Como está o processo de beatificação da Princesa Isabel?

Como está o processo de beatificação da Princesa Isabel?

A pergunta vem dos muitos brasileiros que esperam há nove anos a abertura de um processo que pode ser desengavetado a qualquer momento

Hoje, 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, de quem a princesa era devota e alçou a padroeira do Brasil, faz exatamente nove anos e um dia que o professor Hermes Rodrigues Nery, postulante da canonização, entregou a d. Orani Tempesta, então arcebispo do Rio de Janeiro, a carta para abertura do processo. A trajetória para obter a beatificação de d. Isabel é digna de ser chamada epopéia, ou talvez via crucis, típica dos mártires, e deveriam fazer parte dessa história todos os envolvidos que há mais de 100 anos reivindicam legitimamente que a Princesa Isabel do Brasil é santa.

É bom lembrar que no ano que vem completam-se 100 anos de sua morte e a efeméride certamente virá acompanhada de inúmeras comemorações, provavelmente como aquecimento cultural para o bicentenário da Independência, mas Princesa Isabel tem relevância suficiente para fazer da data algo muito maior. O andamento desse processo me foi hoje comunicado pelo professor Nery, que está intrinsicamente ligado a todas as etapas da reivindicação legítima da canonização.

Do começo até agora – É importante começar por qualificar o professor Hermes Rodrigues Nery, que tem lutado bravamente junto com d. Antonio de Orleans e Bragança, seus irmãos e toda a família imperial brasileira para levar adiante o processo. Historiador, consultor do Senado, coordenador da comissão diocesana do movimento Legislação e Vida e hoje um dos grandes especialistas na biografia da princesa Isabel, consultado por outros biógrafos tal sua dedicação ao investigar documentos históricos de difícil acesso, como fontes primárias de proclamas e boletins de paróquias dos séculos 18 e 19, cartas íntimas e outras fontes primárias que vão além do conhecimento enciclopédico.

Em 2012, d. Antônio e professor Hermes foram à sede da Arquidiocese do Rio de Janeiro e entregaram a carta que daria início ao processo de canonização da princesa Isabel. Como bom historiador, o prof. Hermes anotou e documentou todos os encontros e sabatinas a que foi submetido. Encarregado de obter mais de 50 documentos que comprovassem a legitimidade do processo, não apenas cumpriu os requisitos, sabatinado e aprovado no primeiro momento, mas também foi chamado uma segunda vez, de um dia para o outro, para uma segunda sabatina.

Na ocasião, d. Orani estava acompanhado de um jovem padre que questionou a causa e colocou sob suspeição inclusive o papel da Redentora na Abolição da Escravatura, reclamando para Zumbi a libertação dos cativos, o que evidentemente surpreendeu o professor Nery como historiador, pois mesmo o mais leigo dos estudantes sabe que Zumbi tinha escravos e assassinou o tio para tomar o poder de Palmares. Surpreende também a presença desconhecida e inconveniente desse religioso claramente de esquerda, chancelada pelo Arcebispo. Águas passadas.

No encontro marcado às pressas, o professor não teve tempo de estar acompanhado dos muitos católicos e cidadãos de bem para demonstrar que o interesse de reconhecer a santidade da Princesa Isabel não era individual ou fruto de demanda política, mas um desejo ardente do povo brasileiro desde a época do Império, pois mesmo quando viva, os contemporâneos da princesa reconheciam nela uma vida dedicada a Deus por seus atos e palavras.

O passo seguinte seria postular a beatificação em Paris, cidade onde a princesa faleceu, pois ali deveria efetivamente iniciar o processo, entretanto, essa etapa dependeria de documentos enviados do Brasil, onde ela realmente viveu a maior parte de sua vida e poderiam ser obtidas as provas para sua beatificação. Nesse sentido, a proposta que estava na mesa de d. Orani há mais de dois anos foi enviada a d. Roberto Lopes, delegado Arquiepiscopal para a causa dos Santos, para que este formasse uma comissão de investigação e pudesse dar seguimento.

