Diálogo entre mil anos de Filosofia e Neurociência

Diálogo entre mil anos de Filosofia e  Neurociência

É certo que a relação entre mente e corpo inquire sobre uma visão puramente científica pelo que seja a mente e a relação dela com o cérebro. E o limite dessa análise está também direto ao mundo mais material possível, sem considerar sequer a metafísica, ainda que esta seja meio para uma possível projeção de análise mais religiosa, a qual traria o conceito da mente ser a alma ou algo relacionado a esta. Tais desconsiderações são deveras baseadas em Descartes como um padrão mais materialista sobre a relação da mente e do corpo. Dessa forma, existem três questionamentos possíveis a serem feitos sobre o que é a mente: qual a essência da mente? Como ocorrem as interações entre mente e cérebro? E de que forma há a caracterização de partes da mente?

Segundo Aristóteles nos livros Metafísica e Da Alma e São Tomás de Aquino no compilado Suma Teológica, a mente é a alma do ser como uma entidade distinta da parte física do corpo. E no humano assim como nos animais ela controla a parte puramente material e física. Assim, essencialmente, a mente é algo incorpóreo e subsistente. No humano, ela é tanto controladora substancial do corpo quanto do intelecto. Só que se precisa observar a questão neuropsicológica moderna: pode existir corpo sem alma?

Ora, os dois filósofos acima já deixaram bem claro que, como na forma natural, o corpo após perder a alma, ele simplesmente volta a ser um punhado de átomos e moléculas sendo subdivididos por legiões de vermes, durante a decomposição. Portanto, o corpo (e o cérebro junto) são apenas ferramentas para as projeções da alma, que é a essência ou substância humana. A diferença entre a alma humana e a animal é questão de que o humano tem mais aprofundamento da consciência (dos sentimentos e também das emoções), interligação metafísica com um religare e portanto fé também, além da faculdade de intelecto e potencializar a própria capacidade instintiva. Ou seja, assim como o fogo é cálido, a alma é metafísica ou animada (móvel, livre). Afinal,  aqui encontramos mais pobreza da etmologia por falta de derivação para melhor explicar, porque anima, alma e animal possuem mesma origem.

Na premissa acima, independentemente verdadeira ou falsa, pode-se perceber a segunda pergunta feita no final do primeiro parágrafo. Ora, sob os aspectos por mais metafísicos e até científicos mais materialistas, há uma conclusão como verdade nisso tudo, o cérebro e o corpo são ferramentas da alma; no primeiro, há uma interação mais direta através da glândula pineal, no segundo, indiretamente ocorre a interação com a alma através de mecanismos virtuais de substâncias produzidas no cérebro. Sem eles, a alma não poder-se-ia projetar no plano material, como um Sistema Operacional (software) se projeta em um computador (hardware), sim, isso mesmo.

O hardware é a parte física do computador, é um bolo de átomos interconectados formando circuitos integrados em redes e pré-ordenado a estar pronto a funcionar (lembrando o corpo humano e o cérebro ao mesmo tempo). Porém, existe um ponto médio entre hardware e software, o firmware. Este é uma espécie de software primitivo, semelhante aos instintos humanos, que identifica a existência de cada parte física (mouse, teclado, monitor) do computador e assim a disponibilizar previamente a qualquer provável Sistema Operacional (Linux, Windows ou MachOS).

Nota-se que, por exemplo, uma pessoa deficiente nasce sem uma funcionalidade propriamente biológica do corpo, algo que represente no corpo o firmware a identifica como ausente e ainda sim a alma se projeta nele, o indivíduo nasce dessa forma; ainda que desenvolva os outros sentidos para suprir essa ausência. Poder-se-ia também compara isso com o computador quando liga e está sem um componente periférico, ele iria continuar todo o procedimento de ligação, normalmente, sem aquela parte. Um humano cego teria os olhos fisicamente, mas não ou “um firmware” entre a alma e o corpo (ou alma e cérebro) para poder usar aquela parte, portanto, nascido cego. Esse reconhecimento da alma é essencial para o livre funcionamento da parte corpórea. Para compensar, a audição seria mais bem desenvolvida, como se a alma se projetasse na própria parte que fosse da visão e a lançasse sobre a parte cerebral propriamente dita da audição, uma espécie de efeito “plug-in” para um software, um adicional.

De forma mais simplória ainda, a mente seria a projeção em si da alma e de maneira científica, uma e outra poder-se-ia ser confundidas. Ainda segundo Aristóteles e Aquino, a alma contém todas as virtudes e vícios que são projetados no plano material através do corpo do indivíduo: emoções, desejos, sentimentos, intelecto, fé, entre outras características puramente humanas (e não apenas as instintivas). Na neurociência, partes cerebrais retiradas ainda sim não eliminam a funcionalidade delas e interação com o corpo, por exemplo, o caso citado no texto “o corpo e a mente”. Se for somente levar Descartes em consideração à luz da neurociência,  o corpo humano seria um amontoado de átomos, células, moléculas e substâncias, que o mais materialmente possível, não teria algo como a alma, e portanto a fé só seria criação e não interligação entre alma e fonte motriz e geratriz da causa primeira de todas as coisas no universo. Assim, o corpo humano não seria diferenciado dos conjuntos moleculares de uma planta, de um animal ou das rochas.

