fbpx
EconomiaPolítica

Petrodólares, a história do ouro e do dólar como moeda de reserva do mundo

Compartilhar

Inspirado no livro “ The Dollar Crisis: Causes, Consequences and Cures ” de Richard Duncan e influenciado pelo que temos presenciado recentemente em relação a políticas monetárias sem precedentes (em todo o mundo, mas principalmente nos EUA). A China e a Rússia unidas com grandes parceiros mundiais e atomicos formam um novo bloco de Formação de um novo sistema financeiro.


Parte I – a história do ouro e do dólar como moeda de reserva do mundo

Como funcionava o comércio internacional na Europa Moderna

Durante a transição do mercantilismo para o modelo de livre comércio – momento histórico que coincide com o fim das guerras napoleônicas por volta de 1875 – prevaleceu o padrão ouro clássico. Se a Inglaterra tivesse um grande déficit comercial com a França, por exemplo, a Inglaterra teria enviado ouro para a França para pagar esse déficit. Como consequência, a oferta monetária da Inglaterra teria se contraído, o que significaria menos dinheiro na economia e, por sua vez, teria causado recessão severa e, eventualmente, deflação. O contrário teria acontecido na França. A economia francesa teria crescido, com mais dinheiro e mais crédito, seguido por taxas de emprego mais altas e, finalmente, mais inflação. Como o aumento dos preços reduziria a competitividade da França, eles começariam a comprar produtos ingleses mais baratos – então as importações aumentariam e as exportações seriam reduzidas, de modo que as reservas de ouro da França começariam a cair. Em contraste, como resultado, o comércio entre esses dois países teria voltado ao equilíbrio novamente (o que Richard chama de mecanismo de ajuste automático). Portanto, há duas grandes lições aqui: o ouro era o único dinheiro e os grandes desequilíbrios comerciais eram insustentáveis ​​e autocorrigíveis.

Figura 1: Balança de Pagamentos do Reino Unido

O fim do padrão ouro

Quando a Primeira Guerra Mundial estourou em 1914, as economias europeias não tinham ouro suficiente para financiar os altos custos da guerra. Para resolver esse problema, as Grandes Potências européias passaram a imprimir “moeda” em papel e emitir dívida, deixando para trás o compromisso de converter suas moedas em ouro a uma taxa fixa – ou seja, abandonando o padrão-ouro. A era do crédito do governo decolou. De 1913 a 1920, os gastos do governo da Alemanha cresceram 70% ao ano, em média, ou quase 1400% (acumulados) nesse período. França, Reino Unido e EUA também experimentaram essa mesma tendência. Resumindo (você pode encontrar detalhes preciosos no livro de Richard), todo esse “dinheiro” de papel e dívidas criadas para financiar a guerra alimentaram um boom econômico mundial por volta da década de 1920, também conhecido como “Roaring Twenties”. Na década de 30, como esperado, esses valores da dívida não puderam ser pagos, que levou ao colapso do sistema monetário global, do sistema de comércio internacional e do comércio global. O mundo entrou em uma profunda e duradoura depressão. Como Lionel Robbins colocou sabiamente em seu livro “A Grande Depressão” de 1934,“Concordam-se que, para evitar a depressão, o único método eficaz é evitar o boom” .

Figura 2 – Despesas totais do governo (1900-32)

