História

Adriano: a vida e morte do imperador romano responsável pelo primeiro holocausto judeu

Mais conhecido pelo muro de 118 quilômetros que ordenou que fosse construído para separar a Inglaterra dos saqueadores do norte, o imperador romano Adriano foi um homem à frente de sua tempo, combinando brilho militar com sensibilidade artística refinada. No entanto, na hora de sua morte, ele havia sido reduzido a um tirano vingativo que se deleitava com selvageria e a licenciosidade sexual.

Talvez o mais perturbador na vida do imperador Adriano seja o fato de que ele tenha sido também o responsável pelo primeiro holocausto – um genocídio que exterminou mais de meio milhão de judeus, quase dois milênios antes de Hitler perpetrar sua própria Solução Final. Como uma vida poderia abranger tais extremos?

Quem foi Adriano?

Adriano nasceu em 76 d.C., perto de Sevilha, na Hispânia, em uma família nobre de origem romana. Aos 14 anos de idade, ele viajou para Roma, a capital do Império Romano, que contava com milhão de pessoas como habitantes, para começar sua lenta e constante ascensão política. Aos 16 anos ele estava servindo no Exército Imperial Romano, nas fronteiras dos rios Reno e Danúbio, na Alemanha.

Alto e de constituição forte, com uma espessa cabeleira encaracolada e olhos inteligentes, Adriano marchava, cavalgava e lutava tão arduamente quanto qualquer outro, independentemente do clima. Conta-se que ele comeu o mesmo pão grosso e bebeu o mesmo vinho barato e ralo que seus soldados mais baixos e, por isso, ganhou a admiração de seus subordinados.

Ele era um caçador apaixonado, um linguista talentoso e, mesmo em sua humilde tenda de campanha, um estudante ardoroso de poesia e filosofia grega. Em pouco tempo ele chamou a atenção de seu primo o Imperador Trajano, e se juntou ao séquito imperial. Um contemporâneo escreveu que ele era “amigável e digno, sério e divertido, econômico e generoso, em todas as coisas versáteis e variadas”.

A variedade também se aplicava a sua vida sexual, seus numerosos casos amorosos, incluindo mulheres, especialmente mulheres casadas mais velhas, e rapazes jovens, eram notórios. Apesar de tudo ele se casou com sua jovem prima, de 14 anos, a nobre Víbia Sabina em 100 d.C. Devido a personalidade forte de ambos o casamento foi repleto de conflitos.

Quando o velho Imperador Trajano morreu sem filhos em 117 d.C., não foi surpresa nenhuma a ascensão de Adriano ao trono imperial. O primeiro ato do novo monarca foi retirar as legiões da campanha impopular de seu antecessor na Pártia – uma grande parte do Oriente Médio moderno.

Logo depois estabeleceu fronteiras permanentes ao redor do Império Romano com uma muralha no norte da Inglaterra, outra nos desertos do Norte da África, além das Montanhas Aures, e uma enorme paliçada de madeira conduzida pelas florestas da Alemanha.

Adriano também incentivou a cultura e as artes. Ele completou o Templo de Zeus Olímpico em Atenas e reconstruiu o Panteão de Roma, inalterado até hoje. Era um homem ativo fisicamente falando. Sabemos que escalou o Monte Etna na Sicília e viajou pelo Egito, ficando fascinado pelos templos e oráculos místicos da região. Vale também citar que ele promulgou leis protegendo os escravos da crueldade de seus senhores e reservou horas especiais para os inválidos usarem os banheiros públicos sem serem perturbados.

Em uma de suas viagens a Grécia Adriano viu pela primeira vez um belo adolescente chamado Antínoo e se apaixonou pelo mesmo. O soberano decidiu adotar o menino como seu “companheiro” e escreveu poesias para ele. Antínoo e o imperador protagonizaram inúmeras viagens juntos. Sendo a última parada o Egito, onde uma tragédia teve lugar. Antínoo acabou caindo no Rio Nilo e se afagou.

A revolta mais violenta que Roma já viu

Adriano era um apaixonado pela Grécia Antiga, e tinha em mente impor o helenismo como cultura predominante em todas as províncias de seu Império, incluindo a Judeia. Para por isso em prática o soberano aprovou uma lei proibindo a prática da “circuncisão”, masculina entre os judeus e ordenou que uma estátua gigantesca de Júpiter, o deus pai de todos, segundo a Mitologia Romana, fosse erguida no Templo de Jerusalém, como um símbolo da unidade de todos os homens. Era o início da Terceira guerra judaico-romana.

