História

Irmãos e rivais: uma análise da relação de Ricardo, Coração de Leão e João Sem Terra

A história do rei inglês João Sem Terra é uma história de fracasso – ele foi o último dos reis angevinos, e é lembrado por não conseguir manter seu território no oeste da França, perdendo sua coroa e artefatos de muito valor na lama da Ânglia Oriental. Seus impostos altos e demandas abusivas levaram seus súditos a impor a Magna Carta, fazendo com que ele quase perdesse o Reino da Inglaterra. É a tragédia de um gênio imperfeito, aleijado por sua própria herança.

João Sem Terra era o quarto filho de Henrique II de Inglaterra com sua esposa Eleonor de Aquitânia. Ele cresceu à sombra de seus irmãos mais velhos. Em uma família tão obcecada por seus direitos e posses, ser o último de quatro filhos não era uma posição invejável. Henrique II foi claro sobre suas esperanças para os primeiros três filhos varões, mas até que a Irlanda surgisse, João parecia ter sido deixado de fora das políticas de seu pai.

Em várias ocasiões ao longo de sua vida antes de se tornar rei, João foi destinado à Igreja, a um casamento italiano e a terras fragmentadas que pertenciam a seus irmãos e que estes se recusaram a lhe dar. Seu próprio pai deu-lhe o apelido depreciativo de “Sem Terra”, e foi só com a morte de seu irmão mais velho, Henrique, o Jovem, em 1183 que João começou a figurar nos planos de Henrique II

Com a morte de Henrique, o Jovem, os planos de Henrique para um amplo Império Angevino estavam em perigo. Ele tentou resolver isso ordenando a Ricardo, Coração de Leão que entregasse a Aquitânia a João, com a implicação de que Ricardo tomaria o lugar de Henrique, o Jovem, como herdeiro aparente. Porém, seus planos foram frustrados quando Ricardo não desistiu da Aquitânia e começou a fortificar seus castelos contra qualquer tentativa de Henrique de tomá-los dele.

Num acesso de raiva, Henrique disse a João que ele deveria formar um exército e tomar o ducado para si. Não era uma sugestão séria, mas João acreditou em sua palavra, fazendo um pacto com seu irmão Godofredo, no qual os dois invadiram Poitou. Para solucionar esses conflitos diversas conferências entre as partes interessadas foram realizadas, mas elas nunca trouxeram uma solução completa. 

Em 1184 surgiram problemas na Irlanda. A solução de Henrique II foi severa. Ele nomeou João, de 18 anos de idade, como cavaleiro e deu-lhe um exército de 300 cavaleiros e um tesouro, e o enviou ao país para cuidar da situação.

De acordo com o relato de Geraldo de Gales fazia parte da comitiva de João, o futuro monarca levou consigo, em sua comitiva, muitos homens jovens, que ridicularizaram os chefes irlandeses quando eles apareciam para homenageá-los, e a quem fez concessões de terras que hostilizavam os colonos normandos. Então, quando os irlandeses enterraram suas diferenças e se uniram contra ele, João se viu isolado e impedido pelos habitantes locais de reagir as investidas. Incapaz de pagar seus mercenários por causa da extravagância de seu estilo de vida, ele foi forçado a abandonar a Irlanda em setembro fracassando em sua missão.

Com a morte de Godofredo em um torneio e a piora no relacionamento entre Henrique e Ricardo, João se tornou o favorito de Henrique. O monarca parece ter reconhecido as limitações do filho mais novo, pois não o nomeou como o herdeiro do trono, embora preferisse manter Ricardo em dúvida sobre sua posição.

João falhou em expulsar seu irmão da Aquitânia e, na idade em que Ricardo estava intimidando aquela província à submissão, ele desperdiçou suas oportunidades na Irlanda criando um fiasco militar. Porém, a maior decepção de Henrique II em relação a João Sem Terra foi a descoberta de que último o traiu e passou para o lado de Ricardo, após o mesmo pactar uma aliança com Luís VII de França e declarar guerra a Henrique em 1189.

Após o falecimento de Henrique, Ricardo foi coroado rei de Inglaterra em 3 de setembro de 1189. Ele nomeou seu irmão caçula como Conde de Mortain e concedeu-lhe extensas terras na Inglaterra (incluindo Nottingham). Temendo uma conspiração e sabendo das tendências problemáticas de João o novo soberano decidiu bani-lo da Inglaterra por três anos, enquanto fazia uma Cruzada na Terra Santa. No entanto, Ricardo acabou sendo convencido por sua mãe, Eleanor, a permitir que João voltasse à Inglaterra. 

Nesse momento a personalidade ambiciosa de João veio a tona novamente. Ele conspirou contra o regente de Ricardo, William Longchamp, e se estabeleceu como rei em tudo, menos no nome. Um complô para dividir o Império Angevino entre ele e o novo rei francês, Felipe II de França, foi apenas evitado por sua mãe, quando ela o interceptou quando ele estava prestes a embarcar em Southampton. Quando Ricardo foi preso ao retornar das cruzadas, pelo duque Leopoldo da Áustria, João novamente conspirou com o rei francês para tomar o reino de Inglaterra.

Conta-se que Ricardo não ficou impressionado e sufocou a rebelião de João rapidamente. João fugiu para a França, mas logo foi perdoado por seu irmão que faleceu em 6 de abril de 1199. Em seu leito de morte, Ricardo nomeou João como seu herdeiro, embora pela lei da primogenitura Artur, filho de um irmão mais velho, Godofredo, deveria tê-lo sucedido.

Assim, apesar da rivalidade e das imensas diferenças entre ambos, no final das contas, Ricardo e João conspiraram para manter a coroa na família, e a coroação de João ocorreu na Abadia de Westminster, em 27 de maio do mesmo ano, dando início a um dos reinados mais controversos da história inglesa.

Com informações de BBC

Imagem: Ricardo, Coração de Leão, Rei de Inglaterra, por Merry-Joseph Blondel, 1841. Herbert Beerbohm Tree como Rei João em King John por William Shakespeare, 1900. Óleo sobre tela de Charles Buchel. © Wikimedia Commons/Shakespeare & Beyond.

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Fernanda da Silva Flores

Colunista associada para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos de personagens monárquicos, curiosidades históricas e notícias arqueológicas.
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