As causas da Grande Depressão nos Estados Unidos

Dado que os EUA foram o maior fornecedor de materiais de guerra de 1914 a 1917, as reservas de ouro do país aumentaram 64% durante esse período. Uma vez que os Estados Unidos entraram na guerra, em 1917, no entanto, eles começaram a aceitar a dívida do governo como pagamento por seus suprimentos, e seu superávit comercial continuou a se expandir, mas desta vez não acompanhado por quantidades proporcionais de ouro. Como resultado, os EUA testemunharam um aumento em sua base de crédito, que dobrou de 1914 a 1920, o que impulsionou sua produção de bens industriais e duráveis ​​em mais de 200%. Provocou uma situação de superoferta geral em 1926, que causou uma severa deflação na economia americana. Quando a economia real não foi mais capaz de investir lucrativamente o excesso de liquidez em plantas industriais devido ao excesso de capacidade, quantias crescentes de dinheiro foram transferidas para os mercados de ações. Anos depois, como o crescimento dos lucros não conseguia acompanhar o ritmo do mercado de ações, a bolha estourou. Os preços das ações despencaram, o PIB contraiu 45%, as falências se multiplicaram e uma crise bancária surgiu quando 1/3 dos bancos americanos desapareceram. E como eles reagiram a essa crise? Adivinha? O governo dos EUA aumentou seus gastos em 900% dos anos 30 aos 40 para lutar contra a depressão. Durante essa década, a Alemanha conquistou a Europa, enquanto o Japão assumiu a maior parte da Ásia, e a Segunda Guerra Mundial começou.

Figura 3 – Dow Jones Industrial (1910-1940), Preço médio, fechamento mensal

O sistema de Bretton Woods (1944 a 1971)

Nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, o sistema de Bretton Woods foi criado na tentativa de evitar que os países desvalorizassem suas moedas para obter vantagens no comércio, estabelecendo assim o dólar americano como moeda internacional. Poderia ser visto como um substituto próximo para o padrão-ouro, já que o valor do dólar era lastreado por reservas de ouro (a US$ 35 por onça), e todas as outras moedas principais estavam atreladas ao dólar a taxas fixas. Durante os anos 60, no entanto, os EUA começaram a testemunhar uma deterioração em seu balanço de pagamentos, especialmente por causa dos gastos militares do Vietnã e do aumento da internacionalização dos bancos americanos para a Europa. Dessa forma, uma grande quantidade de dólares americanos havia deixado o país naquela época, e os países estrangeiros gradualmente começaram a converter seus dólares em ouro. Na segunda metade dos anos 60, no entanto, os EUA perderam metade de suas reservas de ouro e, nos anos 70, havia 4 vezes mais dólares no exterior do que os EUA tinham ouro disponível para convertê-los em commodity. Richard Nixon, para evitar uma recessão que arruinaria suas chances de reeleição, suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro em 1971. Em 1973, as principais potências comerciais concordaram em permitir que suas respectivas moedas flutuassem livremente umas contra as outras. O sistema de Bretton Woods estava oficialmente encerrado. as principais potências comerciais concordaram em permitir que suas respectivas moedas flutuassem livremente umas contra as outras. O sistema de Bretton Woods estava oficialmente encerrado. as principais potências comerciais concordaram em permitir que suas respectivas moedas flutuassem livremente umas contra as outras. O sistema de Bretton Woods estava oficialmente encerrado.

Figura 4 – Preço Médio do Ouro (1930-2018)

O que aconteceu depois? A estagflação dos EUA e a bolha do Japão!

O primeiro choque do petróleo, em 1973, foi fortemente influenciado pelo fim do sistema BW. Os preços do Petróleo não poderiam ter triplicado se eles não tivessem ouro suficiente para comprar a commodity, simples assim. Nenhum keynesiano poderia imaginar que os Estados Unidos experimentariam CPI de dois dígitos, desemprego de dois dígitos e recessão ao mesmo tempo no início dos anos 80, mas foi o que aconteceu. Consequentemente, os negócios dos EUA começaram a ficar desequilibrados pela primeira vez na história da América. Nos anos 80, o déficit dos Estados Unidos era superior a 3,5% do PIB (hoje é ainda pior, cerca de 4,5%), e a maior parte desse déficit era com o Japão, que recebia grandes quantias de dólares americanos. No Japão, esses dólares americanos foram para bancos de depósitos, se transformaram em crédito e resultaram em um boom de crédito. Em 1989, o índice de ações japonês estava sendo negociado a múltiplos de 100x PE, os preços dos imóveis dispararam. Esse padrão de entradas extraordinárias de capital estrangeiro levou a empréstimos acelerados e investimentos excessivos, seguidos por bolhas de ativos e, eventualmente, o colapso econômico se repetiu por toda a Ásia de meados dos anos 80 aos anos 90. E o “milagre econômico” acabou sendo mais uma bolha de crédito.

