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ONG ajuda mulheres indianas que são banidas do convívio familiar durante o período menstrual

As chamadas “cabanas de época”, onde milhares de mulheres e meninas indianos são recluídas durante a menstruação no estado indiano de Maharashtra, estão passando por uma reforma.

Uma instituição de caridade com sede em Mumbai, a Kherwadi Social Welfare Association, está substituindo as cabanas quase dilapidadas – conhecidas como kurma ghar ou gaokor – por casas de repouso modernas com camas, banheiros internos, água encanada e painéis solares para eletricidade.

A atitude destaca a necessidade de combater o estigma associado ao que é uma função corporal natural, porém os críticos dizem que uma estratégia melhor seria livrar-se totalmente dessas cabanas de época. Mas os ativistas legam que eles oferecem às mulheres um lugar seguro e confortável para ficar, mesmo que o estima continue.

Na Índia, os períodos menstruais sempre foram um tabu social, com mulheres menstruadas sendo consideradas impuras. Durante esse período elas são excluídas de funções sociais e religiosas e tem sua entrada em templos, santuários e até cozinhas negadas.

O tabu sobre a mestruação em toda Índia ainda é grande, mas a exclusão que as mulheres das tribos Gond e Madia em Gadchiroli, um dos distritos mais pobres e subdesenvolvidos da Índia, enfrentam ainda é maior.

A permanência das crenças tradicionais significa que essas mulheres devem passar pelo menos cinco dias por mês em uma cabana, localizada principalmente nos arredores da aldeia, na orla da floresta. Elas não têm permissão para cozinhar ou tirar água do poço da aldeia e dependem de comida e água fornecidas por parentes do sexo feminino. Se um homem as toca, ele tem que se banhar imediatamente porque ele também se torna impuro.

As mulheres da aldeia de Tukum – onde a primeira cabana do período moderno foi construída no ano passado – dizem que para as 90% das mulheres menstruadas em sua aldeia, a vida é muito mais fácil agora. A estrutura de barro e bambu com telhado de palha não tinha portas ou janelas e carecia das instalações mais básicas. Para tomar banho ou lavar roupa, elas tinham que caminhar até um rio a um quilômetro de distância.

Surekha Halami, 35, diz que durante o verão as cabanas eram insuportavelmente quentes e infestadas de mosquitos; nos invernos, era um frio congelante; e durante as chuvas, o telhado vazava e poças se formavam no chão. 

Sheetal Narote, 21, diz que quando teve que ficar sozinha na cabana, ela não conseguia dormir à noite de medo. “Estava escuro dentro e fora e eu queria ir para casa, mas não tive escolha.”

Sua vizinha, Durpata Usendi, de 45 anos, diz que há 10 anos uma mulher de 21 anos que estava na cabana morreu após uma picada de cobra.

“Os homens, mesmo os de sua família, observavam de longe. Não podiam tocá-la porque as mulheres menstruadas são impuras. Enquanto o veneno se espalhava por seu corpo, ela se deitou no chão se contorcendo de dor e morreu algumas horas depois.”

As novas cabanas são feitas de garrafas de água de plástico recicladas cheias de areia, e pintads de um vermelho alegre com centenas de tampas de garrafa azuis e amarelas embutidas nas paredes. Tem oito camas e “o mais importante” banheiros internos e uma porta que elas podem trancar.

Nicola Monterio, da Kherwadi Social Welfare Association, instituição responsável pela reformulação das cabanas diz que as mesmas custaram 650.000 rúpias (US $ 8.900; £ 6.285) e levaram dois meses e meio para ser construídas. A ONG construiu quatro cabanas e mais seis devem ser inauguradas em meados de junho deste ano nas aldeias vizinhas.

Dilip Barsagade, presidente da Sparsh, uma instituição de caridade local que trabalha na área há 15 anos, diz que há alguns anos visitou 223 cabanas e descobriu que 98% eram “insalubres e inseguras”. A partir de anedotas fornecidas pelos moradores, ela compilou uma lista de “pelo menos 21 mulheres que morreram enquanto estavam nas cabanas por motivos totalmente evitáveis”.

Seu relatório levou a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Índia (NHRC) a instruir o governo estadual a “erradicar o costume”, pois constituía “uma grave violação dos direitos humanos das mulheres … sua segurança, higiene e dignidade”, mas mesmo assim a tradição permanece profundamente enraizada na cultura indiana.

As mulheres em Tukum – e nas aldeias vizinhas – afirmaram que não queriam ir para as cabanas, que a falta de instalações às vezes as irritava, mas acrescentaram que se sentiam impotentes para mudar uma prática impregnada de séculos de tradição.

Surekha Halami disse que temia que, se desafiassem a tradição, enfrentariam a ira dos deuses e provocariam doenças e morte na família.

O objetivos das ONGS com a construção das cabanas é proporcionar às mulheres um espaço seguro enquanto se busca erradicar a prática de exclusão das mulheres durante o período menstrual por meio da educação da comunidade.

Com informações de BBC


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Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores possui graduacao em Historia pela Universidade Norte do Parana (2018) e pos-graduacao em Gesto Educacional (2019) pela mesma instituicao. É correspondente para o Duna Press desde fevereiro de 2020 cobrindo assuntos referentes a direitos humanos e realeza com foco no Oriente Medio.
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