Alimentação

Guia Alimentar, crítica final.

Nesta última parte da crítica ao GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA, 2° edição, vamos destacar os pontos mais relevantes da publicação, e contestar, com as devidas explicações, as regras e orientações existentes, pois como vimos nos outros dois artigos, as informações contidas no Guia são irregulares e falhas em suas recomendações e orientações, pois diversas confusões, desvios da realidade e da verdade científica podem ser encontrados na publicação.

Abaixo destacamos as informações e orientações escritas no Guia e logo depois a análise e a contestação com exemplos claros da realidade dos fatos e baseado na moderna ciência dos alimentos. Todas as informações escritas se referem aos alimentos industrializados, chamados pelo Guia de ultraprocessados, e que são, devido a essa classificação, condenados e classificados como prejudiciais a saúde.

  1. CONTÉM INGREDIENTES ALIMENTÍCIOS DE USO INDUSTRIAL

 A definição de uso industrial seria de uso na indústria. Bem, produção industrial é nada mais nada menos que a produção em grande escala (escala industrial) neste caso, produção industrial de alimentos. Os ingredientes básicos de um alimento são os mesmos de uma produção domiciliar ou artesanal. Para que o alimento industrial tenha condições de ser produzido, distribuído, comercializado e consumido em tempo hábil é necessário o uso de substâncias que além de seguras para quem consume também servem para manter a aparência, gosto, segurança e aceitação do alimento. Essas substâncias são os aditivos alimentares. O uso de aditivos é a principal diferença entre os alimentos feitos em casa e aqueles feitos na indústria.

2. CONTÉM ADITIVOS CAPAZES DE TORNAR O PRODUTO EXTREMAMENTE ATRAENTE

O uso de substâncias com uma finalidade funcional (dar cor, manter a umidade, conservar, dar sabor ácido, facilitar a mistura de ingredientes) é utilizada em qualquer tipo de preparação. A diferença entre um bolo feito em casa e um bolo produzido na indústria é que na indústria, com seu ritmo coordenado e acelerado de funcionamento, necessita do uso otimizado e mais prático dessas substâncias. Assim, no lugar de usar ovos e separar as gemas para uso, usa-se lecitina como emulsificante já pronto para ser adicionado; ao invés de limpar, cortar extrair e coar para obter suco de limão para dar cor, aroma e sabor ácido, usa-se na indústria o ácido cítrico, ácido ascórbico e aroma de limão.

Ambas as preparações são adicionadas propositalmente de aditivos com uma finalidade desejada, mas somente a indústria utiliza esses de maneira mais prática, racional e eficaz.

Aditivos também são uteis para agradar e ajudar a diferenciação de variações do mesmo produto. Como diferenciar os diversos sabores de um refresco? Utilizando diferentes corantes relacionados com o sabor da bebida: vermelho para refresco de morango, verde para refresco de vegetais, branco turvo para refresco de limão, roxo para refresco de uva, alaranjado para refresco de laranja, etc..

3. CONTÉM ELEVADO NÚMERO DE INGREDIENTES

Essa classificação utilizada contando o número de ingredientes e bem aleatória, e afirmar que muitos ingredientes são sinônimo de alimentos prejudicial é muito estranha. Por exemplo, segundo o citado Guia um iogurte com açúcar ou frutas e aromas deve ser chamado de ultraprocessado por ter vários ingredientes, já um iogurte “natural” não, mesmo sendo a diferença entre eles somente a adição de um ingrediente a mais na última etapa de produção ! Preparações caseiras mais simples levam facilmente 6 ou 7 ingredientes, semelhante a uma preparação industrial.

4. UTILIZAM NOMES DE INGREDIENTES POUCO FAMILIARES

Devido a classificação de uso industrial dos ingredientes, esses podem estar codificados como ocorre com os aditivos, que são muitas vezes identificados por números na lista de ingredientes (Ex. acidulante INS 330, antioxidante INS 300). Outros nomes podem ser desconhecidos, como: dextrose, açúcar invertido (não é sal, viu?), sacarose, xarope de glucose, etc… são todos açúcares, mas nem todos sabem disso.

Mas é irrelevante para o consumidor essa informação técnica, pois sendo ingredientes comestíveis não oferecem riscos, independente de como são chamados, e além disso a lista de ingrediente não é a principal fonte de informação nutricional que deve ser consultada, para isso existe a informação nutricional (tabela nutricional) que mostra as quantidade dos nutrientes, o quanto de açúcar, sal, gordura, ou outros dados como substâncias alergênicas que o alimento possui. Isso é o muito mais importante para uma avaliação da composição de um alimento no momento da escolha.

Curiosamente essas informações só são apresentadas nos alimentos industrializados, e não nos in natura, como numa maçã ou um alface. Então não há como saber quanto de vitaminas, minerais, fibras existem nestes vegetais no momento da compra.

