Por que a Agricultura critica o Guia Alimentar ?

Por que a Agricultura critica o Guia Alimentar ?
Porto Alegre, RS - 25/03/2015 Ministério da Saúde divulga novo Guia Alimentar para a População Brasileira Foto: Júlia Molina/Divulgação PMPA

Recentemente a imprensa noticiou a crítica do Ministério da Agricultura sobre o Guia Alimentar da População Brasileira, 2ª edição de 2014, produzido pelo Ministério da Saúde, que trata das orientações e informações para promover uma alimentação saudável.

A divulgação de um documento interno que vazou do Ministério da Agricultura assinado por um diretor do ministério, mostrou as preocupações do órgão quanto as considerações no tocante a pecuária e outros pontos do Guia relacionados a competência do órgão.

O Ministério da Agricultura tem razão de criticar o Guia

Dentro dos questionamentos do Ministério da Agricultura exposto no documento interno, duas principais questões foram colocadas contra a publicação:

  1. O Guia informa que: “a diminuição da demanda por alimentos de origem animal reduz notavelmente as emissões de gases de efeito estufa (responsáveis pelo aquecimento do planeta), o desmatamento decorrente da criação de novas áreas de pastagens e o uso intenso de água.”

Essa afirmação, apesar de ter virado senso comum, está equivocada. Conforme vemos na explicação do Agrônomo Xico Graziano, escritor do livro Agricultura: fatos e mitos. Fundamentos sobre um debate racional sobre o Agro Brasileiro. Nele o autor explica como funciona o ciclo de dois gases, CO2 e metano, na natureza:

Estima-se que, no mundo todo, a emissão de gases de efeito estufa advinda do rebanho bovino represente cerca de 9% do fenômeno global da mudança de clima.

Na metodologia (…), considera-se a quantidade total de metano “entérico” expelida (arrotada) pelo gado, sem levar em conta, ou seja, sem descontar, o carbono fixado, por fotossíntese, nas pastagens ou aquele carbono existente na ração. (…) pois o carbono expelido, como metano, pela eructação bovina (arrotos) foi, anteriormente, retirado da atmosfera. (…)

(…) o bovino emite em torno de 1.800 kg de CO2eq. Um segundo sistema com o mesmo animal em um bom pasto, bem manejado, é possível sequestrar, por meio da pastagem, 3.600 kg de CO2eq por hectare/ano. Resulta, assim, uma taxa positiva de 1.800 kg de CO2eq retirados da atmosfera(…)

E quanto às pastagens que seriam resultado da derrubada da floresta para servirem de alimento para o gado, o autor acrescenta informações sobre o sistemas integrados de produção, como a Integração Lavoura-Pecuária, ecologicamente sustentável, que faz parte do Plano ABC: Agricultura de Baixo Carbono:

As pastagens, quando bem manejadas, sequestram carbono acumulando-os em seus tecidos, especialmente nas raízes. Sistemas de produção pecuário podem, portanto, contribuir de forma positiva para combater mudanças de clima.

havia 2,6 milhões de hectares ocupados com sistemas integrados de produção, no Brasil, em 2007. Em 2016, essa área havia se elevado para cerca de 11,5 milhões de hectares. Mostra um crescimento de 342% em 10 anos de implantação. (…) estima, até 2020, que a área ocupada com sistemas integrados de produção chegue a 19,3 milhões de hectares.

2. O Guia determina que a alimentação inadequada com certos alimentos, especialmente com os “ultra-processados” causa danos a saúde, pois eles fazem parte de uma alimentação desbalanceada. Sobre esta afirmação o documento apenas mostrou que ela é contraditória com o próprio conteúdo do Guia, pois lá existe a afirmação de que “com exceção do leite materno nos primeiros seis meses de vida, nenhum alimento sozinho proporciona aos seres humanos o teor de nutrientes que seu organismo requer.

Então, logicamente, não só os alimentos ultra-processados, como também o leite , os cereais, as frutas, os legumes… individualmente não são suficientes nutricionalmente, pois nem esses, e também nenhum outro alimento de um só tipo, possui todos os nutrientes em quantidades adequadas para suprir as necessidades humanas. 

O objetivo do Guia Alimentar não é alcançado

O Guia visa orientar profissionais e cidadãos comuns, além de direcionar ações de garantia do direito a alimentação saudável. Mas ele atualmente carece de conhecimento adequado sobre a moderna  tecnologia de alimentos, causando distorções nas suas orientações e nos seus conceitos. Supervaloriza o antigo e tradicional e condena o moderno, confunde agricultor familiar como sinônimo de agricultor orgânico, ignora os atuais programas e ações promissoras de preservação do meio ambiente associado a pecuária e ao cultivo intensivo de grãos, condena a priori sem embasamento técnico-científico, o uso de pesticidas, fertilizantes e melhoramento genético, entre outros diversos equívocos.

O Guia também é contraditório em seu conteúdo inicial frente ao conteúdo posterior do mesmo. Dois princípios anunciados no inicio da publicação se destacam nesse conflito: 1) Recomendações sobre alimentação devem estar em sintonia com seu tempo e; 2) Garantir a liberdade do consumidor para fazer suas escolhas.

No Guia nenhum alimento que se adequa a vida moderna (mais dinâmica, apressada e com menos tempo disponível) é recomendado, só há recomendações contrarias a isso: preparação e consumo feitos em casa, consumo de alimentos in natura e frescos como base da alimentação, entre outras recomendações do tipo.

Quanto a liberdade de escolha do consumidor, ela é limitada nas orientações, pois anuncia que deve-se dar liberdade de escolha, mas somente dentro das opções que se diz que são boas, e não entre todas que existem. Isso não é liberdade de escolha, então, é apenas direcionamento de escolhas (você pode escolher qualquer coisa, menos as que eu digo que não pode).

Assim, o objetivo de suprir de informações e orientações para que o público alvo tenha um correto entendimento e consiga os meios de fazer suas melhores escolhas não esta sendo alcançado.

Mas a confusão e as imprecisões não param ai. Vamos continuar nos próximos artigos a apresentar as falhas e falsas informações anunciadas pelo Guia, e que prejudicam muito a sua consideração por parte das empresas e consumidores, assim como dificulta o correto entendimento das questões importantes sobre alimentação.

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