Notas de um escritor suburbano

Notas de um escritor suburbano

Havia desistido de um sonho, de um dever, de um prazer. Sim, transmitir em palavras claras uma obra literária é um processo árduo e nem sempre recompensador.

Os jornais destinam dia após dia mais e mais espaço para a política, e digo política para não usar o termo “treta”. Os melhores ainda buscam contratar excelentes analistas políticos e econômicos, mas, infelizmente, são uma exceção, uma luz a brilhar diante de densas trevas de ignorância.

A literatura é valiosa e afirmo, com toda ousadia, que quem não lê, pouco sabe do outro e nada sabe de si. De modo semelhante, quem lê buscando somente o imediato a fim de satisfazer o bolso, pouco à mente e nada ao coração, carece de entender o verdadeiro valor e potencial de sua existência.

Como já escrevi no meu texto sobre a magnifica obra Ben Hur , publicado por este jornal:

Reler um livro é sempre uma surpresa e uma redescoberta; redescoberta, pois, embora já tenhamos adentrado suas paisagens e perscrutado a mente de suas personagens, não somos o mesmo leitor, muitas leituras foram feitas depois daquela primeira e muitas experiências foram vividas depois, o que torna esse novo encontro notadamente mais profundo, atento e com significados diferentes e, talvez, até mesmo únicos. Surpresa, sim, pois devemos reconhecer que um clássico nunca se extingui em sua riqueza estética e conteudística, ao contrário, ele nos confronta a cada releitura e nos desafia a vermos, percebermos e compreendermos tudo que escapou às anteriores leituras, nisso está o surpreendente, como diria o brilhante Ítalo Calvino: “ Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.” e “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”

Um dos meus mais queridos e persistentes sonhos é o de ser um crítico literário que ofereça ao público textos que ensinem, maravilhem e seduzam, ao mesmo tempo que ofereçam para acadêmicos e estudiosos muito o que pensar e refletir.

Meu prazer é o de receber a grata e respeitável opinião de quem busca ler esta coluna, de sentir que há relevância e valor no que escrevo. Sem o leitor, falta ao escritor parte de sua energia motivadora. Tudo que criamos e usamos (linguagem, artes, ciência) visa alcançar o outro.

Dever? No meu artigo Cartas de um diabo a seu aprendiz, escrevi:

Criticar qualquer obra já exige competência e inteligência daqueles que desejam ser chamados de críticos, muito mais, se pede ao criticar obras consideradas clássicas ou de renome, aclamadas pelo público e/ou academia. Criticar virou tarefa ingrata, pois na internet, vemos inúmeras páginas que evocam para si tal alcunha, crêem que suas análises são apropriadas e competentes, mas, na verdade, são meras repetições do que vive sendo dito por anos a fios pelas mãos de verdadeiros estudiosos. Temos muitos fãs ardorosos que ao ler as palavras “erro”, “inapropriado”, “falho”, logo usam toda uma sorte de vocabulário requintado para expressar sua indignação, pois, para eles, o autor analisado escreveu como desejou baseado na escola literária do seu tempo e projeto artístico.

Tais senhores são meros fãs, suas críticas nada mais são que notas lisonjeiras ou, quando julgam o trabalho de um escritor que não os satisfaz, meras páginas repletas de birra, raiva e sentimentalismo excessivo. Ficar preso à concepção do que julgou, este ou aquele autor, o apropriado na arte de escrever é ser covarde, uma eterna sombra de mentes superiores e almas audaciosas. Como diria o renomado Ezra Pound no Livro ABC da literatura: “O crítico que não tira as suas próprias conclusões, a propósito das medições que ele mesmo fez, não é digno de confiança. Ele não é um medidor, mas um repetidor das conclusões de outros homens.”  (grifo nosso)

Aqui fazemos crítica literária, ousamos pensar e expressar tal pensamento, portanto, o dito pelos outros, mesmo que sejam estes outros grandiosos, não é em nada verdade absoluta para nós, tampouco algo irrefutável.

Diante das incertezas, luto pelo sonho, busco o prazer e tenho por meta honrar meu dever como critico. E assim, começamos mais uma jornada….

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