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Medidas verdes combinadas reduzem alagamentos em até 85%

Priscila Alves é graduada em Engenharia Civil e mestre em Engenharia Civil e Ambiental pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), na Paraíba. É bolsista de doutorado pleno na Universidade de Exeter, na Inglaterra, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Durante os estudos, ela criou um modelo de medidas sustentáveis para reduzir alagamentos na cidade paraibana onde se formou. Publicado em revista científica internacional, o trabalho foi destaque no jornal norte-americano The New York Times.

Priscila Alves apresenta trabalho em conferência na Universidade de Exeter, na Inglaterra, em 2018 (Foto: Arquivo pessoal) .

Como surgiu seu interesse pelo assunto?
Tudo começou quando eu estava cursando graduação em Engenharia Civil na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), em 2010. Sempre procurei participar de projetos de iniciação científica, como forma de praticar os conhecimentos adquiridos em sala de aula.

Em 2012, participei de uma seleção da CAPES/FIPSE (Programa de Consórcios em Educação Superior entre Brasil e Estados Unidos) e fui selecionada para um intercâmbio de seis meses na Universidade do Novo México (EUA). Foi o meu primeiro projeto de fomento de pesquisa na área de recursos hídricos, realizado em cooperação entre a UFCG, a Universidade do Novo México e a Universidade de Tecnologia do Texas (EUA). Foi um divisor de águas na minha vida profissional. Eu não teria tido uma experiência tão enriquecedora não fosse pela CAPES.

Quando retornei ao Brasil, em 2013, continuei na mesma linha de pesquisa. Dessa vez, fui selecionada para trabalhar em um projeto que elaborou o Plano de Saneamento Básico para a cidade de Campina Grande (PB). Pude estudar sobre o caso da cidade com mais profundidade. O término foi em 2015, perto da minha conclusão de curso.

Priscila Alves é bolsista de doutorado pleno na Universidade de Exeter, na Inglaterra (Foto: Arquivo pessoal).

Ainda em 2015, fui selecionada como bolsista de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental na UFCG. Minha dissertação desenvolveu um modelo de implantação de medidas sustentáveis para a redução de alagamentos em Campina Grande, baseado em aspectos da governança (principalmente a legislação) e climáticos (considerando o clima da região semiárida). No mestrado, publicamos artigos em revistas, incluindo o texto Land-Use and Legislation-Based Methodology for the Implementation of Sustainable Drainage Systems in the Semi-Arid Region of Brazilna revista Sustainability, que rendeu a entrevista ao The New York Times.

Atualmente, sou bolsista de doutorado pleno da CAPES. Estou no último ano do doutorado em engenharia da University of Exeter. A tese é na mesma linha de pesquisa, mas com o estudo mais aprofundado de como as medidas sustentáveis podem ser aplicadas em áreas cidades urbanas, não só com restrições do ponto de vista regulatório, planejamento e climático, mas também considerando aspectos sociais que os residentes da cidade estão sujeitos. A pesquisa desenvolve uma metodologia socioespacial, pela colaboração entre residentes, autoridades e especialistas, para melhor gestão dos alagamentos e escassez hídrica.

Fale sobre o trabalho que foi tema da entrevista ao The New York Times.
É fruto de uma publicação que fizemos em janeiro de 2020 na Revista Sustainability, que sintetiza alguns dos resultados obtidos com o meu mestrado na UFCG e parte dos resultados do doutorado em Exeter. O artigo traz uma análise do caso de cidades urbanizadas que enfrentam alagamentos, mas que estão localizadas em áreas com o clima árido e semiárido.

Nos últimos anos, as infraestruturas verdes estão sendo aplicadas em várias regiões no mundo (EUA, Inglaterra, Austrália, entre outros). Essas soluções sustentáveis, porém, não podem ser aplicadas diretamente no Brasil por fatores como legislação, condições climáticas e vulnerabilidades. Dessa forma, desenvolvemos uma metodologia para a seleção e modelagem de medidas sustentáveis verdes (jardins e telhados verdes e pavimentos permeáveis) por meio de uma combinação de aspectos legislatórios, climáticos e territoriais. Resultados mostraram ótimas porcentagens de redução de alagamentos das medidas isoladas e até 85% de redução com a combinação das medidas verdes.

Ainda há um longo caminho pela frente, mas a nossa pesquisa contribui para a busca por melhores formas para a implantação de soluções para países em desenvolvimento, como o Brasil, e também com clima seco, como a região semiárida. Acreditamos que a implementação das medidas verdes deve considerar fatores interdisciplinares, como a governança, clima e território, e também hidrológicos. 