Figura 5 – Crédito Interno do Japão como % do PIB (1970-89) 

O surgimento da China na década de 1990

Após a reforma econômica de Deng Xiaoping nos anos 80, a China entrou no comércio internacional global com sua força de trabalho extremamente barata. Os EUA rapidamente se tornaram um importante parceiro comercial da China e, não surpreendentemente, o déficit comercial dos EUA começou a disparar novamente, depois de ter experimentado um status mais equilibrado na década de 1990 (como o “G-5” na época fez um acordo para desvalorizar o dólar ). Atualmente, a China tem o maior superávit comercial de qualquer país em relação aos EUA, cerca de US$ 300 bilhões de acordo com os últimos números anualizados. E para evitar que sua moeda se valorize, adivinhem? Em vez de trocar esses dólares por sua própria moeda, o que aumentaria o valor de sua moeda e tornaria as exportações chinesas menos atraentes, eles compram títulos do Tesouro dos EUA, títulos corporativos, ações americanas. À medida que esses dólares retornam aos EUA,

Figura 6 – Comércio de Bens dos EUA com a China (2000-2018), em Mn


Parte II – A origem e o modo como o sistema petro dólar funciona

O que é petrodolar? Em suma, este é um “apelido”para um ativo financeiro de alto valor. Muitos estudiosos de geopolítica afirmam que se tem algo que pode definitivamente desencadear uma terceira guerra mundial, é a corrida desenfreada pelo petro dólar, liderada e arquitetada determinantemente pelos estados Unidos. Não é a toa que nações como o Irã, a China, a Rússia e a própria Síria tem sofrido ameaças Norte-americanas nos últimos anos. Notícias cada vez mais graves tomam conta dos noticiosas, e as últimas envolvem uma tentativa dos Estados Unidos de criarem ainda mais atrito com Iran, através de porta-aviões enviados para o estreito de Ormuz no golfo Pérsico. Entender as razões e o contexto de todos os eventos e principalmente das atitudes dos Estados Unidos, passa por compreender a importância do sistema petrodólar.

O apoio do petróleo ao dólar

O significado de petrodólar: Basicamente, o que ocorre é que toda a compra ou venda de petróleo do mundo é feita em dólares. Isso faz com que a moeda ganhe ainda mais posição de hegemonia e super privilegia os Estados Unidos, dando-lhe poder, por exemplo, de impor sanções a países que vão na contramão de seus interesses. Atualmente o dólar possui suporte do petróleo e não mais do ouro, como foi no passado. Não é à toa também que os Estados Unidos, mesmo possuindo tantos débitos, empréstimos a pagar, e altas dívidas, consegue se manter no poder.

Como pode, uma economia baseada em bens de consumo possuir uma riqueza tão grande? A resposta está no uso do dólar como a moeda que comercializa o petróleo. Vamos ressaltar que o petróleo atualmente é a base de basicamente tudo no mundo atual. E sua demanda está longe de ter fim. por essa razão, enquanto a procura for sem limites, e enquanto o petróleo for comercializado em dólares, todos os países desejam possuir altas quantidades da moeda, e é exatamente isto que lhe agrega tanto valor. Esse é o petrodólar explicado.

O possível fim do petrodólar

A China anunciou esse ano novos contratos com grandes volumes, que serão liquidados em iuan e não mais em dólar. O Irã também não está mais utilizando a moeda. É perceptível um movimento anti- petro dólar, já que novas potências mundial tem se levantado e também quer começar a  ditar as regras, até então, estabelecidas na maioria das vezes pelos Estados unidos e seus interesses. Outros países como o Japão, já tinham desafiado a Bolsa de valores Norte-americana anteriormente.

