Saudável não quer dizer seguro !

Saudável não quer dizer seguro !

“Na ocasião em que leite contaminado com salmonela chegou às manchetes, um engarrafador (de Coca-cola) aconselhou: ‘Diga a seus clientes para cortar o leite da dieta e tomar Coca-Cola. Eles terão razoável certeza de obterem uma bebida pura, preparada de maneira higiênica’.

Já em 1909 uma indústria engarrafadora e filiada da empresa Coca-cola Company anunciava com orgulho e altivez, frente ao surto de contaminação do leite com a bactéria salmonela, que seu produto engarrafado Coca-Cola era mais seguro que o leite produzido e consumido nos Estados Unidos.

Toda essa aparente arrogância ao comparar um  simples refrigerante com um alimento rico nutricionalmente como o leite parece puro marketing comercial sem sentido e exagerado, mas existe verdade nesta alegação marketeira.

O leite

O leite, por ser produto natural e por conter diversos nutrientes como proteínas, gordura, açúcar, vitaminas e minerais, é apreciado tanto por seres humanos quanto por microorganismos, isso o torna susceptível à contaminação por bactérias e fungos que estragam o alimento, ou pior, por outros agentes que causam doenças (microorganismos patogênicos, como a perigosa Escherichia Coli) nos consumidores.

Exatamente por ser natural em sua composição, isto é, não formulado ou alterado pelo homem, o leite pode ser um produto perigoso quando mal manipulado e tratado, podendo acarretar diversas doenças quando é ingerido.

Infelizmente a presença de agentes patogênicos não é normalmente perceptível ao consumidor, pois eles podem estar presentes no alimento mas não causarem alterações na cor, sabor ou aroma do produto. São os microorganismo deteriorantes como fungos e bactérias que alteram a composição dos alimentos e causam a aparência, cheiro e gosto desagradáveis.

A falta ou inadequada manipulação e higiene no processamento do leite desde a granja leiteira até o consumidor pode causar sérios riscos à saúde e até intoxicações e mortes. Tratamentos para evitar isso como a utilização de métodos com uso de calor, como a pasteurização, são eficazes para eliminar os agentes causadores de doenças.

E o refrigerante ?

Refrigerante do tipo mencionado possui basicamente água, açúcar e substâncias em menor concentração como aromas, ácido fosfórico e gás carbônico, esses últimos adicionados para conservar e dar melhor sensação e sabor do produto. Bebidas como refrigerantes são elaborados pela mistura de ingredientes, e são conscientemente formuladas e tem sua composição racionalmente controlada para se conservarem e não ficarem susceptíveis para o crescimento e multiplicação de microorganismos contaminantes dentro de um longo período de tempo.

Nutricionalmente a bebida não possui qualidades desejáveis, sendo somente fonte de energia pela presença de açúcar. Os demais ingredientes são usados dentro dos limites estabelecidos legalmente e não causam riscos a saúde do consumidor.

Uma empresa milionária como a Coca-cola Co. já em 1909 possuía uma reputação de empresa respeitável e confiável. Era literalmente adorada pelos americanos nos quatro cantos do país e possuía um nome, fama e capital social a ser preservado. O trabalho para se chegar a tal nível de adoração pelo consumidor como a marca alcançou é multiplicado para se manter neste nível, e é isso que a empresa se orgulhava e orgulha-se até hoje.

Mas a questão levantada pela resposta da engarrafadora trata de segurança dos produtos. Então é necessário entender melhor o que é um alimento seguro.

Alimento seguro

Um alimento seguro é aquele em que os perigos são controlados a fim de que ele não apresente riscos ao consumidor. Perigos são próprios dos alimentos, cada alimento tem um maior ou menor perigo, quanto a isso nada se pode fazer, mas estes perigos podem ser controlados e minimizados.

Tratamento e processamento adequados, como o uso de tratamentos térmicos e dentro das normas de higiene, como são feitos no leite, tem o objetivo de reduzir os perigos.

Podemos dizer que o leite é um alimento nutritivo, mas não obrigatoriamente seguro. Se não passa por um processamento adequado (filtração, aquecimento, clarificação, refrigeração) que garanta sua inocuidade (controle de perigos químicos, como toxinas; perigos físicos, como fragmentos de metal; e perigos biológicos, como presença de bactérias e parasitas) ele pode apresentar um elevado risco ao consumidor.

Um refrigerante de qualquer natureza deve ser produzido dentro de regras de segurança, seus componentes são precisamente adicionados e estão em quantidades conhecidas e pensadas para não apresentarem risco.

Como a bebida é formulada pelo produtor ela também poderia ser um alimento nutritivo, já que ela pode ser adicionada de vitaminas, minerais, fibras, proteínas, e qualquer outro nutriente que se queira, e ter também seu teor de açúcar reduzido. Os refrigerantes não são elaborados como nutritivos devido a fatores como: o público alvo e a forma de consumo dos mesmos. O consumo deles é recreativo, e não como parte fixa de uma dieta diária. Além disso o preço de uma garrafa não seria de somente alguns reais se estivesse adicionado de tantos nutrientes que representariam custos adicionais para o produtor e elevaria muito o preço. E, por fim, quem trocaria uma bebida para fins nutricionais como um suplemento alimentar por outra que mesmo adicionado de nutrientes possuísse o nome pejorativo de refrigerante ?

A verdade inconveniente

Nessa situação, podemos afirmar que o leite por não poder ser adicionado de ingredientes ou alterado, (e continuar a ser chamado de leite, pois, caso fosse, mudaria de denominação para, por exemplo, bebida láctea), é certamente nutritivo, porém, não necessariamente seguro. Já um refrigerante é feito para ser seguro, mas não é normalmente nutritivo.

Ao contrário da ideia equivocada de que tudo que é natural faz bem e o que é artificialmente produzido pelo homem é ruim e maléfico, na realidade, principalmente se tratando de alimentos (no aspecto da segurança para o consumo), é o inverso disso.

Os microorganismos contaminantes e as toxinas produzidas por esses são naturais, (não originados da interferência do homem), enquanto que o tratamento e processamento que elimina esses perigos são artificiais. É certo que seres humanos (e os demais seres vivos) também podem ser fonte de contaminações quando manipulam ou usam instrumentos sem a higiene adequada. Mas novamente a premissa do natural como perigoso é verdadeira, pois os microrganismos presentes na pele do homem, do animal e nos objetos, estão lá não propositalmente mas porque eles são originários do meio ambiente, que é a fonte natural deles.

Mesmo o local considerado mais seguro para o consumo, a sua própria casa, com seus próprios ingredientes e utilizando suas próprias mãos e utensílios, não é exatamente o que pensamos. De acordo com os dados do Ministério da Saúde no período de 2000 a 2015 os surtos de doenças transmitidas por alimentos consumidos na residência representou 38% dos casos registrados, enquanto que alimentos industrializados sequer aparecem mencionados nas estatísticas.

Devido a raridade de surtos envolvendo a atividade profissional e especializada da indústria, quando um caso de contaminação ocorre dentro de um estabelecimento industrial a repercussão é enorme, enquanto que uma diarréia infecciosa causada por E. coli em uma feijoada de fim de semana na casa dos amigos não costuma ganhar as manchetes.

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