Não muito depois, chegou a Roma uma notícia alarmante: toda a Judéia estava em chamas – o povo judeu estava se rebelando. Seu líder era Simon bar Kokhba, ‘o Filho de uma Estrela’, que chegou a ser confirmado como O Messias há muito esperado pelo povo Judeu. A confirmação foi feita por parte do Rabino Akiba ben Joseph.

Enfurecidos com os insultos de Roma à sua religião e pátria, os judeus haviam estocado armas e planejado esconderijos secretos. Eles atacaram os romanos quando os mesmos estavam desprevenidos matando milhares de cidadãos de Roma, logo depois emitiram sua própria moeda e declararam a Judeia como um estado independente.

Porém, os romanos foram rápidos no contra-ataque. A Legio VI Ferrata marchou da Galiléia para esmagar os rebeldes, junto com o Xº Fretensis que guarnecia Jerusalém. Cerca de 12.000 veteranos endurecidos pela batalha foram derrotados pelos homens de Kokhba. Então uma outra legião, a XXII Deiotariana, foi deslocada de Alexandria, no Egito, até a Judeia apenas para ser completamente exterminada.

Quando soube da rebelião Adriano ficou duplamente enfurecido, pois foi informado que os judeus tiveram um prazer especial em destruir a estátua de Antínoo em Jerusalém. Em mais uma tentativa de aplacar os rebeldes Adriano convocou o seu melhor general, Júlio Severo, que estava na Inglaterra, e navegou com ele para Cesaréia, comandando tropas de fuzileiros navais da base naval de Miseno.

Júlio Severo e Adriano também estavam acompanhados de mais 12 legiões. Aquela era a revolta mais séria que Roma já havia conhecido. Seria necessária metade da máquina de guerra romana para pacificar a Judéia, pois Simon bar Kokhba comandava 400.000 homens e tinha o apoio de toda a província.

Os romanos não mostraram misericórdia quando desembarcaram na Judeia. Em um processo constante de violência, escravidão e extermínio, as legiões arrasaram vila após vila, cidade após cidade. Foi dito que os legionários romanos envolveram crianças judias em rolos da Torá – o texto sagrado dos judeus – e as queimaram vivas, numa cena de horror. Adriano também ordenou que seus legionários massacrassem todos os homens capturados com mais de 14 anos e vendessem todas as mulheres e crianças como escravos. O imperador estava determinado em exterminar os judeus.

Já chegando ao final do conflito Simon bar Kokhba e seus seguidores mais fieis tomaram sua última resistência na cidadela de Bethar, fora de Jerusalém, onde foram sitiados, morreram de fome e finalmente foram capturados. Bar Kokhba foi decapitado e sua cabeça foi entregue ao Imperador Adriano em um saco. E o velho Rabino Akiba foi esfolado e despedaçado sob o olhar do imperador

Consequências da revolta e morte de Adriano

A província da Judeia foi renomeada para Síria Palaestina e Jerusalém mudou seu nome para Aelia Capitolina, e nenhum judeu sobrevivente teve permissão para entrar em sua cidade sagrada. Se pensa que cerca de 585.000 judeus morreram na revolta, pela guerra, fome e doenças. Após 16 anos dedicando seu reinado à alta cultura e a pacificação, Adriano se viu envolvido em uma das mais sangrentas repressões romanas.

No final da vida Adriano se retirou para sua vila em Tivoli. Seus 900 quartos extravagantes e vastos jardins não se pareciam muito com a antiga modéstia do imperador. Conta-se que sua autodisciplina e idealismo juvenis deram lugar a banquetes pródigos e orgias sexuais. Ele se rendeu a ‘luxos e delícias sensuais’, escreveu um contemporâneo com desaprovação, logo se tornando um homem corpulento com problemas cardíacos, pernas, mãos inchadas e unhas escurecidas.

Adriano foi sucedido por Antonino Pio, um homem bom, piedoso e sóbrio, que foi nomeado seu sucessor. O imperador chegou a implorou a um de seus assistentes mais velhos que o matasse, mas não teve êxito. Adriano morreu em aposentos privados e bebeu até a morte, em 10 de julho de 138.

Com informações de Daily Mail

Imagem: Busto do Imperador Adriano no British Museum, em Londres. Foto de 10 de julho de 2016. © Wikimedia Commons

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Fernanda da Silva Flores

Colunista associada para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos de personagens monárquicos, curiosidades históricas e notícias arqueológicas.
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