Reparação de injustiça histórica – São bem conhecidas as ações da Igreja para investigar a legitimidade dos processos quando estes não vão ao encontro das políticas vigentes no alto clero, estabelecidas nas administrações das dioceses, ou mesmo ao sabor do humor dos padres locais. A canonização de Santo Anchieta, mesmo com vasta literatura, provas e contraprovas por documentos oficiais demorou mais de 350 anos, a despeito das pressões populares, da Companhia de Jesus, da qual Anchieta fazia parte. Em contrapartida, Carlo Acutis, o jovem padroeiro da internet, faleceu em 2006 com 15 anos e já teve seu processo julgado e aprovado nesta semana. Venero e respeito o beato Carlo Acutis, mas certamente sua canonização atende muito mais às políticas do atual papado e seus asseclas de esquerda que uma senhora católica falecida há 100 anos, brasileira, conservadora, mãe e devota de Nossa Senhora Aparecida. Soa mais “moderninho”, atrai mais jovens, tem mais apelo de marketing.

A demanda pela canonização de d. Isabel iniciou-se mesmo em vida, pois todos a sua volta reconheciam sua santidade, e os documentos já recolhidos e a recolher contêm as provas de milagres em seu nome, e não poucos, apesar de as novas diretrizes das causas dos santos considerarem o milagre acessório. A santidade deve ter como fundamento dispor sua vida integralmente a Deus, e esse trunfo ninguém pode negar à princesa Isabel, cujas ações eram todas consagradas a Ele e Nossa Senhora, inclusive a Abolição da Escravatura. Sua primeira atitude depois de assinar a Lei Áurea foi anunciar uma missa em honra da libertação dos escravos.

Queira eu estar errada, e o processo andar rápido o bastante para que os brasileiros possam comemorar os 100 anos de falecimento também com uma missa em honra à Santa Princesa Isabel do Brasil, que dedicou sua vida à evangelização, às causas abolicionistas, à piedade divina. Abaixo, transcrevemos as notas do professor Hermes Rodrigues Nery quando sabatinado sobre a princesa Isabel. Em seu depoimento, ele cita Santa Joana d”Arc, fornece novas informações sobre a princesa e dá uma segura orientação bibliográfica.

APONTAMENTOS SOBRE A AUDIÊNCIA COM O ARCEBISPO DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO, DOM ORANI TEMPESTA, NA MANHÃ DE 20 DE AGOSTO DE 2012, EM QUE ME VI NUM INESPERADO CAMPO DE BATALHA EM DEFESA DA PRINCESA ISABEL.

Na manhã da segunda-feira, 20 de agosto, fui recebido pelo Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta e Dom Roberto Lopes, acompanhado de seu assessor, Alann. O encontro havia sido marcado para eu entregar a primeira parte do meu escrito Breve Retrato Biográfico da Princesa Isabel – Do nascimento à abolição – para a causa de sua beatificação.

O estudo foi um pedido de uma comissão de especialistas do Vaticano, da Congregação para a Causa dos Santos, que muito se interessaram pela história de vida da Princesa Isabel, história desconhecida dos brasileiros, especialmente sua vida de fidelidade à Igreja, cheia de heroicas virtudes.

A solicitação feita em 26 de dezembro de 2011, levou-me a aprofundar ainda mais na bibliografia existente. Dos livros lidos, destaco A Princesa Isabel – A Redentora, de Pedro Calmon (1941); A Princesa e Petrópolis, de Guilherme Auler (1953), Isabel, A Princesa Redentora, de Lourenço Luiz Lacombe (1988), Princesa Isabel – Uma vida de luzes e sombras, de Hermes Vieira (1990), Princesa Isabel do Brasil, de Roderick J. Barman (2005) e a tese de doutorado Princesa Isabel (1846-1921): A ‘Política do Coração’ entre o trono e o altar, de Robert Daibert Júnior, e alguns outros estudos.

Tomei todos estes livros e os apresentei a Dom Orani, mostrando-os um a um, expondo alguns trechos inclusive, e fazendo menção à estada de uma semana em Petrópolis, numa primeira consulta aos cerca de 80.000 documentos referentes à princesa Isabel, muito bem conservados pelo Arquivo do Museu Imperial de Petrópolis, no qual tive excelente acolhida por parte de seus funcionários.

Logo após, disse a Dom Orani que estava deixando com Dom Roberto Lopes a primeira parte de meus apontamentos sobre a vida virtuosíssima da Princesa Isabel, vida santificada que muito orgulha a História do Brasil e do Rio de Janeiro. Dom Orani manifestou vivo interesse pela abertura da causa de beatificação e indagou a Dom Roberto se já havia sido obtida a licença da França para o início do processo. Ao que Dom Roberto respondeu que estavam aguardando o estudo que eu estava lhe entregando a primeira parte, para proceder aos encaminhamentos que se faziam necessários. Foi quando, como um raio súbito em céu azul, seu assessor Allan desferiu bombástico, o primeiro golpe:

– Dom Orani, o movimento negro é contra esta causa.

