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A parábola dos porcos selvagens

Da série Parábolas da vida

Como capturar porcos selvagens, de maneira simples e praticamente silenciosa

Alguns o chamam de javali, javardo, outros insistem de que se trata do porco bravo, porco-monteiro. Não importa.

Era uma vez, num lugar chamado Suide Gray, uma manada de porcos selvagens, chamada Babirussa. Os babirussas eram liderados por Hilochero. Alguns se destacavam e eram conhecidos por seus apelidos, Queixada, Caititu, Canela-ruiva, Sabucu, Tacuité, Tayassu (Taiaçu, Tanhaço ou Tajaçu, conforme o sotaque que grunhissem na savana), Tanhocati, Taguicati, Pecari, e outros mais.

Sendo bunodontes, os babirussas possuíam dentes molares com cúspides arredondadas e pouco desenvolvidas, ou seja, não precisavam de dentição exagerada para sobrevivência.

Devido às vantagens do local onde habitavam, assim como por alguns favorecimentos fisiológicos naturais, com o tempo se tornaram acomodados.

Eram predadores, mas tinham o aparelho digestivo adaptado a metabolizar diferentes tipos de alimentos. Viviam de fibras vegetais, ou seja, sem esforços ou riscos para caçarem. As gerações foram se acostumando a isso. Infelizmente “eram predadores”, pois sua capacidade de predação ficou restrita ao passado.

Etimologicamente a palavra onívoro – omnívoro – se originou a partir da junção de dois termos do latim: “omnis” e “vorus”, que juntos significa “aquele que come tudo ou de tudo”. Ao mesmo tempo, também passou a ser “aquele que come qualquer coisa” que lhe seja dada ou esteja disponível, sem grandes feitos para alimentação diária. Se até para os próprios víveres o alfeire se acomodou ao que lhe era oferecido (ou facilmente encontrado), fatalmente isso comprometeu a evolução de toda a vezeira.

Conforme o “Compendio de Medicina dos Animaes Domesticos” (grafia original), organizado por J. F. Macedo Pinto, 1852, os babirussas eram muito similares aos humanoides, no sentido de utilizarem mecanismos diferentes para as funções de absorção e digestão, o que lhes dava a condição de se acomodar a qualquer coisa.

Os humanoides, via de regra, eram da subespécie políticos, religiosos, ongueiros, partidaristas e alguns até se chamavam de parentes; todos peritos em construção de cercas, alguns com habilidade de erguimento quase que imperceptível. Qualquer que fosse a subespécie, sempre havia a possibilidade da existência de cretinoides.

A maioria dos cretinoides, muito embora apresentando a patologia do cretinismo, era formada em ACHOLOGIA: Achologista era (só naquela época) o profissional formado pela Universidade Facebook, pós-graduado em noticiários de “especialistas” blogueiros, vizinhos e jorNaZismo. O Achologista nunca se preocupava com os fatos, mas dava maior atenção à análise e interpretação dos fatos, ou seja, contorcionismo era sua ênfase. Geralmente possuía doutorado em “deslikar” e repelir tudo que tivesse relação com a verdade ou patriotismo. Sua principal função era (só naquela época) expor longas teorias, por vezes em altos brados – exigindo atenção máxima – sobre o que desconhecia.

Por causa de tanta habilidade, os humanoides e seus títeres passaram a colocar ração (milho, por exemplo), balanceada conforme os vários tipos de manadas.

Alguns porcos “inteligentinhos” se tornaram líderes rapidamente, até pela bajulação dos demais porquinhos. O líder os leva para a “comida grátis” conforme os desejos e necessidades de cada um.

Há o milho da religião (que muitos taiaçus confundiam com “espiritualidade” e tradição de alfeire), o milho da política (excelente armadilha dos sabucus para representarem pocilgas); o cereal da parentela invasiva (clãs queixadas, dominadores, intrometidos, inquiridores, porém “os perfeitos” e blindados); dos “amigos”, que passam longo tempo dedicado à exposição de suas teorias que devem ser entendidas e aceitas, sem contestações, et al.

Até hoje, os porcos adoram e crescem acostumados a seus pratos preferidos, e não enxergam o cerco se fechando.

Também por serem onívoros, eram, em sua maioria, oportunistas, como se conhecessem a “lei de Gerson” e “revoluções no sofá”. Eram capazes de consumir produtos de origem animal e vegetal, assegurando saúde, e excelente fertilidade, apesar da obesidade mórbida e banhas inúteis a si mesmos e aos demais.

