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Na estrada para morrer de tédio

-O título serve como sugestão de subtítulo para “Nomadland” o mais deprimente e chato filme da história dos ganhadores do Oscar, que estava mais para a Framboesa de Ouro. 

Quando, três dias antes da premiação, meu filho estava passeando por uma plataforma de streaming e me perguntou se naquela noite eu gostaria de ver um filme cujo resumo era: “uma mulher de 60 anos resolve viver como nômade nos Estados Unidos”, pensei que talvez fosse alguma leitura da realidade de muitos idosos pré e pós pandemia e isolamento, imaginei que se tratava de um filme em que as personagens se atualizaram e resolveram aderir ao trabalho digital para viajar e aproveitar a vida com mais qualidade, sem apego material, sem emprego formal e realizando os sonhos de conhecer países, paisagens e culturas a partir de sua rica experiência de leituras, de relacionamentos, enfim, esse seria um argumento que apresentaria perspectiva, no sentido amplo da palavra, e certamente daria um ótimo roteiro. Mas para quê, se você pode fazer um filme muito, muito ruim, de baixo orçamento e até ganhar Oscar, já que a atriz é boa, a diretora é chinesa e vai lacrar com a comunidade e os novos moderninhos da academia? 

Se quer um conselho, não vale a pena assistir a esse filme B; são duas horas a menos na sua vida e certamente você ainda não teve a oportunidade de ver toda a filmografia do Martin Scorcese, do Hitchcock ou do Stanley Kubrick. Vou dar spoiler aqui, então, se quer investir seu tempo de vida em algo que lhe dê mais prazer, alegria e acrescente conhecimento, leia este artigo até o fim e depois nos agradeça. Se quiser se arriscar, garanto que vai passar raiva de ver tanta paisagem árida.

Roteiro fraco – O filme começa com a depressiva, feia e masculinizada Fern, que mora em uma van improvisada depois de ficar viúva e enfiar suas tralhas em um depósito. De lá ela só tirou um jogo de pratos como acessório para suas viagens, e essa é parte favorita dos minimalistas de plantão que ignoram o conceito de Minimalismo. Ela mora a cada dia em um lugar e vive de trabalhos temporários, naquele momento, na Amazon. No início pensei se tratar de home office, mas ela é empacotadora, Sessenta anos e ela vive de subempregos braçais, seja catando beterrabas, engordurando-se na chapa de uma lanchonete ou trocando sua estadia por serviços gerais no camping, o que inclui limpar banheiros, tirar lixo e consertar a rede elétrica. Com essa vida dura e mal-remunerada, não é de surpreender que Fern não seja capaz de dar um sorriso largo, de se relacionar com a família, de não conseguir nem corresponder ao carinho de Dave, um velho bonitão que a tira para dançar em um bar. Aliás, péssima dança, sem nenhum appeal ou sensualidade. Fern é antissocial, só se conecta com estranhos e está totalmente despreparada para uma vida nômade de qualidade.

Primeiro, sua Van não tem nenhuma proteção para o inverno, e ela se recusa a dormir em um quarto que lhe é oferecido no posto de gasolina, passa frio e quase morre. Depois, seu círculo de amizades são as pessoas que moram em trailers e motorhomes estacionadas –  fiquei em dúvida se são novas tribos psicodélicas ou comunidades alternativas, mas no fim são todos idosos abandonados, cujos filhos ou familiares provavelmente os internariam em asilos, então os vovôs e vovós fugiram de casa. Como os filhos não estão nem aí para os pais, os idosos vão para longe para morrer como animais domésticos colocados novamente no mundo selvagem. Dave é aquela exceção que reencontra o caminho de casa. O filme todo está mais para Discovery. Está gostando até aqui? Ainda não chegamos à metade do suplício.

Por mais arrastado que seja, todo filme tem que ter um pouco de ação, um obstáculo, senão a plateia dorme. O imprevisto previsível é que o carro de Fern quebra e ela precisa de dois mil dólares para consertar e continuar sua “aventura” estradeira. Pede emprestado à irmã “burguesa”, por telefone, como uma adolescente fugitiva pede dinheiro ao pai opressor. A irmã coloca uma condição para o empréstimo, ela ir buscar pessoalmente, para o nosso desgosto, cenas escuras, lentas, em que só se salva um comentário da irmã de Fern, única que se prontifica a defender seu estilo de vida: “Minha irmã adotou um estilo próximo aos nossos pioneiros”, o que é mesmo uma bobagem de quem está alheio à realidade de Fern e da História americana. Totalmente deslocada em uma casa comum, ela não é capaz de estabelecer nenhuma conexão com sua família, não é capaz nem de manter um diálogo amigável. Repleto de paisagens do campo, do deserto, do céu e do mar, nada é objeto de contemplação para Fern, ela vê tudo com indiferença e pior, passa essa sensação para o público, de que a natureza, as coisas e as pessoas, as obras de arte e tantas experiências que o mundo ainda pode nos desvelar na maturidade não significam nada para nosso crescimento, já que o futuro está atrás de si, e para a frente não há nada, só a repetição das angústias do passado. 

