História

3. Histórias do Brasil: Um Pedro e as Sementes de um Brasil

Em 1467, enquanto a Guerra de Ônin tinha início no Japão e o sultão Otomano Maomé II, o Conquistador, tentava invadir a Albânia pela segunda vez sem sucesso, nascia em Portugal o bebê Pedro Álvares Gouveia, filho de Isabel Gouveia e Fernão Cabral. O pai de Pedro possuía cargos no governo da região de Belmonte e garantiu uma boa educação ao filho e um acesso à corte portuguesa para onde Pedro foi enviado aos 12 anos de idade, perdendo para sempre o contato com o pai – Em 1492, Fernão seria morto na mal sucedida tomada de Tânger, no Marrocos.

Como bom fidalgo (“filho de algo”) na corte, Pedro trocou o sobrenome da mãe pelo do pai e entrou para história dessa maneira. Pedro Cabral era um sujeito grande – tinha 1,90 de altura –, forte, vaidoso, culto e dado a crises célebres de mau humor. Comandante militar treinado em armas e navegador, foi escolhido por Dom Manuel I em 15 de fevereiro para ser o capitão-mor de uma expedição diplomática e comercial às Índias que, no percurso, “descobriria” o Brasil.

Ninguém sabe exatamente o motivo dessa escolha, exceto por “méritos e serviços” citados no decreto de nomeação, mas a informação sobre quais méritos e quais serviços se perdeu no tempo. Cabral jamais havia comandado uma armada antes e, na frota, constavam navegadores muito mais experientes que ele, como Duarte Pacheco Pereira, Gaspar de Lemos, Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias. Talvez tenha pesado a favor de Cabral alguma dose de reconhecimento pelos serviços de seu pai à coroa portuguesa, quem sabe?

A armada entregue a Cabral contava com 9 naus, 3 caravelas e 1 naveta de mantimentos. Enquanto as caravelas mediam 22 metros de comprimento e transportavam até 80 homens, as naus podiam chegar a 35 metros e tinham capacidade para 150 tripulantes. Segundo Antônio Carlos Jucá, diretor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), as tripulações eram compostas por uma variedade de profissionais: médicos, boticários, religiosos, calafates e até degredados – condenados à morte que aceitavam trocar sua pena capital pelo exílio em terras desconhecidas. Na maioria das vezes, estes eram os primeiros a desembarcar: se fossem atacados por selvagens, não fariam muita falta.

A expedição partiu com cerca de 1.500 homens ao todo, mas apenas 500 completariam a viagem. As condições da vida a bordo eram péssimas: faltava água, comida e espaço, e sobravam baratas e imundície. Com os porões apinhados de mantimentos e munição, os marinheiros dormiam no convés, ao relento, em colchões de palha – e ninguém tomava banho e o lazer era escasso. Quando a fome apertava, os marujos apelavam para os ratos. As coisas eram tão ruins que qualquer um que ficasse doente era orientado a receber logo a extrema unção.

Hierarquicamente, havia o capitão e abaixo dele, o piloto, responsável pela navegação, o mestre e contramestre, que lideravam os marinheiros e o condestável, que comandavam a artilharia. Além de Cabral, Pereira, Lemos, Coelho e Dias, os demais líderes de cada uma das embarcações eram Sancho Tovar, Simão de Miranda de Azevedo, Aires Gomes da Silva, Nuno Leitão da Cunha, Vasco de Ataíde, Diogo Dias, Luís Pires, Simão de Pina e Pero de Ataíde.

Existem relatos imprecisos que o espanhol Vicente Yanez Pinzon partiu de Palos, em dezembro de 1499, e teria chegado ao Brasil em 26 de janeiro de 1500, na altura do Cabo de Santo Agostinho, no atual estado de Pernambuco. Seja isso verídico ou não, antes que Vicente voltasse à Europa, Vasco da Gama retornou de sua viagem às Índias. Com as informações de Vasco e sem ter notícias da aventura de Pinzon, Dom Manuel I organizou a esquadra de Cabral, que zarpou do Porto do Restelo em Lisboa em 9 de março de 1500.

