Guia Alimentar da População Brasileira é confuso.

Guia Alimentar da População Brasileira é confuso.

Porque o Guia Alimentar é confuso

A nova polêmica (sempre deve haver uma para substituir a outra que já foi esclarecida e deixou de ser interessante noticiar), que dividiu opiniões entre órgãos de governo, entre associações e profissionais, trata-se do conteúdo do Guia Alimentar e sua a forma de classificar os alimentos em categorias.

O Guia classifica os alimentos em quatro classes, essa classificação é denominada de NOVA, e nele cita-se exemplos de cada uma:

-Alimentos in natura: Ex., legumes, frutas, verduras, mandioca, batata, arroz, carnes, sucos de fruta, especiarias, cogumelos, ovos, leite, água

-Alimentos minimamente processados: Ex. , suco de fruta sem açúcar, iogurte, chá, café.

-Alimentos processados: Ex., produtos vegetais em conserva, frutas em calda, sardinha e atum enlatados, queijos, pão, carne seca.

-Alimentos ultraprocessados: Ex., biscoitos, refrigerantes, sorvetes, guloseimas, macarrão instantâneo, salgadinhos, pizza, hambúrguer, salsicha, iogurtes aromatizados.

A partir destas informações o consumidor deveria entender a melhor forma de escolher sua alimentação, priorizando os primeiros grupos e evitando de todas maneiras o último grupo de ultraprocessados. Também pretende-se assim evitar o consumo excessivo de nutrientes como açúcar, sal e gorduras, que pode causar diversas doenças crônicas. Outras recomendações incluem dicas de como escolher e evitar o último grupo dos alimentos ultraprocessados.

Abaixo listamos algumas frases que mostram bem o sentido e a intenção do Guia.

“Evite alimentos com ou mais de 5 ingredientes (ultraprocessados)”

“presença na lista de ingrediente de nomes pouco conhecidos e aditivos caracterizam o alimento como ultraprocessado.”

“priorize a alimentação em casa com receitas caseiras tradicionais”

“Dê preferência, quando fora de casa, a locais que servem refeições feitas na hora”

“O enfraquecimento da transmissão de habilidades culinárias entre gerações favorece o consumo de alimentos ultraprocessados.”

Apesar de bem incisivas, as recomendações não são tão fáceis de serem seguidas ou claras como aparentam. A falha nessas orientações é tentar encaixar toda a variedade de produtos, suas formas, suas composições, além de tendências presentes e futuras numa regra fixa. As exceções aos exemplos dados de cada categoria são tantas que a regra geral fica quase tão grande quanto as ressalvas.

Podemos ver exemplos que contrariam as orientações e essas regras, mostrando várias exceções que existem na realidade do mercado.

  1. Um suco de fruta (sem outros ingredientes além de suco) é um alimento recomendado pelo Guia (minimamente processado). Mas no processo de obtenção de suco as fibras da fruta são perdidas na extração, restando vitaminas, água e açúcares naturais da fruta. Se a intenção das orientações é evitar o alto consumo de açúcar, a orientação não está adequada, pois a quantidade de açúcar de um suco de laranja, por ex, é maior que de um refrigerante ! Se analisarmos o suco de uva então é ainda pior, esse tem 14% de açúcar natural da fruta, no suco de laranja são 10,5%, contra a média em torno de 10% dos refrigerantes. Logicamente tanto açúcar, independente se ser adicionado ou ser da própria fruta, não é uma recomendação saudável.
  2. Alimentos fortificados com vitaminas, fibras e minerais em quantidades conhecidas e calculadas, são melhor balanceados que muitos alimentos in natura. Mesmo assim eles são não recomendados no Guia. Uma maçã carece de proteínas, enquanto é rica em fibras, açúcar e vitaminas. Uma carne é rica em proteínas e Vit. B12 mais não tem açúcares, fibras ou outras vitaminas. Alimentos naturais (in natura e minimamente processados) são naturalmente desbalanceados.
  3. Alimentos embalados possuem informações importantes sobre sua composição, ingredientes, origem, advertências, meios de contato com o fabricante para reclamações, etc. Com essas informações pode-se saber quanto de açúcar, proteína, gordura,… está se consumindo, além de ser avisado da presença de substâncias que, p. ex, causam alergias, saber canais para tirar dúvidas, fazer reclamações, etc.. Já alimentos in natura , todos recomendados pelo Guia, não possuem essas informações.
  4. Alimentos in natura não possuem obrigatoriamente indicação de porções para consumo, ou quanto e quais nutrientes importantes estão sendo consumidos. Alimentos processados mesmo os com com altas concentrações de gorduras, açúcares e sódio, são obrigados a informar isso, sendo proibido distorcer essa informação. Mas não sabemos por exemplo quanto açúcar existe numa água de coco da praia, ou quanto daquela fruta ou daquele legume é necessário consumir por dia para se ter a ingestão adequada de vitaminas ou fibras.
  5. Outra recomendação do Guia é de consumir alimentos feitos em casa. Pois bem, um bolo simples de fubá, leva minimamente: farinha, ovos, açúcar, fubá, óleo e fermento (06 ingredientes) então, deveria ser evitado. E se pensarmos em bolo de cenoura com chocolate? E bolinho de chuva ? E pastel frito ? E doce de leite? E pudim, cocada, doce de banana? Conclui-se que uma visita a casa da avó ou da tia deve ser evitada ao máximo (de acordo com o Guia), pois são muitos os perigos presentes, todos feitos tradicionalmente mas com vários ingredientes e cheios de açúcar, gordura e sal. Sem levar em conta o consume exagerado devido a insistência da anfitriã para você continuar comendo (mesmo depois de estar com o botão da calça já desabotoado!)
  6. Alimentos de origem animal como produtos cárneos podem ser classificados como in natura ou minimamente processado, mas carnes in natura do açougue necessitam de adição de ingredientes: sal, temperos, condimentos.. no preparo. Ela é in natura (recomendada) na compra, mas não tem como come-la sem se tornar processada.
  7. Batatas cortada e embaladas tipo CHIPS contém somente batata descascada e fatiadas, (vegetal minimamente processado), e sal. Algumas marcas nem a fritura faz parte de seu preparo. Mas simplesmente por serem embaladas são não recomendadas, aparentando que a embalagem as torna ultraprocessadas.
  8. As refeições prontas congeladas podem ser balanceadas e adicionadas de ingredientes e nutrientes visando atingir o gosto e necessidade do cliente. Mas por serem preparadas em estabelecimento industrial e serem vendidas congeladas, passam automaticamente a ser não recomendadas. O congelamento faz tão mal assim ?
  9. A recomendação de consumo de alimentos in natura orgânicos, pois seriam mais saudáveis, produzidos sem o uso de pesticidas ou substancias prejudiciais. Há nisso o desconhecimento que frutas e vegetais orgânicos também podem conter resíduos de pesticidas (algumas vezes mais tóxicos que os modernas moléculas atuais), e quando prontos podem ser adicionados de aditivos assim como os convencionais. E não é por serem orgânicos que os alimentos não deixam de ter as mesmas características desvantajosas dos alimentos convencionais. Alérgicos a crustáceos, leite, amêndoas, peixe, ovos… vão continuar sofrendo alergias com os correspondentes orgânicos. Intolerantes a lactose da mesma maneira com o leite orgânico.
  10. Os ingredientes comuns como sal, açúcar estão presentes nas preparações tradicionais e caseiras de salgados e doces, e são os mesmos usados na indústria. Porque a alimentação feita em casa deve ser estimulada enquanto a alimentação de outros produtos prontos não ?