Multiplicavam-se rapidamente, mas sem coordenação ou funcionamento positivo e protetivo, fosse para a manada da época ou geração futura.

Agora, coloque tudo isso de lado e veja como é simples:

Esses porcos selvagens eram considerados unidos e fortes pelo aspecto aparente e exterior. Pareciam inteligentes, especiais, ferozes e imbatíveis. Mas não eram sábios, muito menos comprometidos uns com os outros.

Hilochero, e demais líderes do grupo, passaram anos treinando os babirussas a viverem “bem”, com pouco trabalho, sempre “felizes e seguros”. Se todos os porcos fossem bonzinhos e submissos às diretrizes dele e hierarquias corporativas especializadas, se não fizessem muitos questionamentos, Hilochero lhes ensinava a técnica da zona de conforto e almoço de graça.

A manada estava bem “evoluída” e confortável em suas tradições “medianamente corretas”. Até que um dia, certo suíno do grupo, Caititu, teve curiosidade de entender melhor certas coisas. Isso foi o suficiente para ser considerado desvio do “status quo”, imposto por Hilochero. Esse porquinho, quase que insignificante ao grupo, não se conformava com certas coisas. Foi quando ele reuniu o máximo possível de porcos selvagens e passou a ensiná-los algumas verdades da vida. Certa vez ele passou um pequeno vídeo para eles. O filme fazia parte de uma série de documentários sobre animais, e o tema era “Como capturar porcos selvagens” (ops, eles mesmos!), e o roteiro – que todos assistiram – era o seguinte:

Primeiro localiza-se, na floresta, o lugar em que os porcos selvagens costumam frequentar. Ali, coloca-se um pouco de milho no chão, diariamente. Por necessidade e costume (além de fácil, cômodo e “garantido”), os porcos selvagens vêm diariamente ao mesmo local para comer o milho. Almoço grátis! Com base nesse filme e instruções, alguns dos porquinhos selvagens começaram desconfiar de seus guias, ou, pelo menos, analisar melhor suas questões pessoais. Passaram a questionar se seus “representantes” tinham ou não condições de estar na liderança. Abriram os olhos para a alimentação “tendenciosa”, além de péssimo treinamento e capacitação para novas gerações. Surgiram alguns questionadores no alfeire. Uma vez que a maioria dos seres vivos caminha em grupos, logo essa perspectiva se espalhou.

Não deu outra. Hilochero, iracundo por natureza, que não abria mão de ser o chefe, revelou a fera (que nunca havia adormecido), e rapidamente orquestrou toda a manada contra o “perigoso” Caititu. Não satisfeito, aquele que a todos “auditava” e ameaçava, mas que nunca se permitiu ser “auditado” – ninguém jamais teve coragem de fazê-lo sem que ele fosse o próprio “supervisor da auditoria”, nem sequer seus pares de mando ousavam se aprofundar -; sim, Hilochero enviou mensagens sobre Caititu a todas as varas da selva, que lhe acatavam prontamente sem qualquer contestação ou verificação dos fatos.

Assim foi o assassinato precípuo de Caititu, o que era totalmente contrário aos princípios das piaras mais evoluídas. Em pouco tempo, Caititu e porcos selvagens não adeptos do “status quo” apenas podiam observar, de longe, o que se perpetuava entre seus próprios irmãos chicos. Não deixou de avisá-los, mas nada podia fazer quanto ao instinto incorrigível da manada em se submeter inquestionavelmente a quem se autopromovia ao domínio e a ser o “representante” do persigal.   

Foram mais e mais se dizimando e caindo na grande cilada do “almoço grátis”, do tradicionalismo, e de seguirem cegamente quem lhes induzia ao cercado.

Existe o caminho largo que conduz facilmente ao alimento “rápido”, “prazeroso” e de fácil acesso. Essa trilha “vantajosa” existe na liderança, nas famílias, nas tradições e no próprio habitat das manadas. É conveniente. Parece preencher o ego suíno de, em terra de cego, ter um olho e ser “rei”. Há armadilhas invisíveis e perigosíssimas nesse caminho. Mas eles não enxergam!

Isso não significa que necessidades naturais e apetites sejam sempre perniciosos. Por vezes, são as questões essenciais de própria espécie suína, de alimentos físicos, psíquicos e imateriais, como necessidades de caminhar em manada, ter alimento na mesa, manter as condições “sine qua non” do grupo, seguir um líder sem questionamentos. O grande risco está nas tendências. E o porco selvagem não percebe isso. Ou seja, estar “tribalmente” correto, e andar adequadíssimo ao que seu meio lhe ensinou, exige e aprova. As coisas devem ser, de fato, assim?