E os três ficaram na expectativa do que eu tinha a dizer a respeito.

– Primeiramente gostaria de saber quem exatamente, qual grupo, qual segmento, qual corrente ideológica, etcetera. Não podemos fazer generalizações. Quem é contra e por quê?

Ao que o rapaz, de currículo acadêmico precário, recém-graduado, e com uma dissertação sobre Maquiavel, julgou estar com um discurso de vanguarda repetindo chavões, eivados de reducionismos. E não demorou muito em fazer apologia a Zumbi dos Palmares, esse sim, um herói e um libertador.

Com serenidade, expliquei a Dom Orani que houve dois movimentos abolicionistas no Brasil, um deles fomentava a rebelião e a fuga dos escravos, e a confrontação contra os senhores, na lógica classista, recorrendo à via da violência. Esta foi a via de Zumbi, e muito se temia que se repetisse em nosso País o que houvera no Haiti e na guerra de Secessão, nos EUA: o derramamento de sangue.

A via adotada pela Princesa Isabel foi a solução católica, a promoção do abolicionismo pelo reformismo, pela via institucional, pela compra da alforria e a inclusão social do negro, integrado às irmandades religiosas leigas, que muito contribuiu para alforriá-los.

A própria Princesa Isabel alforriou seus escravos pessoais, e tinha convicção da solução católica, especialmente depois de visitar a Inglaterra, em 1865, e ter visto lá as origens do sindicalismo inglês, cujas propostas para equacionar os impasses criados no mundo do trabalho na era industrial não eram nada humanizadoras.

Ela mesma conheceu a capital francesa no exato dia em que lá explodiu a Comuna de Paris, e voltou daquela viagem determinada a fazer valer a solução católica, para evitar os horrores dos extremismos que afligiam a Europa e que não queria ver no Brasil tais violências. Vitoriosa na Primeira Regência, com a aprovação da Lei do Ventre Livre, conseguiu obter a libertação definitiva em 13 de maio de 1888, com a Lei Áurea.

Depois da explicação, o assessor de Dom Roberto foi mais incisivo:

– O conceito de libertadora e de redentora foi criado pelos donos do poder, na realidade, o negro (com o modelo de Zumbi) foi o protagonista de sua própria libertação.

Doeu ouvir aquilo, doeu fundo, por se tratar de um pensamento eivado de equívoco ideológico, de erro histórico, de uma visão de história e de Igreja que não condiz com a verdade dos fatos e do sentido soteriológico de ser Igreja, a partir do ensinamento de Jesus Cristo, confirmado pelo ministério petrino, ao longo dos séculos.

Fazer apologia a Zumbi, no enfoque colocado pelo assessor, é contradizer o Magistério da Igreja em relação à doutrina social explicitada admiravelmente por Leão XIII na Rerum Novarum, e insistir em colocar na sombra as virtudes excelsas da princesa Isabel, que não foi passiva nem omissa diante da questão da abolição.

Ela buscou a solução católica e foi bem sucedida nesta missão, cujo êxito marcou um dos pontos culminantes de sua vida, tendo sido reconhecida pelo povo brasileiro como redentora, e agraciada com a Rosa de Ouro, presenteada pelo papa em louvor a sua ação tão de acordo com a doutrina social cristã. Não fosse a sua determinação, a sua firmeza de decisão e a sua sabedoria, a abolição poderia ter sido protelada ainda mais (pois desde 1810 era desejo de D. João VI viabilizá-la). E se prevalecesse a lógica de Zumbi (com a via da violência), a unidade nacional brasileira poderia ter sido pulverizada por forças anárquicas que ainda hoje tentam minar o que o Brasil tem de melhor.

Historiadores da atualidade, com Leandro Narloch, confirmam que “Zumbi tinha escravos. (…) mandava capturar escravos de fazendas vizinhas para que eles trabalhassem forçados no Quilombo dos Palmares. Também seqüestrava mulheres, raras nas primeiras décadas do Brasil, e executava aqueles que quisessem fugir do quilombo” (Guia Politicamente Incorreto do Brasil, Ed. Leya, p. 83; ver também o Dicionário do Brasil Colonial, de Ronaldo Vainfas, professor da Universidade Federal Fluminense).

