Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde – O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde -Robert Louis Stevenson

Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde – O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde -Robert Louis Stevenson

A morte e o tempo são os responsáveis por enaltecer um legado, tornando o mais vivo e rico anos após ano, como também podem sepultá-lo. Nem sempre são justos juízes, contudo, geralmente privilegiam aqueles que foram para além do comum e superficial.

Robert Louis Stevenson foi um desses maravilhosos casos onde a morte e o tempo o agraciaram com novas gerações de leitores, adaptações para o teatro, cinema e televisão e até mesmo com personagens que habitam no imaginário popular. Muitos desconhecem o autor, mas basta ouvir a descrição de uma de suas personagens e enredos para começarem a se perguntar onde já ouviram, assistiram ou leram tal figura.

Como diria o articulista David Daiches: “A reputação literária de Stevenson também oscilou. A reação contra ele começou logo após sua morte: ele era considerado um ensaísta educado e imitativo ou apenas um escritor de livros infantis. Mas, por fim, o pêndulo começou a oscilar para o outro lado e, na década de 1950, sua reputação foi estabelecida entre os mais perspicazes críticos como um escritor de originalidade e poder, cujos ensaios, no seu melhor, são representações convincentes e perceptivas de aspectos da condição humana; cujos romances são estórias de aventura brilhantes com nuances morais sutis ou apresentações originais e impressionantes da ação humana em termos de estória e topografia, bem como psicologia; cujos contos produzem algumas permutações novas e eficazes na relação entre romance e ironia ou conseguem combinar horror e suspense com diagnóstico moral; cujos poemas, embora não demonstrem o mais alto gênio poético, são frequentemente hábeis, ocasionalmente (em seu uso do escocês, por exemplo) interessantes e originais, e às vezes (em A Child’s Garden) valiosos por sua exibição de um tipo especial de sensibilidade.” (grifo nosso)

Grande sabedoria reside na simplicidade, tal premissa surge como verdade se observarmos os contos de fadas, fábulas e os provérbios, embora suas estruturas sejam simples, não há como não captar os valores que transmitem. A simplicidade é uma das grandes qualidades dos gêneros citados anteriormente como também a sensibilidade.

Muitas vezes o autor comete o erro de menosprezar a mente do leitor e isso o faz entregar estórias maçantes e previsíveis. Um roteirista bom, capaz e criativo compromete a produção cinematográfica mais cara, pois sem um enredo bem construído, qualquer adorno fica sem valor na maioria dos casos. O cinema e bem antes o teatro, busca maiormente nos livros as estórias que brilham na tela e as séries de sucesso tem no poder criativo dos roteiristas seu grande triunfo. No fim, um escritor que sabe de suas limitações e qualidades, que dá a inspiração a forma apropriada é a chave-maior do sucesso.

Robert Luis Stevenson conseguiu esse equilíbrio entre criatividade e forma na obra que vamos trabalhar. Muitas críticas foram escritas colocando a questão biográfica como o caminho para compreender a obra e outros tiveram no legado de Sigmund Freud o elemento primordial para sustentar suas análises. Fujo da biografia e pouco sei de psicanálise, pois centro minha mente na estória em si e em como a percebo.

A mente dividida em diferentes personalidades ou a mente dividida em bem e mal, parte funcional (que vive bem em sociedade) da não-funcional (que vive na marginalidade, na desobediência e violência) fascinavam médicos e escritores, e ainda o faz. Stevenson já havia abordado o conflito entre o bem e o mal e como isso abala o psicológico de um indivíduo através do conto “Markheim”.

O grande triunfo do conto “O Médico e o Monstro” está na combinação do elemento gótico (algumas estórias são consideradas góticas por possuírem uma atmosfera obscura e misteriosa; a loucura é um tema bastante utilizado  como também o fascínio pelo modo de vida que vai de contra ao convencional), o maravilhoso, presente como a espinha dorsal da chamada literatura maravilhosa e até do fantástico.

