Paradoxos Teológicos: Onisciência x Livre Arbítrio!

Paradoxos Teológicos: Onisciência x Livre Arbítrio!

“Tudo é previsto, e mesmo assim é dada a liberdade de escolha

                Pirkei Avot – III-15.

É bem verdade que os atributos divinos de Deus são infinitamente misteriosos, e impossíveis de serem mensurados pelas faculdades humanas, porém as escrituras nos revelam vários fragmentos da natureza divina, sendo o Senhor onipotente, onipresente e onisciente, porém existem paradoxos que vem de encontro com os atributos divinos, no qual o cristão não buscando compreender tais disparates, ignorando a questão vive com a pergunta assolando em sua mente, ou acaba aceitando a teoria de terceiros, sem nem ao menos realizar a busca pela resposta, correndo o risco de acatar uma tese errônea por indução de terceiros.

Neste sentido, um dos paradoxos teológicos que mais divide opiniões e gera dúvidas nos fiéis está relacionado a onisciência de Deus em contraponto ao Livre Arbítrio humano. Pois afinal, se Deus conhece nossos pensamentos e os atos que iremos praticar até o nosso último dia na terra, como poderia o ser humano estar livremente exercendo suas vontades sem estar cumprindo um script previamente planejado por seu criador?

O grande cerne do paradoxo está acerca da afirmação de que “se nada que acontece na vida é por acaso, Deus está no controle e consciente de tudo, coisas boas e coisas ruins. Como poderia o ser humano tomar suas decisões por livre escolha sem estar sendo induzido por uma vontade divina?” O ser humano realmente tem o poder de escolha, ou meramente cumpre um roteiro?

Analisando-se como fonte primária as escrituras, é possível observar em Gênesis 3:15, Deus fala para a serpente: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Em uma clara demonstração da intervenção divina na manifestação da vontade dos seres, compreendendo-se que em decorrência da natureza humana ser falha e inclinada ao pecado, Deus não entregou ao homem uma integralidade arbitral, sendo desta forma uma liberdade nas escolhas condicionada a uma influência na tomada de decisões e consequência destas previamente planejada por Deus. Podendo portanto o homem facultar por suas decisões, porém com Deus lhe enviando sutis sinais de sua vontade, dando ao homem em decorrência de sua inclinação para o mal, um livre arbítrio limitado, como mostrado em Romanos 7:19: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço”.

E se Deus tem um plano para uma pessoa, e aquela pessoa, gozando de seu livre arbítrio, dá as costas para aquilo que Deus lhe ordenou, seja por resistência ou por desobediência, mesmo assim, a vontade de Deus estaria sendo cumprida?

O filósofo francês Jean-Paul Sartre afirma que: “A escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo!” Neste sentido, não ter escolha também é uma escolha, e o ato de resistir a uma vontade divina pode simplesmente fazer com que o caminho no qual segue-se em negação acabe por tornar possível a concretização da vontade divina, como a história de Jonas que tentou esquivar-se do chamado de Deus, porém toda sua trajetória o levou ao seu destino. Gerando uma dúvida paradoxal semelhante a dúvida do personagem Neo do filme Matrix de 1999, na cena onde o Oráculo lhe diz para não se importar com o vaso, e segundos depois Neo derruba um vaso, e é corroído pela dúvida de que, se o Oráculo não lhe alertasse, ele teria derrubado o vaso?

Mas, se Deus dá a escolha ao homem, como pode Ele saber os dias vindouros deste, sem constranger sua liberdade individual?

Neste sentido, em oposição ao calvinismo extremo, que nega a total autonomia humana em tomar suas decisões, as escrituras revelam que as escolhas do homem podem ser guiadas, porém é facultado ao ser humano tomar as decisões, como mostrado em Josué 24:15, onde Deus permite aos homens que adorem a outros deuses. Assim sendo, é permitido pela vontade divina a prática de atos contra Deus, bem como pela misericórdia e graça divina, todos são remidos e salvos pelo arrependimento.

O Salmo 139:16, demonstra a ciência de Deus, ao sondar e conhecer os dias vindouros do homem, e em Salmo 147:5, é dito que o entendimento de Deus é infinito. E o fiel na balança no paradoxo entre a onisciência e o livre arbítrio é proposto através do Molinismo, doutrina proposta em 1588, pelo jesuíta Luís de Molina, onde é defendida a existência de um concurso divino simultâneo não precedente ao exercício da própria ação, ou seja, a cada ação livre praticada pelo homem, Deus já contemplou e planejou o desencadear de todas as escolhas dentro do universo de possibilidades, e a cada passo tomado pelo homem, pois a existência de Deus transcende a linearidade temporal no qual os humanos estão sujeitos, estando portanto a consciência de Deus simultaneamente no passado, presente e futuro, um conceito de difícil compreensão, mas que é bem explanada na série da HBO Watchmen, de 2019, onde o personagem Dr. Manhattan, tem sua consciência simultaneamente no passado, presente e futuro, e por isso vislumbra acontecimentos do futuro influenciarem no passado.

Em suma, a onisciência divina não afeta a liberdade de escolha do homem, em decorrência da transcendência atemporal de Deus, que permite sua existência além da linearidade temporal, por isso não existe contradição e nem mesmo incompatibilidade entre a Onisciência de Deus e o Livre Arbítrio do homem, sendo possível a coexistência dos dois fatos, bem como até mesmo a onisciência contribuir para que Deus sabendo das consequências de cada ato praticado pelo homem, induza este a tomar as escolhas mais benéficas, e também aquelas que o guiarão por sua jornada de encontro pleno com seu Criador.

Referência Bibliográfica:

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