Os políticos respondem mais aos eleitores através das redes sociais?

Os políticos respondem mais aos eleitores através das redes sociais?

Qual é a essência de um governo democrático? Algumas características são básicas para entendermos não só a existência ou não de uma democracia, mas a qualidade da representação sendo praticada. Entre os critérios básicos estão garantias constitucionas como o direito de votar e ser votado para cargos políticos e o direito de contestação pública aos representantes eleitos. Junto a estes critérios básicos, está a necessidade dos representantes, na medida do possível, escutarem os cidadãos e atenderem suas demandas. Neste ponto, a relação entre cidadãos e representantes é importante. A popularização da internet trouxe novas ferramentas que permitem, pelo menos em teoria, maior interação entre políticos e eleitores, possibilitando novas formas de transparência e participação do povo nos processos de decisões governamentais.

Se, no passado, o contato com representantes do governo era feito por telefonemas ou cartas enviadas por correio, hoje em dia grande parte dessa interação é realizada por e-mails. Mais recentemente, com o uso cada vez maior de redes sociais pela população, aumentou também o número de políticos com perfis nessas plataformas, representando uma nova forma de contato direto entre eles e seus eleitores. O pesquisador Márcio Carlomagno e seus colaboradores, da Universidade Federal do Paraná, buscaram entender melhor a interação entre políticos e cidadãos, realizando um experimento com deputados federais. O principal objetivo foi analisar quais fatores poderiam motivar a resposta dos deputados a questões enviadas pelo público.

A pesquisa buscou analisar como foi o comportamento de resposta dos deputados federais a contatos eletrônicos realizados por cidadãos e quais foram os possíveis fatores que incentivaram a ocorrência dessas respostas. Para obter os dados necessários, foi realizado um experimento (Figura 1) no qual eram enviadas mensagens de pessoas fictícias através de meios digitais (e-mails ou chat direto do Facebook) em dois períodos distintos: a 54ª e a 55ª legislatura.

Um dos fatores analisados foi a natureza do contato feito com o deputado. Assim, algumas mensagens eram perguntas sobre certo assunto que estava sendo tratado naquele momento na Câmara dos Deputados (por exemplo, maioridade penal ou reforma política). Outras, por sua vez, apresentavam interesse de seu emissor em conhecer mais sobre o trabalho do deputado, pois considerava a possibilidade de votar nele nas próximas eleições.

A hipótese a ser testada no estudo foi a de que os políticos em questão estariam mais motivados a responder mensagens que possuíssem intenções eleitorais do que quando possuíssem apenas questionamentos de natureza técnica.

Os contatos com os políticos também foram realizados em dois momentos diferentes: ao final da 54ª legislatura, quando estava próximo do novo período eleitoral, e ao início da 55ª legislatura, logo após as eleições e, portanto, quatro anos antes das eleições seguintes. O objetivo foi observar se em períodos eleitorais os deputados teriam mais preocupação em responder ao contato dos cidadãos. Ademais, foram enviadas mensagens tanto por meio do chat do Facebook para os perfis oficiais de deputados, como para seus e-mails oficiais, buscando obter evidências se a taxa de resposta dos políticos seria maior em algum dos dois meios de comunicação.

Experimento deputados federais

Os pesquisadores compararam quais desses fatores tinham maior influência nas chances de um deputado federal responder a um contato realizado por um cidadão via meios digitais. Para analisar se outras variáveis poderiam ter influência no comportamento dos políticos, os pesquisadores incluíram dados como idade, protagonismo parlamentar, ocupação profissional, partido político a que pertence, tamanho desse partido, entre outras. 

O estudo encontrou taxas de resposta relativamente pequenas dos deputados, variando entre 2,3% e 14,8% nos contatos via e-mail, e de 29,8% das mensagens feitas via Facebook. Os pesquisadores argumentam que, enquanto a quantidade de retorno dos e-mails foi baixa (aproximando-se da que é encontrada em outros países em desenvolvimento como a África do Sul), a taxa de resposta via Facebook foi próxima à encontrada em países como a Suíça.

Estatisticamente, deputados federais apresentaram chance nove vezes maior de responder a uma mensagem quando enviada a seus perfis em redes sociais. Além disso, os deputados que são políticos profissionais, já há muitos anos no cargo, demonstraram maiores chances de retornar os contatos realizados via rede social.

Responsividade de deputados

Ao contrário do que se esperava inicialmente, a proximidade das eleições na data de envio das mensagens não foi um fator significante de estímulo à resposta dos políticos, pois não houve diferença nos períodos das legislaturas.

Por outro lado, observou-se que a chance de um deputado responder à mensagem quando seu conteúdo estava voltado a apoio eleitoral foi cerca de dez vezes maior. O efeito se tornou maior quanto maior era o perfil de protagonismo dos políticos.

A pesquisa pôde concluir que as redes sociais realmente têm potencial para ser um canal entre políticos e cidadãos, e levantou outros assuntos relevantes para estudos futuros. O primeiro é se os e-mails oficiais dos deputados deixaram de ser um meio efetivo de comunicação, devido à quantidade e diversidade de e-mails que chegam às suas caixas, tais como spams. O segundo é que o corpo técnico que auxilia os políticos é uma peça importante para entender a comunicação concreta com o público, seja por e-mails ou redes sociais. Outro possível tema é se a população efetivamente tem domínio das ferramentas à sua disposição para manter contato com seus representantes. Por último, pode ser interessante avaliar se há relações entre grau de desenvolvimento de um país e as taxas de respostas dos políticos a seus cidadãos.

Pesquisador(es) Responsável(eis): Márcio Cunha Carlomagno; Sérgio Soares Braga; Rafael Cardoso Sampaio.

Fonte: canalciencia.ibict.br

Imagem destacada Pixabay

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