Porém a China pode ser a forte mais capaz para realizar essa função no momento, já que é a maior produtora de óleo no mundo, e conta com o apoio da Rússia, além do Iran, que junto com o Qatar é o maior produtor de gás natural do mundo. Por esses e outros fatores, cada vez mais o assunto do fim do petrodólar tem sido abordado pelos estudiosos de economia.

Definição de petrodólar

O termo em que consiste o petrodólar representa a quantidade de moeda estrangeira, (e neste caso o dólar Norte-americano) que é resultado da exportação, como aponta a Organização dos países Exportadores. A expressão petrodólar começou a ser utilizada na década de setenta, quando houve a crise do setor petrolífero. Em razão da crise, os países que possuíam um bom volume de petróleo elevaram o seu valor, já que existia mais demanda do que oferta no mercado, e com o aumento do preço, os países passaram a lucrar ainda mais.

Esse fenômeno gerou um aumento contínuo do fluxo de moeda (dólar) entrando nestes países exportadores de petróleo. Como muitas economias internas não eram tão desenvolvidas ou expandidas, tais nações começaram a fazer o uso das moedas dentro do setor financeiro internacional. E a consequência dessa ação foi o aumento da liquidez dentro do mercado.

Conclusões/reflexões

  1. Desde o colapso do sistema de Bretton Woods, temos assistido a persistentes desequilíbrios comerciais entre parceiros comerciais internacionais, que historicamente culminaram em booms de crédito e, posteriormente, inflação nos preços dos ativos seguida de bolhas de ativos (que eventualmente explodem!);
  2. Essa inflação nos preços dos ativos financeiros contribuiu para criar o “efeito riqueza”, que acaba por aumentar a confiança entre os ricos e, eventualmente, incentivá-los a consumir mais e investir mais em ativos líquidos;
  3. Portanto, a impressão de papel-moeda e os booms de crédito não apenas criam bolhas de ativos, mas ampliam a lacuna de desigualdade na sociedade, pois a “rua principal” continua enfrentando as terríveis consequências de uma crise econômica (principalmente o desemprego) enquanto a “wall street” lucra com aquele;
  4. A inflação dos preços dos ativos na última crise econômica não foi seguida pela inflação na economia real principalmente por causa da globalização, que por sua vez ajudou a estimular a deflação ao invés da inflação (especialmente com o surgimento da China como um fornecedor global barato).

Com tudo isso levado em consideração, minhas perguntas finais seriam:

a. Como consertar esse sistema falho de “creditismo sobre o capitalismo” em uma época em que não há mais ajustes automáticos? O ouro era um guardião muito eficiente antes dos anos 70, mas não temos mais as ferramentas a nosso favor. Eu realmente temo as consequências das recentes medidas inéditas dos Bancos Centrais em geral (que, claro, acabam sempre sendo arcadas pelo contribuinte). Evitar crises econômicas é tão artificial quanto imprimir dinheiro do nada.

b. Como os EUA podem evitar a inflação em sua economia se avançam com a guerra comercial com a China? É claro que esses dois países vivem de forma simbiótica hoje em dia, mas quando a China começar a migrar de uma economia baseada no investimento para uma economia baseada no consumo, a dependência do mercado interno dos EUA começará a enfraquecer. Essa ameaça fica ainda maior se levarmos em conta que a China está se afastando progressivamente das transações em dólares. Não tenho ideia de qual será a próxima moeda base global, eu acredito que será ouro ou moedas digitais.

Fontes de pesquisa: The Dollar Crisis: Causes, Consequences, Cures – Investir Hoje – Eh net encyclopedia Economic History Association

Ver também: A História Econômica da Noruega

Print Friendly, PDF & Email

Paulo Fernando de Barros

CEO em BAP Duna Gruppen, fundador e editor em Duna Press Jornal e Magazine.
Botão Voltar ao topo
Translate »