Isso entra em contradição com dois eventos: o nascimento e a morte. No nascimento, se só fosse um emaranhado de átomos aleatoriamente ordenados, sem alma, a probabilidade de não haver funcionalidade no corpo humano seria a mesma que a de uma bactéria, porque ambos no início são uma única célula, no caso do humano, o zigoto. E isso também entra em contradição com a origem da vida, que segundo Oparin é oriunda de matéria orgânica preexistente. Na morte, ainda a contradição é mais esdrúxula, se o humano só fosse apenas uma melhor organização molecular que uma pedra, um milho ou uma barata, não haveria ciclo de vida diferenciado entre as espécies de seres vivos, ou ainda, não ocorreria diferença na existência de qualquer deles. No pior dos casos, sequer existiria a capacidade preordenada de escrever este texto, se nem instintos poderiam existir, quanto menos as virtudes mais sublimes como ler e escrever poderiam surgir no humano. Há sempre a ideia de escala e proporção.

O objetivo da Ciência não é falar de Deus (e sim do plano material, ou da Criação), mas cabe à filosofia como ponto de interligação entre Metafísica e Ciência, entre o multiverso espiritual e o material. Retirar a filosofia da Ciência, é o mesmo que ter dado a fórmula da bomba atômica para terroristas ou sociopatas em qualquer época da história da humanidade. A Ciência sem filosofia é corpo sem esqueleto, filosofia sem ciência é o mesmo que um violonista sem violino buscando replicar a música que vem da natureza. Pois bem, a metafísica é o elo entre Scientia e Religare.

Por natureza, instintivamente, o ser humano sempre procurou o que chamar-se-ia aqui de sobrenatural. Em qualquer parte do planeta terra há vestígios comprovados pela arqueologia. Uma situação e via de fato é essa busca e durante ela pela metafísica procurar entender a causa primeira do cosmos. Porém, outra é quando a via é o contrário, quando Deus vem até os homens para provar sua existência e também uma de suas características de imagem e semelhança, o amor, sendo a mais sublime das virtudes para comprovação empírica, e pela psicologia, científica da existência da alma e do sobrenatural. E sendo causa motriz, geratriz e ligante, como um maestro de orquestra, Deus não pode ser comprovado cientificamente. Não porque Ele não possua capacidade para tanto, ou que Deus seja somente matéria de fé. Mas sim, porque o ser humano não possui tecnologia ou possibilidade pelo método científico, assim foi desde o Padre Roger Bacon.

Mas sim e exclusivamente verdadeiro que a própria Ciência não é uma ferramenta completa para tanto. E isso, refuta a ideia de que Ciência e Religião não se misturam. Ciência verdadeira apenas retira recortes específicos da realidade, por exemplo, uma pessoa estudando neurociência dentro da educação inclusiva usará um método para resolver um problema da área específica, e ainda sob estudo e pesquisa de um caso especificamente também. Esse (é óbvio) método não pode ser usado para estudar comportamento animal de poríferos, o que exigiria novo método, abordagem, portanto, limitando cada Ciência em si.

Se e somente se um dia a Ciência poder-se-ia saber o que é Deus caso conseguisse em um único método suprir e sugar todas as informações possíveis da realidade na busca da verdade real do que é Deus. Tal método nunca vai existir, portanto a Ciência não tem capacidade de saber o que é Deus. E ainda sim, se tal método existisse, ele teria que ser projetado para além deste universo, que dentro da esfera dos multiversos não se saberia onde estaria Deus para encontrá-lo. Padre Roger Bacon, pai do método científico deixou bem claro isso quando o criou.

Diante do exposto, um verdadeiro religare é aquele oriundo e além da metafísica e busca pelo sobrenatural, mesmo partindo do natural. Se Deus fosse somente matéria de fé, os animais também teriam religião, ela não seria específica de um das criaturas terrenas e ainda sim até mesmo as rochas teriam fé. Há algo além do corpo que sequer a mais avançada área atual possa detectar. E isso é por erro de método e busca pela verdade real dos fatos e eventos sobrenaturais existentes na vida humana.

Enquanto que eventos transcendentais podem ocorrer entre seres não materiais de hierarquias metafisicamente superiores ao humano com este, noutros casos, se não houvesse o universo das almas em paralelo e ao mesmo tempo que este material, nunca haveria vida na terra, não haveria animosidade, anima, animal, fluido vital, corrente da vida, sopro da vida, mana, prana, ki, chi, ou qualquer termo na busca do sobrenatural (tais termos criados em diversas culturas). Lembra-se que o religare é um liame subjetivo de um Ser Superior a um ser inferior, sendo que este último podendo estar interligado porém não preso e sob influência dAquele (livre arbítrio e o direito natural da liberdade humana).

E ainda outro fator interessante é exatamente que, segundo Aristóteles, Agostinho e Aquino, a alma possui um fio de prata interligando o corpo à alma, naquela época não se sabia por onde, atualmente, sabe-se que é por glândula pineal no cérebro.  A autoconsciência junta à fé a busca da verdade real sobre a matéria e o mundo físico da natureza são pontos de partida para se chegar a Deus como métodos empíricos (ou um tipo de científico alternativo), mas ainda sim, primitivo, incompleto e inicial por causa da natureza limitada humana do cérebro, da mente e do corpo.

Referências Bibliográficas:

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