânicos formados pela junção de uma molécula de açúcar (certo grupo de carboidrato, como a glicose), que chamamos de glicona; e uma molécula não-açucarada (que não é um carboidrato), que chamamos de aglicona.

Sendo assim, os glicosídeos, formados pela junção das moléculas citadas, têm como característica a alta reatividade com a água, resultando em moléculas de açúcar quando com ela reagem. Eles são usados em refrigerantes, doces e, principalmente, nos adoçantes.

Por lógica, glicosídeos cianogênicos são moléculas orgânicas (conforme já descrito) que apresentam, na aglicona, o grupo ciano. A amigdalina é o glicosídeo cianogênico presente na semente de maçã. É popularmente chamada – ainda que não aceito cientificamente – de vitamina B17.

Veja, abaixo, a estrutura molecular desse composto:

Observa-se nitidamente o grupo ciano (C≡N) na molécula de amigdalina. Ele é liberado por uma série de reações que veremos a seguir: o mecanismo de reação.

Como já mencionado, os glicosídeos cianogênicos têm alta reatividade com a água, que, por sinal, está presente ao longo de todo o nosso trato digestivo: boca, estômago e intestinos. Sendo assim, a reação da amigdalina com a água, juntamente com a ação de enzimas (proteínas específicas  naturais da digestão), aos poucos “desmonta” o glicosídeo. A degradação (“desmanche”) de uma molécula pela água é chamada de hidrólise, e esse processo está ilustrado no esquema abaixo:

Os nomes grifados de verde se referem às enzimas (presentes nas próprias sementes), que aceleram a reação e, portanto, possibilitam que ela ocorra.

Se ingeríssemos sementes de maçãs, o mecanismo se iniciaria: Ao mastigar as sementes, as moléculas de amigdalina começam a sofrer hidrólise, juntamente com a ação da enzima beta-glicosidase (1), se transformando na molécula de prunassina. Essa, por sua vez, continua a sofrer hidrólise com a ação da enzima prunassina hidrolase (2), transformando-se em uma molécula de mandelonitrila, que sofre decomposição por ação da enzima mandelonitrila (ou hidroxinitrila) liase (3), resultando em ácido cianídrico.

O perigo está presente nesta etapa: O ácido cianídrico é altamente volátil, tóxico e, se ingerido (ou no caso, formado no trato digestivo), é rapidamente absorvido e distribuído para os tecidos através da corrente sanguínea. No sangue, o cianeto se liga com o ferro presente nas hemoglobinas, paralisando a cadeia respiratória, uma vez que esse ferro é responsável pelo transporte de oxigênio nesse meio. Dessa forma, a pessoa intoxicada pode apresentar náuseas, vômitos, confusão mental, tonturas, insuficiência renal, taquicardia e paradas cardiorrespiratórias, indo a óbito.

Como visto, esse gás pode ser o produto de degradação das sementes das maçãs, se ingeridas.

Então, a dúvida permanece: o que tem isso a ver com o nazismo?

Os nazistas usavam um pesticida vendido na época, chamado de Zyklon-B, que continha uma alta dose de ácido cianídrico.

O uso da palavra Zyklon (alemão para ciclone, sendo B uma das diferentes concentrações) continua a suscitar vivas reações de grupos judeus. Em 1998 a Siemens, e em 2002, a Bosch Siemens Hausgeräte e Umbro foram forçadas a recuar nas tentativas de usar ou registrar a marca para seus produtos.

O Zyklon B foi desenvolvido em 1924 como um inseticida na Deutsche Gesellschaft für Schädlingsbekämpfung mbH (Degesch). Por ser inodoro, o produto era comercializado, por motivos de segurança, com um odorizador à semelhança de nosso Gás Liquefeito de Petróleo (GLP).

Durante a 2ª° Guerra Mundial, os nazistas usavam o ácido cianídrico, nas câmaras de gás, para matar crianças e idosos judeus, que, segundo a hedionda visão hitleriana, não contribuíam com atividades laborais.

Como visto, esse ácido é muito volátil (evapora com facilidade), ainda mais com o aumento da temperatura.

Sabedores disso, os soldados aumentavam a temperatura nos grânulos do pesticida, que, por sua vez, liberavam vapores de ácido cianídrico, matando todos que estivessem na câmara de gás.

Esse processo dizimou milhares de judeus em Auschwitz (atual região da Polônia: um dos mais nefastos campos de concentração do partido nazista).

Isso quer dizer que “posso” morrer se ingerir sementes de maçã? Sim, mas apenas se for uma quantidade muito elevada.

Vejamos: Dependendo do tipo de maçã, a quantidade de amigdalina em suas sementes pode variar de 1 a 4 mg. Contudo, o cianeto que deriva dela é muito menor, cerca de 0,06 a 0,24 mg. Para uma pessoa de 80 kg, seriam necessárias duas xícaras de chá cheias (mais de 250 sementes, em média) para que a ingestão fosse fatal.

Seja como for, alerto: não faça isso em casa. Por outro lado, não precisa deixar de comer maçã.

Curiosidades ligadas à matéria:

1 – O ácido cianídrico apresenta odor de amêndoas amargas.

2 – Os glicosídeos cianogênicos também são encontrados em outros alimentos, como a mandioca-brava, feijão-trepador, caroço de pêssego, broto de bambu e o sorgo.

3 – Os vegetais cianogênicos podem perder seu potencial de intoxicação por meio da desidratação, e de outros processos químicos.

4. A amigdalina já foi cogitada como medicamento natural para a cura do câncer. Contudo, estudos científicos foram insuficientes para demonstração da eficácia do método, além do ensaio in vitro.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Eis uma das razões sobre o folclore da maçã envenenada, assim como o fato de que conhecimento químico pode promover ou eliminar vidas. As decisões, muito mais do que científicas, são determinadas por ideologias.

Ao final, questionamos, até quando a Ciência se permitirá ser refém de governantes ou dos que pagam contas de suas vaidades? Que a História e verdadeira Ciência tenham, como lema máximo, a pesquisa pela vida. Que os fatos sirvam de lição para aquilo que nunca deveria ter ocorrido e que nunca mais deve ocorrer.


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