Querer retirar da princesa Isabel o título de redentora, recebido em vida, pelo povo brasileiro, é apequenar a dimensão de grandeza espiritual que ela testemunhou em sua vida, especialmente cotidiana, cuja bondade inefável e sabedoria a muitos causou admiração.

E então o assessor lançou outro dardo, para que eu respondesse na frente de dom Orani e de dom Roberto:

– Atribui-se uma importância decisória à princesa Isabel que ela não teve, pois apenas substituiu seu pai no governo e por muito pouco tempo.

Já naquele segundo lance, percebi que a causa urgia ser defendida à luz da verdade histórica:

Expliquei aos senhores ali presentes que a princesa Isabel foi governante do Brasil em três períodos regenciais, que somados totalizavam mais de três anos de governo, e com prerrogativas decisórias plenas, garantidas em votação pelo parlamento brasileiro. Ela não substituiu o pai apenas, mas regeu, de fato, o Brasil, e a abolição só alcançou o êxito conhecido, por sua perseverança e determinação, e ainda a coragem de enfrentar Cotegipe, expondo com clareza seu pensamento abolicionista e substituindo-o por João Alfredo Correa de Oliveira. Determinou, em seguida, todo empenho do novo ministro na elaboração e votação da Lei Áurea, que foi aprovada, apesar da resistência de muitos proprietários rurais, que queriam ser indenizados pela perda dos escravos, mas que a princesa Isabel pelo texto enxuto apresentado e aprovado, liquidou de vez com o sistema escravagista, sem indenização. Decisões que contou com a coragem da princesa Isabel, ao que Cotegipe demitido vaticinou: “Sua Alteza, ganha a glória da abolição, mas perde o trono!”

O assessor de dom Roberto insistiu de que havia supervalorização na ação da princesa Isabel e lançou um novo torpedo:

– Dom Orani, saiba que esta é uma causa polêmica.

Ao que ressaltei:

– E qual causa de um grande santo não é polêmica?

E então, ele retrucou:

– E ainda mais: esta é uma causa política.

Ao que observei:

– E a causa de Santa Joana d’Arc, não fora também uma causa polêmica e política?

E ainda o assessor me inquiriu:

– O Conde d’Eu, marido da princesa Isabel, não era maçom? Dom Orani, me parece que ele maçom…

Ainda bem que eu levara os livros consultados, que apresentei, um a um, logo no início da audiência. Tomei a tese de doutorado de Daibert Júnior e li um trecho do capítulo “O casamento da princesa imperial: travessias do Atlântico”, em que é feita uma análise do contexto do casamento da princesa Isabel, e afirma que dentre os critérios da escolha, “o marido de Dona Isabel, obviamente, precisava ser um príncipe católico”. De maneira que o conde d’Eu era catolicíssimo, e de modo algum, em nenhum momento de sua vida teve envolvimento com a maçonaria. Pelo contrário, a fé da princesa Isabel foi se fortalecendo ainda mais com a convivência do conde d’Eu, que muito a ajudou, também intelectualmente, lendo junto com ela obras de profundidade espiritual, muitas vezes aconselhando e sugerindo, partilhando idéias e vivências, consolidando assim um matrimônio efetivamente venturoso, até o final da vida. Assim atestam seus biógrafos Alberto Rangel e Câmara Cascudo.

E acrescentei dizendo o que escrevera na primeira parte meu Breve Retrato Biográfico: “a princesa era reconhecidamente de uma convicção sólida, não apenas intelectual, mas daquela fé viva a mover os santos. Isso a fez melhor entender a cultura e a história de seu País, a entender o quanto a fé católica moldara a identidade e a vocação do Brasil, e a perspectiva de um dia vir a governar a levava se dedicar com mais afinco ao que ela sempre considerou como um sentido de missão, conjugar fé e política, legislação e vida, mesmo diante das forças ideológicas anticristãs que emergiam e atacavam cada vez mais os princípios e valores cristãos.”

Dom Orani perguntou-me, dentre as ações beneficentes e caritativas da princesa Isabel, na vida pessoal, algo que eu pudesse destacar. Ao que lhe respondi, entre tantos exemplos edificantes, que como princesa, era tocante ver que um dos serviços escolhidos por ela como forma de ajudar a sua comunidade em Petrópolis, estava oferecendo serviços de ornamentação e limpeza da igreja, ela mesma com suas amigas, se prontificavam com regularidade e tudo faziam com esmero e alegria.

