História

Como nos inventamos os vikings

Até o reinado de Vitória I do Reino Unido, os vikings eram descritos como sanguinários e violentos. Mas, durante o século 19, as percepções do público mudaram, então eles passaram a ser vistos como civilizados e até mesmo como um exemplo dos valores vitorianos. Saiba mais a seguir.

As crônicas da Inglaterra medieval sempre retrataram os vikings como sanguinários, violentos e vorazes, quase como lobos entre ovelhas. O primeiro desafio às muitas imagens anti-viking promovidas pelos primeiros cronistas surgiu no século 17 quando as edições acadêmicas do que se acreditava serem textos da Era Viking começaram a atingir um pequeno mas influente número de leitores na Grã-Bretanha.

Essas obras revelaram um perfil mais civilizado da cultura escandinava, com seu sistema de ética, espiritualidade desenvolvida (embora pagã) e instintos e estruturas que podem ser descritos como democráticas atualmente. Durante o século 18, contos, lendas e mitos nórdicos antigos também passaram a atrair os leitores.

Apesar de todos esses primeiros sinais de interesse pela cultura Viking, foi a Grã-Bretanha Vitoriana que realmente inventou os vikings como os conhecemos agora. O termo ‘Viking’ era relativamente desconhecido até o início do século 19. A primeira referência a palavra foi feita no Oxford English Dictionary e data de 1807.

Os arqueólogos, por sua vez, começaram a desenterrar e tirar o pó do passado viking da Grã-Bretanha: túmulos negligenciados foram abertos, lápides fragmentadas e joias antigas foram examinadas. Entusiastas do dialeto ficaram ansiosos para identificar uma origem na Era Viking para expressões idiomáticas e provérbios rurais encontrados em seu trabalho de campo. Novas gramáticas e dicionários da língua islandesa antiga permitiram aos vitorianos lidar com textos primários, apoiados na ocasião pelo contato com ilustres estudiosos islandeses residentes na Grã-Bretanha.

A corte da Rainha Vitória não permaneceu intocada por essas brisas culturais do norte. Houve alegações de que Vitória era descendente de Óõinn e que toda a família real de Hanover era aparentada com Ragnarr Hairy-Breeches, um poderoso chefe viking; e que o rei Haraldr Bluetooth era ancestral de Alexandra da Dinamarca, na altura princesa de Gales, nascida na Dinamarca em 1844.

Até mesmo o principal médico da rainha, Sir Henry Holland, era um explorador pioneiro da Islândia e, sob sua influência, um erudito islandês nativo foi recebido na corte, onde recitou um poema islandês de estilo eddic. O poeta afirmou que foi a primeira apresentação desse tipo por um ‘skald’ islandês desde que Gunnlaugr Língua de Cobra visitou o rei Æthelred, o Unready, no século 11. Além disso, o principal organista de Vitória na capela de St George do Castelo de Windsor tocava canções de The Pirate, um romance de Sir Walter Scott de 1821, que abordava valores vikings nas ilhas pós-medievais de Orkney e Shetland.

Em 1834 o capelão de Vitória, William Strong, realizou a tradução da Saga de Frithiof da versão poética sueca de Esaias Tegner. A saga islandesa do século 14 traz valores compatíveis com aqueles admirados pelos vitorianos como amor irrestrito a uma donzela, valentia varonil, patriotismo, retidão inflexível e devoção.

Vikings como modelos de comportamento

No início do século 20, os ilustradores de livros infantis forneceram aos vikings todos os acessórios com os quais eles são retratados com frequência hoje: longos cabelos loiros, capacete com chifres decorados, espada reluzentes e navios com mastros retratando dragões. Tais descrições foram baseadas – em parte – nas descobertas arqueológicas dos Barco de Oseberga e Barco de Gokstad.

As gravuras na tradução de 1839 de George Stephens do conto Frithiof estabeleceram os elementos principais das estruturas vikings. Como, por exemplo, o salão ricamente decorado, o templo pagão (entusiastas vitorianos consideravam a antiga piedade pagã do norte como preferível ao racionalismo científico moderno), as pedras rúnicas e os longships.

Esses símbolos também pretendiam sinalizar as antigas virtudes nortistas mais amplas, que alguns entusiastas identificaram no cerne da nacionalidade britânica. Tais sentimentos alcançaram os jovens do centro da Inglaterra, desafiando a supremacia anteriormente inquestionável da herança cultural greco-romana da nação.

Os vikings modernos

Inevitavelmente, tais percepções da Era Viking passaram por muitas transformações significativas desde então. Já se foi o tempo em que os livros e pinturas retratavam vikings com capacetes com chifres. Precisamente por causa de sua capacidade de passar por transformações, reconstruções e reavaliações culturais os vikings mantém seu poder de atrair e intrigar as pessoas até hoje.

Várias das qualidades que antes atraíam os vitorianos aos vikings permanecem sedutoras até os dias de hoje, e novas ênfases também surgiram com o passar do tempo. Apesar de tudo os velhos nórdicos exercem sua maior influência nas Terras Altas da Escócia e em ilhas e regiões da Grã-Bretanha.

Atualmente o que mais chama atenção na Cultura Viking é a arte poética, as representações de mulheres guerreiras, inscrições rúnicas, suas atitudes em relação ao meio ambiente e ligações entre língua e nacionalidade. Não é a toa que uma das séries de maior êxito televiso dos últimos tempos retratem os vikings.

Com informações de BBC

Imagem: Haroldo I da Noruega (Peter Franzén) com Astrid (Josefin Asplund) em Vikings. © History

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Fernanda da Silva Flores

Colunista associada para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos de personagens monárquicos, curiosidades históricas e notícias arqueológicas.
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