Em 14 de março, a armada passou pelas Ilhas Canárias. Em 22 de março de 1500, ultrapassou o arquipélago de Cabo Verde e abriu para o oeste no Oceano Atlântico, possivelmente devido às instruções de Vasco da Gama para que Cabral desviasse da costa africana para fugir das correntes marítimas contrárias no Golfo da Guiné. Com 8 dias de viagem, enfrentaram sua primeira tormenta e Vasco de Ataíde desapareceu com sua nau que transportava 150 homens, todos engolidos pelo mar.

Em 10 de abril, passaram a 210 milhas de Fernando de Noronha. Em 21 de abril, identificaram sinais de aproximação de terra. No dia seguinte, após aproximadamente 3600 km percorridos em 44 dias de viagem, avistaram o Monte Pascoal, O evento foi anotado por Pero Vaz de Caminha: “(Na) … quarta-feira pela manhã, topamos aves a que os mesmos chamam de fura-buchos. Neste mesmo dia, à hora de vésperas, avistamos terra. Primeiramente um grande monte, muito alto e redondo; depois outras serras mais baixas, da parte sul em relação ao monte e, mais, terra chã. Com grandes arvoredos. Ao monte alto o Capitão deu o nome de Monte Pascoal; e à terra, Terra de Vera Cruz”. Cabral contava então com 32 anos de idade.

A esquadra ancorou ao largo do Monte e Nicolau Coelho foi designado para fazer o reconhecimento do território. Coelho levou consigo Gaspar da Gama – aquele mesmo, resgatado por Vasco e que se tornou seu amigo após alguns dias de tortura – e trocaram presentes com os índios. Na sequência, a esquadra decidiu se movimentar para uma área mais segura – um local que conhecemos hoje como Santa Cruz de Cabrália. Na praia de Coroa Vermelha, Frei Henrique de Coimbra realizou a primeira missa em território brasileiro em 26 de abril, assistida de perto pela tripulação e, ao longe, por cerca de 200 indígenas.

Antes de seguir para as Índias, Cabral e seus homens passaram dez dias no paraíso,  armazenando água, alimentos, madeira e outros suprimentos. No dia 2 de maio, partiram finalmente rumo a Calicute, deixando para trás dois degredados – mas estes não seriam os únicos portugueses “deixados para trás” naquela visita. Na noite anterior à partida, Dois grumetes, cansados dos maus-tratos a bordo, roubaram um escaler e fugiram para a praia. Nunca mais se ouviu falar deles.

 A naveta de mantimentos, comandada por Gaspar de Lemos, foi mandada de volta a Portugal com a missão de comunicar ao rei o “achamento” da nova terra. Além da carta de Caminha, com informações sobre as características e o potencial econômico da nova terra, Gaspar também levou papagaios, arcos, flechas, penas, amostras de terra e provavelmente um índio. Apenas 3 décadas mais tarde os portugueses dariam início à colonização do novo território. Até ganhar o nome de Brasil, o território foi chamado de Ilha de Vera Cruz por Cabral e de Terra de Santa Cruz pelo rei Dom Manuel I.

Nos relatos de Caminha, nenhuma surpresa é relatada quanto a chegada ao Brasil. A controvérsia sobre a intencionalidade do “achamento” de nossas terras teve início em 1849, quando o Imperador Dom Pedro II propôs ao Instituto Histórico Brasileiro que pesquisasse isso. Joaquim Norberto de Souza Silva respondeu ao questionamento do Imperador com um artigo onde defendia que a “descoberta” havia sido inteiramente intencional, ocasionada por informações que a Coroa Portuguesa já possuía.