Qual o principal impacto do seu trabalho dentro e fora do Brasil?
O maior impacto é trazer à tona a discussão de formas adequadas para a implantação das medidas verdes por meio de uma análise local. Medidas verdes estão sendo propostas em vários países desenvolvidos do mundo, mas não serão eficientes sem uma análise das particularidades do local a ser implementado. Por exemplo, não há como implantar no Brasil a mesma legislação de infraestrutura verde hoje eficiente na Inglaterra. O planejamento integrado se faz necessário. Uma colaboração entre todos os setores que regem as cidades. Nossos resultados demonstram a necessidade da discussão e colaboração também com os cidadãos e podem auxiliar muitas cidades com situações semelhantes no Brasil e no mundo.

Região de Campina Grande – PB comumente afetada por alagamentos e que foi local de visita de Priscila Alves durante o doutorado em maio de 2019, quase um ano antes do início da pandemia (Foto: Arquivo pessoal)

O que as autoridades podem fazer para melhorar o manejo dos recursos hídricos?
No Brasil, é muito comum que haja desconexão entre o planejamento urbano e o planejamento de recursos hídricos. Isso fez muitas cidades serem construídas sem um cuidado com a disponibilidade e falta de água. Da mesma forma, muitas cidades são construídas sem um sistema de drenagem adequado. Essa situação piora quando as cidades crescem, o que faz com que a frequência e intensidade dos casos de alagamentos aumentem e mais pessoas sejam expostas ao evento extremo. Acredito que a forma de execução do planejamento deve mudar. A união de aspectos sociais, regulatórios e ambientais irá refletir não só na segurança hídrica e nas necessidades da cidade, mas também na vida dos próprios residentes.

Pretende avançar no assunto ainda mais na sua tese? Sim, nos últimos meses temos continuado com o desenvolvimento da pesquisa. Estamos trabalhando com a inserção de novos indicadores, como as vulnerabilidades sociais, institucionais e a exposição dos residentes.  Como as cidades são altamente dinâmicas, temos desenvolvido modelos sociais e espaciais com o uso de abordagens participativas e Sistemas de Informação Geográfica (SIG) para modelar melhores posicionamentos das medidas verdes em escala local.

Estou no último ano do doutorado. De forma geral, minha tese tem o objetivo de propor uma integração entre o planejamento de recursos hídricos e territorial em áreas com a susceptibilidade de múltiplos eventos extremos (secas e alagamentos). O estudo em Campina Grande (PB) pode beneficiar várias cidades do Brasil e de outros países que enfrentam secas e alagamentos e passam por urbanização.

Estive no Brasil entre maio e junho de 2019 para uma pesquisa de campo com os residentes, autoridades e especialistas de Campina Grande. Cerca de 200 pessoas participaram do Projeto Planeje Eventos Extremos (Planejeee). Nessa oportunidade, pudemos perceber a grande necessidade e dificuldade que os residentes enfrentam para se protegerem de dois eventos extremos opostos (secas e alagamentos).

Como resultados, esperamos elaborar um novo modelo com a proposição de medidas de acordo com benefícios hidrológicos, mas também sociais, diagnosticando as maneiras para melhorar a capacidade adaptativa dos residentes e investigando maneiras adequadas de colaboração entre autoridades, especialistas e cidadãos.

Qual a importância da CAPES nos seus estudos?
Recebi bolsas da CAPES em diferentes momentos da minha vida profissional. Minha carreira não seria a mesma sem as bolsas de estudo. É sabido que esses financiamentos são muito importantes para o desenvolvimento das pesquisas. São os salários dos pesquisadores. E são essenciais para o desenvolvimento dos profissionais envolvidos.

No meu caso, eu não teria como ter estudado e exercido a minha profissão no contexto internacional sem o incentivo da CAPES. Da mesma forma, sem a bolsa, possivelmente eu não teria participado da seleção do mestrado na UFCG, pois não teria como arcar com os custos sem estar recebendo um apoio financeiro.  Acredito, portanto, que o apoio da CAPES foi essencial para a minha formação, desde a graduação, em 2012, até o  doutorado pleno, atualmente.

(Brasília – Redação CCS/CAPES)
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Joice Maria Ferreira

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre as atualidades sócio-políticas e econômicas da região, história, arqueologia, tecnologia, ciências, literatura. Natural de Itajaí, Santa Catarina, social mídia.
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