Fato é que, ao perceberem alguma “segurança”, eles passam a frequentar e seguir praticamente um ritual de se dirigirem ao mesmo local, seguindo, todos, os mesmos passos, e deixam de usar crivo ou critérios protetivos e evolutivos.

É quando, incrivelmente, se cumpre o filme que o próprio Caititu havia tentado apresentar sistematicamente aos irmãos chicos, em sinal de alerta.

Nesse momento começa ser construída a cerca, sem alardes, sutilmente, bem ao lado do monte de milho, onde eles se se posicionam tranquilamente para comer.

Faz-se um lado de cada vez. Sutileza total. Eles se acostumam facilmente com a cerca, e não “dão bola” pra ela, porque o que importa é a “comida na mesa” e manterem os costumes do grupo.

Eles ficam encantados (como que sob efeito de feitiço) quando se espalha o “milho gratuito”, por meio das mais diversas formas e facilidades. Migalha sobre migalha, para eles significa milho e mais milho! É assim que vão se esquecendo até de quem são, de como caçar, e se submetem facilmente à servidão.

Eles retornam fiel e instintivamente para comer mais ração no dia seguinte. Enquanto isso é construído outro pedacinho da cerca.

E no dia seguinte? Lá estão eles de novo! E vão se acostumando, cada vez mais, com a cena; e se deliciam no milho! As modernas técnicas de plantio e colheita coordenada pelos humanoides deixam os porcos selvagens cada dia mais mansos, enfeitiçados e prisioneiros do sistema.

Nas poucas vezes em que percebem “o cerco” se formando, eles ficam correndo e dando voltas dentro da cerca, como que em protesto. Mas logo voltam a comer o milho fácil e gratuito. Ficam tão acostumados ao alimento cômodo que perdem a capacidade de caçar na floresta. Por isso, aceitam mais e mais a servidão, pois, agora, além de INCAPAZES, se tornam DEPENDENTES.

Prossegue-se construindo a cerca no entorno, pouco a pouco, um segmento por vez, até fechar todos os lados em volta dos porcos.

Hábil, tênue e grácil: Na última parte, é deixada uma passagem cada vez menor, para que eles sempre se sintam tranquilos e confiantes.

Se a cerca for circular, melhor ainda: os humanoides vão instalando uma parte por vez, deixando os porcos selvagens ainda mais submissos e amansados, sem perceberem o aprisionamento se fechando.

Ao final, se instala um postigo (portinhola) no último pedacinho da cerca.

Os suínos selváticos – com seus quarenta e quatro dentes – já estão habituados à ração fácil, ao costume da manada, e às cercas, e, assim, começam passar pelo próprio postigo, indo e vindo, sem nenhuma preocupação.

Agora, basta qualquer humanoide escolher o dia certo e, simplesmente, fechar a portinhola.

Prontinho: uma multidão de porcos “altamente selvagens” foi capturada e dominada, de forma extremamente simples, líquida e certa! E, com o passar dos tempos, vão passando por mutações e alterando suas próprias capacidades e características essenciais.

Simples assim, passo a passo, até que, no último instante, os porcos perdem a liberdade e a própria essência e razão de existência.

Desesperados, passam a degringolar ainda mais em círculos dentro da cerca, mas já estão presos. Depois, descansam e continuam comer o milho fácil e gratuito.

E assim é em Suide Gray e seus babirussas, até os dias de hoje.

Fim!

֍


Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência!

Moral da história? Por sua mente, inteligência e criatividade.

Quantas partes da cerca já colocaram em torno de você? Em quais áreas da vida?


Em parábola, não se pode tomar todos os detalhes ao pé da letra, pretendendo literalidade: são realidades semelhantes, não idênticas, colocadas em paralelo. É o tríplice:

Quem tem

1) ouvidos (físicos) para

2) ouvir (capacidade auditiva),

3) ouça (volitiva: queira dar ouvidos).

“Muitos cortejam o favor do príncipe;

e cada um é amigo daquele que dá presentes”

(Provérbios de Salomão 30’4 – John Darby translated | Mishlei |  מִשְׁלֵי שְׁלֹמֹה)


Carpe diem. Frui nocte!

Envie para quem você ama!

Δ.β.

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Dan Berg

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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