O fato é que, ao receber as notícias do “achamento!”, D. Manoel I despachou Gaspar de Lemos de volta ao Brasil em uma expedição exploradora, que partiu do Tejo em 10 de maio de 1501 – 5 meses antes do retorno de Cabral – e retornou em 7 de setembro de 1502. A bordo da armada de Gaspar seguia um mercador-cartógrafo, um dos maiores mentirosos e estelionatários culturais de todos os tempos: Américo Vespúcio (1454-1512),

Chegando ao Brasil, a expedição de Gaspar lançou âncoras no litoral do Rio Grande do Norte, e depois seguiu margeando a costa rumo ao sul enquanto o comandante ia batizando os primeiros acidentes geográficos no caminho, que Vespúcio anotava nas cartas. Os nomes escolhidos homenageavam os santos do dia ou as festas religiosas. Justamente no dia 1º de janeiro de 1502, as embarcações alcançaram a boca da Baía de Guanabara, e as tripulações vislumbraram, pela primeira vez, a região que receberia o nome de Rio de Janeiro. Tradicionalmente, acredita-se que o Rio recebeu esse nome porque esse sítio alcançado na entrada da sua barra em 1º de janeiro de 1502.

A tudo isto Vespúcio viu e anotou no seu caderninho. Quando retornou a Sevilha, escreveu várias cartas dando a si mesmo o crédito pela descoberta do “novo mundo”. Em 1507, o cartógrafo alemão Martin Waldseemüller fez seu mapa-múndi baseado nas “navegações de Vespúcio” e decidiu batizar o hemisfério localizado do outro lado do Atlântico de Amerige (terra de Américo), “em honra do sábio que a descobriu”. Em 1538, ao publicar o Orbis Magno, o cartógrafo belga Gerardo Mercator repetiu o erro de Waldseemüller. E foi assim, pela repetição ingênua de uma fraude, que nosso continente terminou recebendo o nome de América.

Voltando a 1500: depois da saída de Porto Seguro, Cabral iniciou a segunda parte de sua viagem. Essa “perna” duraria pouco mais de cinco meses. Na madrugada do dia 23 de maio de 1500, uma tormenta desabou sobre a frota na altura do Cabo da Boa Esperança, afundando quatro dos 13 navios e levando consigo 400 homens – dentre eles, o experiente Bartolomeu Dias. No desastre, a nau de Diogo Dias se perdeu da frota e foi parar no Mar Vermelho (Diogo e a nau seriam encontrado por Cabral um ano mais tarde com apenas sete homens doentes a bordo).

No final de maio, a armada fez uma parada no litoral da Tanzânia; no começo de agosto, no Quênia; e então em Angediva (uma pequena ilha costeira no Mar Arábico), para consertos e reabastecimento. No dia 13 de setembro de 1500, a esquadra, reduzida a seis navios operacionais, enfim chegou a Calecute e Cabral se encontrou com Samorim.

As primeiras negociações foram amistosas. Os portugueses instalaram uma feitoria no local e cederam alguns soldados para missões militares a pedido do Samorim. Contudo, em 16 de dezembro, centenas de mercadores árabes atacaram o entreposto português, matando 50 lusitanos – incluindo Pero Vaz de Caminha. Os sobreviventes retornaram para os navios – alguns a nado – e Cabral aguardou um pedido de retratação do Samorim, que nunca chegou. Em retaliação, atacou 10 navios mercantes árabes, matando 600 tripulantes e confiscando a carga antes de incendiar as embarcações. Durante um dia inteiro, as naus portuguesas bombardearam Calicute. Depois, partiram para o porto de Cochim e então Cananor, onde as trocas comerciais foram mais favoráveis.

Em 16 de janeiro de 1501, Cabral iniciou sua viagem de regresso para Portugal, chegando a Lisboa em 21 de julho. Dois navios voltaram vazios, mas 5 ancoraram completamente carregados. Mesmo com 6 navios perdidos na viagem, as cargas transportadas pela frota geraram lucros para a Coroa Portuguesa que cobriram em duas vezes todos os custos do empreendimento.