 5. CONTÉM ADITIVOS CORANTES, AROMATIZANTES, RELAÇADORES DE SABOR SINTETIZADOS EM LABORATÓRIO A PARTIR DE PETROLEO E CARVÃO

Essa afirmação do Guia é tão enganosa quanto inexata. Aditivos são feitos a partir de diversas fontes: vegetais (gomas, aspartame, corantes caramelo, betacaroteno, bixina) de origem animal (corante cochonilha, aromas) de origem mineral (sulfitos, carbonatos, nitratos) e de origem microbiológica (aspartame)

Independente da origem, para se tornarem aditivos alimentares as substâncias extraídas em estado bruto são ultrapurificadas, e antes de uma nova permissão para uso essas devem obrigatoriamente passar por testes rigorosos de segurança para sua aprovação. As substâncias utilizadas no Brasil são as mesmas aprovadas e utilizadas no mundo inteiro. Além disso, mesmo depois de aprovadas, elas são periodicamente reavaliadas sob as novas exigências conforme a ciência de alimentos evolui. Seu uso só é permitido dentro de rígidas regras com uma enorme margem de segurança, conforme explicado anteriormente.

 6. SÃO FREQUENTEMENTE ADICIONADOS DE AR OU ÁGUA.

Suflês e suspiros caseiros, claras em neve batidas em casa, além de água para diluir sucos de frutas muito ácidas, como maracujá, tamarindo… também são adicionados de ar e água. A mesma adição torna os alimentos industrializados piores ? Não. Mas podem ser enganosos ao consumidor que paga pelo ar e água de diluição adicionados ? Caso o consumidor não se atente a isso quando escolhe e compra um alimento por ignorar a leitura do rótulo, talvez sim. Mas isso não justifica a condenação do produto.

 7. POSSUEM POUCA PRESENÇA DE ALIMENTOS IN NATURA

A presença de alimento in natura como ingrediente é muito variável, mas, sinceramente, ninguém realmente espera que uma bala de morango tenha morango em sua composição, ou uma gelatina de framboesa seja feita com essa fruta, ou um sorvete de passas ao rum seja alcoólico por ter esse ingrediente. Não obstante, um alimento constantemente citado como mau exemplo de produto para a alimentação são as batatas-fritas tipo chips, que são feitas inteiramente de batatas! Pizzas possuem queijo muzzarela e farinha como base. Sorvetes tem leite e muitos contém frutas. Queijo, leite, fruta e farinha de trigo são alimentos in natura e minimamente processados, alimentos recomendados de acordo com o Guia.

Além disso, vemos também uma prática dos fabricantes que está tomando força no mercado, a de incluir como informação no rótulo a porcentagem de ingredientes como: suco de fruta, cacau, polpas de fruta presentes no alimento. Essa prática iniciou-se com as bebidas contendo suco de fruta, e hoje já se estendeu a outros produtos, como diversas marcas de chocolates que informam a concentração de cacau existente.

 8. SÃO POBRES EM NUTRIENTES

A água mineral é pobre em nutrientes, alias zero nutrientes. A quantidade de sais minerais nela é ínfima para atender as necessidades nutricionais do corpo. Mesmo assim, a água é corretamente recomendada e essencial para o organismo. Alimentos in natura também são muitos deles pobres em nutrientes, como o mel que praticamente é só açúcar, ou a batata que é basicamente feita de amido. Pobreza em certos nutrientes é uma características geral de grande quantidade de alimentos, independente de serem processados ou não.  

 9. CONTÉM ELEVADAS QUANTIDADES DE GORDURAS, AÇÚCARES E CALORIAS POR GRAMA | ELEVADAS QUANTIDADES DE SÓDIO

A alta presença de açúcar, gordura e sal, é uma realidade em muitos casos, mas a adição destes ingredientes não é feito propositalmente para matar ou deixar o consumidor doente. A adição destes ingredientes serve para melhorar a aparência, gosto e aceitação do alimento.

Experiências de comercialização de água de coco em caixinha com zero adição de açúcar já foi constatada pelos fabricantes como um fracasso de vendas, simplesmente porque o consumidor não quer uma água de coco insossa e sem sabor doce. Da mesma forma experimente fazer uma bebida com água e limão sem adicionar açúcar, ou um pão sem adicionar sal, ou uma guloseima sem adição de açúcar. Tais produtos podem ser o sonho de certos nutricionistas idealistas, mas são sempre recebidos mal nas vendas e chamados de “sem graça” e considerados como nada atraentes pelo consumidor.

Nem vamos comentar as preparações caseiras como: pudim, feijoada, doces, mousses, cocada, torresmo, rapadura… que estão muito longe de poderem ser considerados saudáveis, mesmo sendo preparações caseiras em geral, diversas vezes recomendadas pelo próprio Guia.

 10. POSSUEM EMBALAGENS CHAMATIVAS

De acordo com a ANVISA, a embalagem alimentícia é “ o invólucro, recipiente ou qualquer forma de acondicionamento, removível ou não, destinada a cobrir, empacotar, envasar, proteger ou manter, especificamente ou não, matérias-primas, produtos semielaborados ou produtos acabados.

Toda e qualquer embalagem deve proteger, conservar e informar. Embalagens não são uma coisa enganosa ou dispensável, elas tem funções nos alimentos para benefícios destes e do consumidor. Várias tecnologias estão envolvidas em uma simples embalagem, tecnologias estas que são despercebidas pelo consumidor, e aparentemente também pelos especialistas do Guia.