A literatura maravilhosa segundo o dicionário de termos literários, verbete escrito por Isabel Mascarenhas: ”Gênero da literatura do (sobre)natural teorizado por Tzvetan Todorov em Introduction à la littérature fantastique (1970). Segundo este autor, o maravilhoso é o gênero onde se incluem as obras nas quais não é possível qualquer explicação racional para os fenômenos (sobre)naturais. O herói e o leitor implícito de uma narrativa maravilhosa aceitam sem surpresa novas leis da natureza. A definição do gênero maravilhoso é determinada na relação que Todorov estabelece com os gêneros que lhe são próximos, isto é, o gênero fantástico em que o herói e o leitor mantém a hesitação entre uma explicação natural e (sobre)natural dos fenômenos ao longo da narrativa e o gênero estranho onde é fornecida uma explicação racional dos fenômenos insólitos, mantendo-se desse modo intactas as leis da natureza. Seguindo o critério dicotômico racionalidade/irracionalidade, os três gêneros distribuem-se esquematicamente em gênero estranho / fantástico / maravilhoso.”

“A paternidade do termo maravilhoso não é de Todorov. Já Aristóteles o tinha utilizado na Poética (séc.IV a.C.) quando no Cap. XXIV refere o modo como este participa na tragédia e na epopéia: «O maravilhoso tem lugar primacial na tragédia; mas na epopéia, porque ante nossos olhos não agem atores, chega a ser admissível o irracional, de que muito especialmente deriva o maravilhoso» (trad. de Eudoro de Sousa, p.141). Aristóteles apresenta o maravilhoso como um elemento do irracional mas não o conceitualiza.”  

E até mesmo o elemento fantástico se faz presente de certo modo. De acordo com o dicionário de termos literários no verbete escrito por Filipe Furtado: “Englobáveis na ficção do metaempírico, as narrativas do gênero fantástico, tal como as do estranho, evocam o surgimento do sobrenatural maléfico e ameaçador num mundo a que procuram conferir uma ilusão de verdade tão intensa quanto possível. Porém, ao invés do estranho, o fantástico mantém uma atitude ambígua perante as manifestações extranaturais, evitando ou deixando em suspenso qualquer decisão categórica sobre a sua eventual coexistência com a natureza conhecida e nunca evidenciando de forma unívoca uma plena aceitação ou rejeição delas. Assim, o traço distintivo fundamental deste gênero perante os que lhe estão próximos consiste no facto de evocar e manter uma atitude dubitativa, perplexa e, sobretudo, ambígua perante o metaempírico. Tal característica radical até certo ponto no facto de o fantástico haver tomado forma várias décadas após o estranho. Em consequência, não se revia já no racionalismo iluminista nem nas condições históricas deste, mas, antes, em diversas tendências introduzidas ou prosseguidas pelo Romantismo, particularmente a renovação de interesse pelas potencialidades da imaginação e pela representação artística do sobrenatural. Porém, apesar de, em medida apreciável, decorrer da abertura romântica a este último, o fantástico desenvolve-se, ao longo do século XIX, num quadro sociocultural que se lhe torna crescentemente adverso, tendo de contar com a influência ascendente do progresso científico, do positivismo e do materialismo filosófico. Em conseqüência, uma classe de narrativas que, como esta, visasse evocar o metaempírico em termos de suficiente credibilidade não poderia já permitir-se expressar a sua aceitação sem reservas, devendo antes manter uma atitude tão incerta e dúbia quanto possível perante acontecimentos ou figuras aparentemente alheios à natureza conhecida.” (Grifo nosso)

O modo como o autor os utilizou é fascinante, pois estão presentes de um modo equilibrado e bem construído, embora simples e sem um maior aprofundamento. A estória se serve deles e não foi um conto escrito para que eles estivessem presentes; o escritor os usou para trabalhar a premissa que residia em sua mente. 

Tudo apresentado é coerente com o mundo ficcional criado. Lembremos que a obra literária não tem por obrigação ser coerente com o mundo real onde vive o escritor e o leitor, mas sim com o seu próprio mundo, por isso é a lógica interna da obra quando quebrada, que causa perplexidade, frustração, angustia e raiva. A estória ficcional deve ser fiel e coerente com tudo que revela ao leitor. Por tal fato é que o gênio da literatura, Tolkien, buscava realizar tantas revisões em seus escritos. Uma obra que falha em ser coerente consigo mesma é uma obra falha ou menor.

Não confundamos, claro, a desconstrução de gênero, quando um autor subverte certa fórmula ou gênero propositadamente e, caso o faça bem, encanta o leitor e o fascina, pois quebra previas expectativas. R.R Martin o fez por inúmeras vezes em sua saga, que espero ser um dia acabada, Game of Thrones: As Crônicas do Gelo e Fogo.