Essas exceções que comprometem a regra são apenas algumas. Outras podem ser descobertas a cada novo alimento analisado, transformando as recomendações do Guia em mais confusão que esclarecimento.

O uso de aditivos alimentares nos alimentos é atacado no Guia

Outro forte argumento que se encontra em todo o Guia é ser contra o uso de aditivos alimentares nos alimentos, como: aromatizantes, corantes, acidulantes entre outros. Sem alongar o tema, mas para deixar esse ponto esclarecido, leitores podem inteirar-se quanto a verdade tecnológica e vantagens sem risco à saúde do uso de aditivos em alimentos nos artigos anteriores deste site: Aditivos alimentares, para que servem ? Parte II e Aditivos alimentares, para que servem ? Parte I.

Erroneamente, o Guia informa que aditivos são derivados de petróleo e carvão. Na verdade aditivos são feitos das mais diversas matérias-primas, como de vegetais, animais, microorganismos e minerais. Classificar todos os aditivos como vindo das mesmas origens dos plásticos e dos combustíveis é extremamente inadequado e incorreto.

Só para destacar mais uma contradição do Guia, os pães recomendados por serem minimamente processados possuem diversos aditivos autorizados, além do fermento químico (que não deixa de ser “química” adicionada). Além desse, outros alimentos recomendados pelo Guia como pescado fresco, congelados ou resfriados, podem levar corante, estabilizante e conservador. Outros como farinhas; chás; frutas in natura, vegetais, legumes, azeitonas, hortaliças, cogumelos, frutas secas, castanhas e outras oleoginosas, leite, leite em pó, também tem permissão na legislação para utilizar aditivos.

Ou os autores desconhecem a legislação nacional, ou são contra o consumo de alimentos com aditivos somente se estes forem industrializados, o que não faz o menor sentido.

O Guia foge do campo nutricional e desanda para a ideologia

Analisando todos estes pontos, parece claro que a característica moderna de produção industrial de alimentos parece ser a
principal alvo de ataque do Guia. Por passarem por grandes indústrias (ou mesmo pelas pequenas e médias) que possuem empregados para sua manipulação, preparo, embalagem, transporte…e não são feitos em ambiente domiciliar, ou artesanalmente no campo, mesmo tendo os mesmos ingredientes dos alimentos preparados em casa, surpreendentemente os industrializados tornam-se piores e prejudiciais à saúde.

Conclui-se que a existência do Guia não tem o objetivo principal de orientação com foco na saúde da população, mas sim a condenação da atividade empresarial, (possivelmente na mente dos autores: exploradora, repressora e capitalista), contra os avanços tecnológicos e da ciência de alimentos, a favor do retorno da vida no campo como um ideal que deve ser buscado por todos. Trata-se de é um claro discurso padrão da esquerda e do socialismo, baseado em ideologia e não na realidade, e aqui, aplicado na área nutricional.

Não acaba por ai

No próximo artigo vamos ver mais pontos que mostram essa intenção, e mais colocações que mostram que o Guia necessita de atualização urgente para que esteja adequado a realidade e a modernidade e seja realmente uma ferramenta útil de consulta e instrução.

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