Nesse ínterim, apareceu Dom Antonio Augusto Dias Duarte, que nos cumprimentou efusivamente e ao saber que estávamos lá, entregando a primeira parte do nosso estudo, disse para Dom Orani que está rezando pelo êxito da causa de beatificação da princesa Isabel.

O arcebispo do Rio de Janeiro, que tudo acompanhava com atenção, disse novamente ser favorável à causa da princesa Isabel. E ainda lembrei que a revista Isto É havia nos procurado, desejando fazer uma matéria sobre a princesa Isabel, principalmente por causa do concurso promovido pelo SBT, que irá escolher O Maior Brasileiro de Todos os Tempos e ela está entre os 12 finalistas.

Dom Orani considerou positiva a divulgação, mas o assessor imediatamente arguiu que seria muito ruim uma publicação sobre a princesa Isabel, ainda mais falando sobre a possível abertura do processo de sua beatificação. “Não. Definitivamente isso não seria bom”, completou enfaticamente.

O assessor de Dom Roberto perguntou se eu tinha estado no Arquivo do Museu Imperial de Petrópolis, e o que eu podia dizer em relação aos documentos lá existentes referentes à princesa Isabel? Apresentei a ele reportagem divulgada em vários sites católicos noticiando a nossa visita ao Arquivo do Museu Imperial, em maio deste ano, e a constatação de cerca de 80.000 documentos referente ao período da vida da princesa Isabel, cartas dela para os familiares, amigos, personalidades da vida pública, autoridades civis e religiosas, até mesmo com os papas Leão XIII e São Pio X, que se corresponderam com ela.

O assessor disse a dom Roberto que era necessário juntar ao meu texto, ao menos 50 documentos fac-símile de cartas originais da princesa Isabel, como condição para requerer do prelado francês a licença necessária para a abertura da causa de sua beatificação. Logo após, salientei a dom Roberto de que o acesso de parte da documentação somente é possível com autorização expressa de membros da família imperial, e que cada fac-símile escaneado tem um custo, de maneira que a inclusão de 50 cartas fac-símile, de originais, demandaria tempo e recursos nesse sentido.

Ao que o assessor observou:

– Veja bem, dom Orani, esta é uma causa cara. Como custeá-la?

Disse a eles que o trabalho tem sido feito em meio a minhas muitas atividades, estudando e escrevendo no tempo além das minhas obrigações diárias, e chegamos até aqui e daremos continuidade, se Deus quiser, pela convicção da fé. Pois este trabalho é movido pela convicção da santidade da princesa Isabel, tão injustiçada, há décadas, por ideólogos anticristãos.

O assessor voltou a dizer a dom Orani que a causa seria cara, demandaria estudos e viagens a Europa, etc. E sugeriu, como forma de barateá-la, formar uma equipe de estudantes universitários, como estagiários, que ele mesmo poderia orientá-los, pois a documentação sendo tão extensa, requereria mais gente, daí o grupo de jovens estudantes.

A idéia, por muito interessante que pudesse parecer, tinha um risco: o que esperar de estudantes vindos de universidades secularizadas, relativistas e com concepções ideológicas classistas e reducionistas, quando não explicitamente anticristãs, com um orientador que coloca Zumbi como protagonista da libertação dos escravos? Senti ali que a causa da princesa Isabel corria perigo, e que providências deveriam ser tomadas para evitar interferências que viessem criar mais resistências. Recorrendo ao lema de São Bento, “ora et labora”, me vi assim, mais uma vez, em nova peleja em defesa da fé, da verdade e da justiça.

Todos esses questionamentos, assim de forma inesperada, deram-me um cansaço físico, fiquei tão extenuado ao final da audiência, que até esqueci-me de tirar uma foto do encontro. Mas fiz um apelo a Dom Orani para que tomasse as providências no sentido de abrir o processo de beatificação da princesa Isabel, destacando ainda muitos outros pontos de sua vida de fé e santidade.

Hermes Rodrigues Nery é coordenador do Movimento Legislação e Vida da Diocese de Taubaté, em São Paulo.

Taubaté, 31 de agosto de 2012
[19:55, 11/10/2020] Hermes Rodrigues Nery: –

Print Friendly, PDF & Email