O grande gênio da crítica literária, Otto Maria Carpeaux, em história da literatura ocidental, afirmou: “O elemento “gótico”, fantástico, em Stevenson revela-se, sobretudo, no seu romance policial – The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde – em que imitou conscientemente o maior narrador do romantismo alemão.” Penso que categorizar o conto como pertencente ao gênero gótico , maravilhoso ou fantástico seria um erro, pois os três elementos estão presentes não sendo nenhum deles a espinha dorsal.

Gabriel John Utterson busca entender a razão de uma serie de acontecimentos estranhos que envolvem o amigo de longa data – Dr Jekyll -e, de fato, é pela perspectiva deste personagem que observamos os fatos. Ele é o principal personagem. O último capítulo, no entanto, traz a carta-confissão do Dr Jekyll e o personagem Dr. Lanyon que também apresenta sua versão dos fatos através de uma carta.

O grande êxito de Stevenson foi o modo perspicaz que utilizou o foco narrativo na obra. Ele utiliza o narrador onisciente seletivo múltiplo e o narrador em primeira pessoa; este último surge através de duas cartas: uma do Dr. Lanyon, em que relata o encontro com Hyde e o que se passou, e a outra sendo a carta-confissão do Dr. Jekyll. Esse uso permite que saibamos de partes dos eventos descritos, ora de forma objetiva e clara (narrador onisciente seletivo múltiplo), ora não completa e subjetiva (narrador em primeira pessoa), possibilitando que o mistério se perpetue até o desfecho final.

Personagens mais intrigantes e imortais não abandonam o imaginário popular, a semelhança de Drácula ou o monstro de Frankenstein, o faz a dupla Dr Jeckill e Mr Hyde.  O Dr. Jekyll é descrito como um homem de cinquenta anos, alto, de boa aparência, de rosto liso e um intelecto inteligente e astuto, que frequentemente se percebe lutando entre o bem e o mal dentro de si. Ele passou grande parte de sua vida tentando reprimir impulsos malignos, luxuria e impetuosidade que não eram adequados para um homem que buscava uma carreira sólida como médico e ter, por conseguinte, uma reputação impecável.

Ele cria uma poção, na tentativa de libertar esse mal escondido de sua mente. Ao fazer isso, Jekyll se transformou em Hyde, um individuo menor em estatura, mais jovem, cruel, implacável e maligno. Seu tamanho e aparência surgem como lógicas já que esse lado sempre foi reprimido e, consequentemente, não se desenvolveu.

Conforme o tempo passa, Hyde cresce em poder não dependendo mais da poção criada pelo doutor para se tornar livre. É o Dr Jekyll que necessita dela para voltar a si e evitar que Hyde siga em sua onda de selvageria e maldade, infelizmente, o elemento principal da formula é difícil de ser encontrado, o que leva Dr Jekyll a cair em mais desespero. No último capítulo ele sentencia a si mesmo e o seu lado obscuro Hyde à morte.

Hyde e Dr Jekyll,  dualidade do bem contra o mal, o conflito entre a ordem e o caos, o desejo e a razão. Representam caminhos possíveis. Hyde seria a consequência de uma vida vivida pelo prazer, pela sede por aventura, por uma jornada que não cabe na moralidade dos virtuosos e justos. Dr Jekyll é tudo que se espera de um homem de virtude e sucesso. Ao permitir o seu lado maligno a chance de viver, percebe que de certa forma ele próprio pode experimentar o mundo novo através de Hyde. Dorian Gray, personagem de Oscar Wilde, tinha no retrato o meio de viver tudo sem perder seu status, beleza e reputação, Dr Jekyll tinha Hyde, a diferença é que Oscar Wilde deixa claro esse intento e Stevenson nos permite somente supor.

No fim a obra deve ser lida e espero que eu possa receber suas criticas, leitor, e comentários através do e-mail: jrchavesespanhol@gmail.com

Bibliografia:
DAICHES, David. Encyclopedia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Robert-Louis-Stevenson/Legacy . Acesso em 14 de setembro 2020
POUND, Ezra. ABC da Literatura. Editora Cultrix, 12 edição. São Paulo, 2014
MASCARENHAS, Isabel. E-Dicionário de Termos Literários- MARAVILHOSO. Disponível em: https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/maravilhoso/#:~:text=G%C3%A9nero%20da%20literatura%20do%20(sobre,os%20fen%C3%B3menos%20(sobre)naturais. Acesso em: 14 de setembro de 2020
FURTADO, Filipe. Gênero Fantástico. Disponível em: https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/fantastico-genero/ . Acesso em: 16 de setembro de 2020
CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental.
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