Uma destas tecnologias é a embalagem em atmosfera modificada. Ela consiste no acondicionamento do alimento em contato com um gás inerte como nitrogênio. Essa embalagem deve possuir uma composição com permeabilidade seletiva e controlada de modo a garantir a atmosfera gasosa da embalagem. Sendo evitada o contato com o oxigênio do ar o alimento se conserva e mantem suas propriedades por mais tempo.

Mesmo condenando embalagens atrativas como sendo uma pedra de tropeço e de engano para o consumidor, curiosamente a “embalagem” do Guia Alimentar da População Brasileira, 2° edição, em sua capa frontal, copia os mesmos meios de atração já utilizada em uma bebida em embalagem do tipo TetraPack, conforme Podemos ver nas ilustrações abaixo.

 

A embalagem, assim com a capa do Guia, utilizam ilustrações de textura familiares e aconchegantes aos olhos, semelhantes a tecidos de toalhas de mesa tradicionais, do estilo “casa da vovó”. Em ambas situações vemos a intenção de chamar a atenção, atrair, e deixar mais agradável e familiar a imagem dos dois “produtos”. Só que a condenação deste tipo de estratégia é feita sobre a bebida, e posteriormente sem pudor algum, a mesma estratégia é copiada e adotada pela própria publicação que a condena !

 11. IMPACTAM NEGATIVAMENTE A CULTURA E MEIO AMBIENTE

Se os alimentos com excesso de açúcar, gordura e sal devem ser evitados, então inclui-se nisso preparações com leite de coco e óleo de dendê (óleos vegetais altamente saturados), assim como os pratos feitos com eles como: vatapá e acarajé, abará, xinxim, moqueca… da mesma forma a cocada (coco com MUITO açúcar), ambrosia, (feita com doce de leite e ovos), sem falar em rapadura e doces caseiros. Será que uma recomendação para restringir e evitar fortemente estes quitutes e pratos típicos vai influenciar “positivamente” a cultura local e nacional ?

Ao contrário que os puritanos alimentares imaginam, a cultura alimentar é viva e dinâmica, novas práticas culturais são incorporadas e outras são deixadas de lado conforme a conveniência e os benefícios de novos alimentos e de processos vão sendo descobertos.

Pimentas não são originadas da Índia, batata inglesa não veio da Inglaterra, mandioca não apareceu primeiro na África, nem café, cana-de-açúcar, laranja, jaca, coco, banana ou manga são nativas do Brasil. Todos esses vegetais vieram de outros continentes, mesmo assim não se consegue hoje imaginar esses alimentos fora dos países em que são amplamente consumidos e apreciados fazendo parte inseparável da cultura alimentar de sua população. Nenhum especialista em sã consciência acha que a troca intercontinental feita no passado dessa flora alimentar seja um desastre cultural, e que por isso devesse ser revertida afim de manter a cultura original dos povos nativos.

A troca da cultura alimentar de um pais ou região para produtos embalados e mais práticos para a vida moderna são mudanças esperadas derivadas da demanda atual da população com menos tempo disponível e em ritmo de vida acelerado. Parece-nos que o sonho dos autores do Guia é ver toda a população sentada a mesa conversando e comendo vagarosamente a refeição preparada exaustivamente por horas e horas num fogão a lenha e em panelas de barro seguindo receitas tradicionais de família. Mas será que essa imagem idílica combina com as necessidades atuais da vida moderna, e são preferíveis ou viáveis na rotina de todas as pessoas ? Tal vontade não passa de idealismo que provavelmente os próprios autores não seguem nem preferem, mas gostariam que os outros seguissem.

Quanto ao meio ambiente, a sua preservação depende de bons hábitos e práticas uteis, e não do tipo de alimento que se consome. Não são os alimentos industrializados os vilões do meio ambiente, todos os alimentos podem impactar em diversos graus a natureza. O arroz cultivado em terreno alagado, principalmente na Ásia, é o principal emissor de gás metano na atmosfera, muito maior que as queimadas ou a criação de gado. Então, devemos, para o bem do meio ambiente, proibir e eliminar o consumo de arroz por chineses e japoneses ou vietnamitas, conduzindo-os a fome, para diminuir os efeitos deste gás na natureza ? E será também que essa proibição afetará positivamente a cultura destes países ?

Referências Bibliográficas:

  • Ministério da Saúde. Guia Alimentar da População Brasileira, 2° edição, Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
  • Tabela brasileira de composição de alimentos / NEPA – UNICAMP.- 4. ed. rev. e ampl.. – Campinas: NEPA-
    UNICAMP, 2011.
  • Amaral Rego, Raul; Viana, Airton; Madi, Luis. Alimentos Industrializados: a importância para a sociedade brasileira – 1 Ed. – Campinas: ITAL,2018.
  • Wolke, Robert L. O que Einstein disse ao seu cozinheiro: a ciência na cozinha – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
  • Graziano, Xico. Agricultura: fatos e mitos: Fundamentos sobre um debate racional sobre o Agro – São Paulo: Baraúna, 2020.

 

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PFernandes

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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