A viagem de Pedro Álvares Cabral compete em nível de importância com a viagem de Cristóvão Colombo: sem desanimar pelas perdas sem precedentes, navegando contra tempestades, naufrágios e combates, Cabral cumpriu a missão que lhe foi sido atribuída ao ponto de se poder afirmar que poucas viagens para o Brasil e a Índia foram tão bem executadas como a dele. A expedição deu a Portugal a chance de estabelecer uma colônia na América do Sul, da qual a Civilização Brasileira surgiria. E Cabral também se deu bem com a empreitada: como recompensa por liderar a frota, recebeu o equivalente a aproximadamente 35 kg de ouro, além de várias vantagens comerciais e subsídios mensais polposos.

Na volta da expedição de “achamento” do Brasil, formaram-se facções na corte apoiando Cabral de um lado e Vasco da Gama do outro. Ainda mordido pelo ataque sofrido em Calicute, Cabral fez de tudo para planejar e ser nomeado para a Esquadra da Vingança, mas depois de oito meses de preparativos e desentendimentos com o rei foi substituído pelo navegador Vicente Sodré, tio materno de Vasco da Gama. Vicente faleceria em 1503, na costa de Omã, no naufrágio da caravela Esmeralda (cujos destroços seriam localizados apenas em 1998).

Ao ser preterido na missão de vendetta, Cabral demitiu-se (ou foi demitido) do cargo de capitão-mor e afastou-se (ou mais provavelmente foi afastado) da corte. Casou-se com Isabel de Castro em 1503, mesmo ano em que Gonçalo Coelho partiu para o Brasil em nova expedição exploradora e, como Gaspar de Lemos, também acompanhado de Vespúcio, o falsário.

Cabral e Isabel tiveram 6 filhos e retiraram-se para Santarém em 1509, onde o navegador passou seus últimos anos levando uma vida pacata. Nunca mais voltaria ao mar. Faleceu em 1520, aos 53 anos, e foi sepultado em um túmulo provisório no interior de uma capela na cidade. E aqui reside um mistério:

Quando Isabel faleceu em 1538, o corpo do marinheiro foi exumado e a família Cabral ganhou um jazido definitivo na Igreja da Nossa Senhora da Graça. Todavia, na lápide estavam anotados apenas os méritos de Isabel de Castro e nem uma única palavra sobre as proezas de Pedro Álvares Cabral – uma prova da obscuridade a que Cabral foi submetido nos últimos anos de vida. Este túmulo permaneceu no esquecimento até 1839, quando foi redescoberto pelo historiador brasileiro Francisco Adolfo de Varnhagen. O estado de miséria do local quase provocou uma crise diplomática entre Dom Pedro II e D. Maria II – irmã mais velha de Pedro II e então rainha de Portugal.

Em uma investigação conduzida em 1882, na tentativa de se confirmar a presença do marinheiro na tumba, foram identificadas duas ossadas masculinas e uma feminina (provavelmente, o terceiro esqueleto pertencia a um dos filhos do casal que morreu pouco depois do pai), além do esqueleto de uma cabra.

Em 1903, o jazigo da Igreja da Graça foi reaberto por investigadores brasileiros. Desta vez, encontraram ali dentro os restos de 8 corpos: cinco ossadas masculinas, uma feminina e duas de crianças. Não foram relatadas mais cabras.

Apesar de não ter sido oficialmente autorizada qualquer translação, os pesquisadores usaram os ossos para formar dois esqueletos completos, deixando 1 em Portugal e trazendo outro para o Brasil, que foi depositado na Igreja do Carmo, a antiga Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro – mas só Deus sabe exatamente quem está enterrado aonde nessa mistura toda.

Em Portugal, Cabral sempre foi – e continua sendo tido como – um explorador de segunda categoria devido à vasta sombra da fama de Vasco da Gama. Sem embargo, devemos a Cabral o plantio derradeiro em nossa terra da semente que viria a ser o Brasil, onde quer que seus ossos estejam.

Imagem em destaque: Google sites Mansat


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