Essa falácia não pega quem sabe ler e não se deixa manipular, pois está claro que essa é a visão particular das frustrações da diretora Chloe Zhao, uma chinesa que nasceu sob aquele regime que matou entre dois e três mil estudantes na Praça da Paz Celestial, em 1989 (ela nasceu em 1982). Zhao faz aquele tipo de filme-cabeça para bombar em festivais de cinema independente cujas sessões têm menos importância que as festinhas de pré-estreia. Coloquei no final uma matéria sobre essa passagem histórica que a China quer apagar, mas a internet não deixa. 

Metade do filme já foi – Estamos nesse ponto que Fern conserta a van e segue viagem. Uma série de pessoas e situações cruzam seu caminho, a imagem que se tem dessa pobre senhora é de uma idosa que ajuda os outros, mas não a si mesma. Em uma das cenas, Dave, o velho simpático do bar, que também mora em um trailer, trabalha de guia em um parque temático e depois em uma lanchonete (aliás, ele até arruma uma vaguinha para ela na chapa), volta para a casa de seu filho e a convida a visitá-lo. Diferentemente de Fern,  Dave tem sentimentos e emoções genuínos e passa a morar rodeado pelos familiares, convidando Fern para ficar com ele. Você acha que ela aceita? Claro que não! Ela é uma falsa minimalista, está presa ao passado, ao marido morto do qual ela não consegue nem deixar de usar a aliança.  

E a metáfora do pratinho? Muito tosca. Ela fica possessa com Dave, que quer ajudar a arrumar suas coisas na Van e sem querer derruba uma caixa sem fundo, quebrando o prato de estimação do casamento da viúva depressiva. Depois vem aquela cena intragável, Fern colando os cacos com super bonder. E tem gente que consegue ver profundidade nessa banalidade! Essa passagem é mesmo revoltante e um dos maiores clichês do cinema. 

Não pude, também, deixar de olhar as críticas da imprensa cinéfila que tem como referência a Netflix. No G1: “Cidades-Fantasma, Brasil tem municípios abandonados como mostrado em Nomadland” O que tem a ver uma coisa com outra? Na Europa e no mundo todo há cidades-fantasma, mas o centro do filme são as pessoas-fantasma, os zumbis em que se transformaram idosos que perderam o sentido de suas vidas e ficam vagando sem destino, sem dinheiro, esperando a morte chegar enquanto cantam ao redor da fogueira. 

UOL: “Sonho americano pode virar pesadelo para quem vive do trabalho”. Que trabalho, UOL? o trabalho braçal na Sibéria a que eram submetidos os oponentes do regime comunista? Que eu saiba, todos vivemos do trabalho, e o jornalista parece antever o inferno escravagista de países com péssima internet, sem liberdade econômica, com altos impostos, muita corrupção e poucos serviços entregues pelo Estado. Está mais para pesadelo petista no Brasil. 

Há outras críticas que adoçam as próprias vaidades e bajulam essa diretora incompetente, esse trash movie e a atuação nível “dr. Spock”, de Frances McDormand. Saber que filmes como “..E o vento Levou”, “O poderoso Chefão”, “O Senhor dos Anéis” e “Gladiador”  receberam a estatueta em edições passadas só causa mais revolta e serve de comparação para concluir quão medíocre foi a premiação em 2021. Entretanto, para fazer justiça ao público que foi vítima desse estelionato cultural,  já podemos antever o fracasso financeiro e de audiência, pois definitivamente assistir a “Nomadland” é uma experiência desagradável, empobrecedora e entediante que merece relegar essa obra anti-cinema ao ostracismo. O filme acaba no meio, não acontece nada, ela continua naquela Van sem destino, sem causa, só dirigindo. Saiam fora, evitem. 

Como a China “apagou a memória”  o massacre da Praça da Paz Celestial https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48495352


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Vera Amatti

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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